Inacessabilidade como expressão de luxo

‘Quando só a urgência é capaz de captar a atenção, é hora de rever tudo.’

Capacidade de foco e contemplação é uma característica pouco presente nessa geração, que cresceu em um contexto multitasking e tem como comportamento vigente a ausência de linearidade. Isso é um reflexo da Internet: navegar entre abas, abertas às dezenas, é tão natural quanto monitorar o cotidiano através de fotos, check-ins e updates.
É um constante esforço coletivo em marcar presença e sentir-se presente. O abuso dessas ferramentas de registro geram dependência e promovem o desfoque, mesmo que não intencionalmente. Todos sabemos disso. Mas todos seguimos fazendo isso.

Quanto maior o multitasking, menor a capacidadede absorção.

Porém essas interrupções têm sido evitadas por uma crescente minoria, convencida de que criatividade e atenção são irmãs siamesas. Hoje observa-se um contra-movimento comportamental que prega o monotasking como a solução para uma vida com mais memórias, saúde e dedicação. O presente passa a ser revalorizado pelo agora, e não pelo registro que deixou. Nessa lógica, filmar sua música favorita durante um show faz tão pouco sentido quanto fotografar sua comida.
O não-registro, a contemplação, o detox digital e o monotasking entram em cena para propor uma revalorização do momento.
Durante muito tempo, possuir o mais novo modelo de smartphone e usufruir das mais impressionantes novidades tecnológicas eram sinônimos de status.

Hoje, parece algo desesperado.
A clássica fila na loja da Apple se tornou o retrato triste. Por mais que pareça arcaico em um contexto contemporâneo, a inacessibilidade vai se tornar, em breve, um luxo. Trata-se de reduzir os excessos da conectividade de modo a evitar distrações.
Quando online e offline são conceitos que deixam de se distinguir, ausentar-se é visto como cura para a ressaca do multi-tasking.
Mas como conseguir focar vivendo em um mundo onde janelas tem abas?

Tabless Thursday é uma proposta da revista The Atlantic que sugere a quinta-feira como o dia em que você só poderá abrir uma aba do seu navegador.
Na Internet, serviços do tipo “leia depois” estão se popularizando. Eles contribuem com o monotasking ao permitir que se deixe para mais tarde aquilo que tira a atenção do agora.

Quando só a urgência é capaz de captar a atenção, é hora de rever tudo. Estamos em todos os lugares parcialmente e em nenhum lugar por inteiro. Em um tempo de realidades infinitas, a onipresença cede espaço para o foco.

As melhores coisas acontecem apenas uma vez.

fonte:

ponto.me

trechos de uma matéria publicada por Eduardo Biz

parabéns para você

É só uma festa de aniversário de uma criança de dois anos, diria minha cunhada, especialista em adestrar inquietos. Chego, sempre sem o presente, e cumprimento todas as pessoas educadamente.

As crianças mais velhas brincam e os animadores tentam dar conta delas e dos bebês, normalmente cercados por uma roda de capoeira formada pelas babás, vestidas de branco. Aliás, se tem uma coisa que me deixa muito constrangida é animador de festa infantil [com microfone]. Aquela alegria exagerada me deixa dura. Já me escondi muito em banheiro de festa naquele momento constrangedor em que eles pedem a participação dos adultos em alguma das brincadeiras.

Voltando à festa. Chegar sem criança, sem presente e sem alguém [leia-se um marido ou namorado] já me torna minoria naquele espaço, onde a maioria tem mais de três pessoas no porta-retratos. Onde a maternidade é considerada uma benção e uma cruz. “Olha, é uma delícia! mas dá um trabalho!”. Pais e mães trocam informações, contam sobre o comportamento das crianças nas inúmeras viagens e, por ignorância, se sentem muito bem em dizer que as crias são hiperativas, por exemplo. Mas, esse assunto rende um outro texto.

Voltando à festa: mini hambúrguer, mini cachorro-quente, mini coxinha, pipoca em mini saquinhos, batatas fritas em mini saquinhos, uma mini loucura. As crianças brincam e os adultos devoram todos os mini. E o serviço do pessoal do bufê não para. São pagos por hora e precisam se livrar – servir – todos os minis durante o tempo previamente acertado com a mãe, dona da festa. A mãe, normalmente, é uma pessoa que perdeu a noção do ridículo, vira para você e diz:

– Eu queria fazer uma reunião simples. Não queria deixar passar em branco, sabe? [referindo-se ao aniversário do refém]. Mas, sabe como é. A gente começa a fazer a lista e acaba incluindo a família toda, os amiguinhos da creche, e o que era para ser festinha acaba virando um festão. Aliás, você gostou da decoração?

– Gostei. Galinha Pintadinha. Super original. Mas o importante mesmo é que ele [o aniversariante] está aproveitando, não é mesmo?

Pronto! Ganhei pontos. Toda mãe tem dificuldade em entender que uma criança de dois anos aproveita qualquer festa. Ela não está se divertindo porque a festa é dela. Ela está apenas se divertindo.

O presente, sinceramente, me parece ofensivo. Uma criança ganhar cerca de 50 brinquedos e 13 camisetas da GAP [do pessoal que faz enxoval em Orlando porque “sai mais em conta”] num só dia e com dois anos de idade é uma tremenda falta de educação, em todos os sentidos. É uma falta de respeito com os valores da criança. Algumas coisas, eu engulo. Outras, não.

O pior é que, mesmo sabendo disso, os adultos seguem condicionados. As próprias mães e pais dizem, com frequência e sorrindo: “Criança se diverte com qualquer coisa. Olha lá o Pedrinho. Tem mais de 57 brinquedos educativos e está se divertindo com uma colher de pau e um rolo de papel higiênico”.

Eles [os pais] colocam as crianças em escolinhas construtivistas. A primeira palavra que a criança aprende a falar é “sustentabilidade” e, em casa, o exemplo é justamente o oposto. Um consumismo assustador, uma necessidade de preencher vazios internos com coisas. A desvalorização do simples. Desperdiça-se tudo, inclusive o que não tem preço e talvez seja o único que tenha valor: tempo.

Os pais se sentem culpados pela ausência e compram o “vale-perdão” em lojas de brinquedos. A essa altura do campeonato, o conceito que a escola diz que prega já foi para a casa do cacete. E, eu também. Como eu não tenho filhos, não abro a boca, porque a resposta é sempre a mesma: “se você fosse mãe, você entenderia”.

– Tem cerveja? – perguntei ao garçom. – Tem. Já trago para a senhora.

– Olha, traz quente e no copo de plástico, por favor! Falta muito pro parabéns? Eu quero levar a lembrancinha sustentável, saquinho com sementes, o vaso e o pequeno regador!

Odisséia

Carma
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

“A lei do Karma é aquela lei que ajusta o efeito a sua causa, ou seja, todo o bem ou mal que tenhamos feito numa vida virá trazer-nos consequências boas ou más para esta vida ou próximas existências. A lei do Karma é imodificável, e é conhecida em várias religiões como justiça celestial.”

Pronto! Seja um rico feliz. Não se sinta culpado.

O pobre foi uma pessoa má na sua última encarnação e Giselle Bundchen, por exemplo, deve ter sido uma espécie de Madre Teresa de Calcutá. Nesta encarnação – como modelo – está colhendo os frutos que plantou na sua última vida.

Ao contrário de outras tradições, como a americana e a européia, em que a riqueza é vista como sinal de competência e dedicação, qualidades fundamentais para o desenvolvimento da nação e da própria família, no Brasil, a riqueza é vista como a responsável por todos os nossos males.

As pessoas sentem vergonha de ter dinheiro. Não falo da realeza, dos ricos de fábrica, como os Guinle, por exemplo. Falo do novo rico, aquele que fica com um pé lá e o outro cá.

Compram roupas caríssimas e jogam as etiquetas no lixo, para que a empregada não saiba o valor das roupas. _ Silvia, eu gastei em uma blusa metade do salário que pago para Odisséia!, diz Rosana, referindo-se ao salário da empregada. Aceito mas não entendo ou entendo mas não aceito. É subestimar demais a inteligência da ‘funcionária’.

_ Rosana, seus filhos estudam em escola particular, você tem um carro que parece uma balsa, seu marido tem outro. Enfim, você acha que Odisséia, sua empregada [secretária, perdão] só percebe que o que ela ganha não é muito no momento em que você chega em casa com novas roupas e sapatos?

_ Não é isso, Silvia! É que eu acho uma falta de respeito mostrar o quanto eu sou capaz de pagar por uma blusa! Sinto vergonha de gastar muito com o que não é importante, compreendeu?

_ Não, não compreendi. Converse com Odisséia. Posso apostar que ela vai te dizer o seguinte:

_ Patroa, a senhora tem o direito de gastar seu dinheiro como quiser. Aproveite. Não se sinta culpada. Se o fosse a senhora, faria o mesmo!

_ Você acha?

_ Tenho certeza! Livre-se dessa culpa. Você sempre foi assim. Seus sapatos sempre preencheram seus vazios, minha Marie Antoinette de Quintino! [ risos ]. Considere-se uma acumuladora. Está em voga e tem tratamento.