churrasco corporativo

Como tudo que é convencional, o churrasco corporativo acontece e deve ser respeitado. Você precisa ir e acreditar que, se não fosse, as pessoas sentiriam sua falta. É um evento descontraído, cronometrado e absolutamente previsível.

Sim, você deve acordar, vestir sua camisa polo, comparecer para prestigiar o anfitrião _ seu chefe _ e fazer parte do evento de confraternização. O churrasco foi programado, o grupo trocou mensagens pelo whastAspp a semana inteira. Tudo é artificialmente informal no mundo dos Falcons e das Barbies.

Sua mulher está animada para sair de casa. Ela veste Prada e está louca para conhecer a Alessandra, a nova mulher do seu chefe. Por foto, ela já conhece até a avó de Lelê. Afinal, é para isso que serve o Facebook. Desde que seu chefe se separou da primeira mulher, todas as Barbies estão curiosas e, como são treinadas, vão tratar the bitch com muito respeito e educação.

“Aquela piranha de trinta e dois anos que acabou com um casamento de 22 anos. Deixou Margarete absolutamente deprimida. Imagine. Recomeçar a vida com 45 anos e dois filhos, sozinha!”

_ Não ouse elogiar Alessandra, Marcos. Mantenha-se calado. Você já me disse que ela é educada e simpática. Basta. Educada e simpática é a Vania, sua secretária, que não tem o menor sex appeal. Vista as crianças! Já separei os shorts, camisetas e os crocs dos meninos . O sobrinho da vizinha da Joice [ a folguista ] morreu num tiroteio e ela não veio trabalhar. Foi para o enterro. Vamos encarar o churrasco sem babá.

Ah! Leve saquê e se ofereça para fazer caipisaquês de lichia. Aquela que eu adoro. Vai fazer sucesso.

Nesse tipo de evento, as pessoas bebem moderadamente. Ninguém sai trançando as pernas, ninguém fala o que pensa. Todos parecem ser a mesma pessoa, exceto a Lelê, que ainda não leu o manual completo do mundo corporativo e não parece estar interessada em fazer parte do grupo. Ela não tem filhos matriculados na escola americana, ela é professora de ioga e, em breve, terá seu próprio studio. George, o chefe de todos, acha que ela deve investir nesse mercado:

_ As pessoas estão cada vez mais procurando esse tipo de atividade. Eu vou dar uma força para a Alessandra. Ela é uma excelente professora. Já viajou para Índia. Gosta do que faz. Até eu estou começando a pensar em praticar! [ risos ]

Branco no salão. Ninguém fala nada. Até que uma das esposas, Bianca, que já tinha tomado caipirinha de lichia e cerveja artesanal diz:

_ Legal, George. Acho bacana. Novos desafios, novas oportunidades. Enquanto isso, a Margarete cuida das crianças e usa o dinheiro da pensão para fazer terapia ou, quem sabe, turbinar os seios, para ver se sente mais bonita e consegue encontrar um namorado.

_ Bianca, tome uma Coca-Cola e vá ver como estão seus filhos, querida, diz George, educadamente.

Branco no salão II. O fora que George deu em Bianca vai ser o assunto da semana. Marido de Bianca vai ficar sem olhar pra cara dela por uma semana.

Romano, um dos gerentes, surge e diz:

_ Gente, o churrasco está pronto. George, esses rapazes que você contratou são super eficientes.

Obviamente, George contratou uma empresa que monta o churrasco de forma discreta e elegante. E tudo está delicioso. As variadas saladas, as carnes, o arroz com ovo mexido e batata palha [ aquele que tem um nome em São Paulo e outro no Rio ] e as carnes, que são todas maturadas.

Barbies e Falcons fazem, primeiro, os pratos das crianças, picam a carninha, chamam as crianças [ gritam ] e, depois de acomodarem as crias numa mesa, fazem os seus pratos e continuam conversando sobre obviedades. Escola é um dos assuntos preferidos da ala feminina. Também sentem necessidade de falar sobre o que estão comendo. E as coisas mudaram de nome. Carne não é carne. Carne é proteína. Salada é fibra, acho eu. Arroz é carboidrato #ninguémpode.

Eles elogiam a comida e, ao mesmo tempo, não conseguem parar de falar em dietas.

Comem a sobremesa e repetem: _Hum! Esse cheesecake está uma delícia. Quem fez?, _Hum! Quem fez esse cheesecake? Está delicioso! _ Nossa! Você já provou o cheesecake? É pra comer rezando ou ajoelhado ou coisa parecida!

“Vou ter que malhar muito para queimar essas calorias! Ha! Ha! Ha!”

_ De quem é a receita, hein?

_ É minha, responde Alessandra. Farinha integral. Gostaram? Posso passar a receita para o George e ele repassa para vocês pelo WhatsApp.

_ Legal!, diz uma das Barbies, com cara de paisagem.

Mas, o importante é que :

O plano de saúde de todos está pago. As férias estão garantidas e a rotina das Barbies e dos Falcons é o mais almejado dos marasmos.

Na volta, no carro:

_ Marcos, se você pensar em começar a fazer ioga, eu te mato.

_ Namastê, meu amor! [risos]. E a Bianca, hein? Perdeu a oportunidade de ficar calada!

#sheton

Quando decidi ou por mim decidiram acender as luzes de emergência, foi um horror. De pijamas, completamente bêbada, comprando pó, numa esquina, com travestis de programa. Dali, direto para o Sheraton. A mocinha chamou mais duas amigas para a festa. Não fez diferença alguma. Nunca estive tão sozinha.
Uma dificuldade entrar no Sheraton com travestis de programa. Eles andam sem documentos e não têm cartão de crédito.

Meu figurino era inesquecível. Um sobretudo clássico, parisiense. Por baixo, um pijama azul que eu amava e perdi, calça e camisa de lã, e… havaianas laranjas. O laranja da havaiana combinava com os detalhes da bolsa de couro. Estava de óculos escuros e com um coque exótico, cabelo preso por uma caneta. Os caras do hotel_ na certa_ acharam que estavam diante de uma celebridade decadente.

Depois de muito, mas muito louca, elas decidiram me convencer a mudar meu visual. Fomos às compras. Tirei meu pijama e saí da loja [não me lembro qual] de vestido. Um tecido leve, marcando meus seios, com um dos ombros aparecendo – ainda de havaianas – desfilando pela orla como se estivesse numa passarela. Perdi o pijama – deixei na loja – mas não abandonei meu sobretudo.

Voltamos para o hotel. O pessoal da segurança sempre por perto. E eu não conseguia entender a razão. Cheguei a chama-los de preconceituosos. Bebi mais cerveja, pedi Moët & Chandon.
Estava só estava brincando de jogador de futebol renomado.
Dali pra frente, amnésia absoluta. Cinderela desmaiou.

Como estavam comigo na hora da compra do vestido, até empréstimo tentaram fazer usando meu cartão. Óbvio. Eu devo ter digitado a senha na cara de uma delas. Se bobear, anotei a senha em um papel, já no patético estágio ‘somos amigas’.
O banco tentando entrar em contato comigo. Meu celular tocava mas ninguém atendia.

Entraram em contato com meu irmão sugerindo a hipótese de eu ter sido sequestrada. Família em pânico. Acordei e uma delas estava ao meu lado, me vigiando. Quando eu me dei conta dos fatos, abri a carteira e vi que faltava um dos meus cartões. Me fiz de idiota, o que não foi difícil.

Se ela sacasse que eu tinha percebido, poderia me agredir ou coisa parecida, até porque elas não têm nomes nem documentos [daí a confusão para entrar no hotel]. Me olhou com uma cara de desprezo e perguntou: “Quer dar mais um teco?”. E eu: “Óbvio”. Pensei: “Se eu tiver um minuto de lucidez, aqui, cometo suicídio”. E dá-lhe cocaína de última categoria.

A bonita entrou na onda de fazer selfies na varanda do hotel, mostrando a praia, fazendo aquele bico ridículo e usando a hashtag #sheton. Ela não conseguia falar ou escrever “Sheraton”. Enquanto ela pirava nas fotos, mandei uma mensagem pro meu irmão e ele veio me resgatar.

A mensagem foi breve: “Estou no Sheraton, na merda. Vem me buscar”. Ele entrou como se fosse mais um convidado da festa e #sheton não perdeu tempo, deixou claro que estava disponível. Cabelo para um lado, cabelo pro outro, chiclete na boca. Provavelmente, sentiu-se insegura com a chegada de um homem. Afinal de contas, ela era cúmplice de um golpe.
Ele – meu irmão – sentiu um super alívio quando me viu num quarto decente, ao lado de um pedreiro fantasiado de mulher.
Afinal, eu estava viva e intacta.

Fechamos a conta. Pagamos #sheton pelo tempo que ela esteve fazendo um programa e fomos pra casa dele. No meu telefone, uma foto minha, apagada, jogada na cama. Sim, #sheton fez questão de deixar registrado o meu estado lastimável pós boa-noite-cinderela.
A foto, eu apaguei. Os flashes, ainda não. Ver #sheton tomando banho foi quase como estar diante de uma obra de arte desproporcional. Escatologia pura.

Fora a despesa financeira, aquela sensação de cansaço, fracasso e derrota demorou um tempo para sair das minhas costas. O banco bloqueou a festa das meninas. A minha já tinha terminado no momento em que vesti aquele sobretudo e resolvi chamar um táxi para sair de casa e virar pó, na praça do Ó.

coragem

De uns tempos pra cá, todos se tornaram educados, quero dizer, oprimidos. Ninguém pode brigar com ninguém, ninguém pode reagir. Ser reativo não é qualidade. É defeito. É sinônimo de descontrole. E ninguém – principalmente no universo corporativo – admira um reativo.

Todos se tornaram civilizados. É admirável.
Até nas escolinhas é feito um enorme drama se uma criança arranhar um amiguinho.
O que arranhou vai pro banco dos réus e tem que pedir desculpas _ em praça pública _ para o arranhado. Assim, desde cedo, ele aprende a lição, dizem os pais, envaidecidos.

O sintoma agressão tem que deixar de existir e, com o treino, a agressão não desaparece mas permanece “controlada”, entre muitas aspas.

É considerado inadequado, inadmissível.
Mandou alguém à merda, processo.

Ninguém mais pode perder a cabeça.
Confundiu um ator negro com um garçom, é preconceito.
E o garçom _ a vítima_ não pode nem pensar em meter a mão na cara da celebridade. Tudo bem contraditório, do jeito que eu gosto.

E, para não perder a cabeça, as pessoas se medicam, lutam jiu-jitsu, fazem ioga, meditam, trabalham 30 horas por dia, bebem, se tornam compulsivas sexuais, entre outros transtornos.
Já dominada por essa opressão, que não aconteceu do dia pra noite, a sociedade acata a agressão como grande inimiga e se torna apática.

Acontece que isso vai contra a natureza do ser humano e a violência torna-se latente. Por isso, as pessoas começam a perder a cabeça porque o vaso de planta que estava do lado direito da varanda está do lado esquerdo, porque o trânsito está lento, porque o carro da frente demorou três segundos para andar depois que o sinal ficou verde e, por conta disso, começam a cavar pequenas discussões sem fundamento onde eles possam extravasar a vontade que têm de enforcar a esposa, por exemplo.
Porque as pessoas têm desejos velados que elas não têm coragem de revelar nem para elas mesmas. E eu não estou falando de psicopatas.

Ninguém pode enforcar ninguém. Isso é crime. Mas, uma boa discussão no trânsito, pode não dar em nada e o sujeito coloca parte da sua agressão oprimida para fora, da forma que a sociedade ainda concebe como permitida.

O lema, durante um assalto, por exemplo, é: não reaja. É óbvio. O sujeito está armado e você não. E, mesmo que estivesse, sua educação cristã não lhe permitiria sacar uma arma e acertar o peito do sujeito, fosse ele um homem de 34 anos ou um menino de 15.

Você teria coragem de matar o Cabral?
Não. E não me digam: “Ah, eu teria! Com requintes de crueldade.”
Você já foi oprimido. Você não conseguiria.
Você já acha que vai pro inferno se tirar a vida de alguém e “eu acho que eu não conseguiria conviver com isso, sabe?”

Um muçulmano já come a tua mulher na tua frente e te deixa durinho de medo de morrer.

Agora, coragem para mandar alguém fazer, talvez você tenha.
Porque anularam a violência, mas a covardia está de pé e FORTE.