coragem

De uns tempos pra cá, todos se tornaram educados, quero dizer, oprimidos. Ninguém pode brigar com ninguém, ninguém pode reagir, ninguém pode perder a cabeça. Ser reativo não é uma qualidade. É defeito. É sinônimo de descontrole. E ninguém – principalmente no universo corporativo – admira um reativo. O bacana é você ser aquele cara super educado, excessivamente simpático, que dá bom dia até para o poste e controla todas as suas emoções, mesmo que para isso, você esteja medicado.

Todos se tornaram civilizados. É admirável.
Até nas escolinhas é feito um enorme drama se uma criança arranhar um amiguinho.
O que arranhou vai pro banco dos réus e tem que pedir desculpas _ em praça pública _ para o arranhado. Assim, desde cedo, ele aprende a lição, dizem os pais, envaidecidos.

O sintoma agressão tem que deixar de existir e, com o treino, a agressão permanece “controlada”, entre muitas aspas.

Mandou alguém à merda, processo.
Confundiu um ator negro com um garçom, é preconceito.
E o garçom _ a vítima_ não pode nem pensar em meter a mão na cara da celebridade. Tudo bem contraditório, do jeito que eu gosto.

E, para não perder a cabeça, as pessoas se agridem de forma velada, se medicam, leem OSHO, acham que meditam, trabalham 18 horas por dia, bebem pra cacete, se tornam compulsivas sexuais, enfim, buscam válvulas de escape.
Já dominada por essa opressão, que não aconteceu do dia pra noite, a sociedade acata a agressão como grande inimiga e se torna apática.

Porém, isso vai contra a natureza do ser humano e a agressão se torna latente. Por isso, homens e mulheres começam a perder a cabeça porque o vaso de planta que estava do lado direito da varanda está do lado esquerdo, porque o trânsito está lento, porque o carro da frente demorou três segundos para rodar depois que o sinal ficou verde e, por conta disso, começam a cavar pequenas discussões sem fundamento onde eles conseguem extravasar a vontade que têm de enforcar o chefe ou a esposa, por exemplo.
Porque as pessoas têm desejos velados que elas não têm coragem de revelar nem para elas mesmas. E eu não estou falando de psicopatas. Estou falando de pessoas que divulgam o significado da palavra resiliência do Facebook. Essa moda vai deixando as pessoas doentes e criando bombas-relógio.

Mudando o foco.

O ‘resilientes’ não perdem a oportunidade de entrar numa boa discussão no trânsito para colocar parte dessa agressão oprimida para fora, da forma que a sociedade ainda concebe como permitida. E jamais deixam de colocar todo seu ódio para fora quando encontram um post controverso no Facebook.

Porém, durante um assalto, por exemplo, os corajosos se tornam mansos e o lema propagado é o : _ Não reaja! O importante é que você saia vivo. Que nada de mal te aconteça.

É óbvio. O sujeito está armado e você não. E, mesmo que estivesse, sua educação não lhe permitiria sacar uma arma e acertar o peito do sujeito, fosse ele um homem de 34 anos ou um menino de 15. Porque matar é pecado grave. É forte. E tem punição, inclusive divina. Porque só Deus pode tirar a vida de uma pessoa.

Você teria coragem.
E não me diga: “Ah, eu teria! Com requintes de crueldade.”
Você já foi oprimido. Você não conseguiria.
Você já acha que vai pro inferno se tirar a vida de alguém e… “eu acho que eu não conseguiria conviver com isso, sabe?”

Um muçulmano já come a tua mulher na tua frente e te deixa durinho de medo de morrer.

Agora, coragem para mandar alguém fazer, talvez você tivesse ou tenha. Porque anularam a agressão, mas a covardia continua de pé, patetas.

ménage à trois

Fui chamada pra ir à casa do novo namorado de uma amiga deslumbrada que estava numa fase divina, pelo que apontavam minhas narinas.

O cara morava na Vieira Souto, numa cobertura fria. Cheguei achando que encontraria o casal e mais alguns convidados. Me enganei. Ele abriu a porta, apresentou-se e me perguntou se eu queria beber alguma coisa.

Eu disse: ‘Não, por enquanto, não’. Minha amiga estava no banho e a intenção do rapaz, de sobrancelhas mal feitas [detalhe importantíssimo] era me ciceronear até que a retardada da Mari aparecesse. Me ofereceu pó. Não, obrigada. Isso é bom demais. Dá “poblema”!

Percebi que eu era a única convidada da festa. Num telão gigante, desses que sempre me apavoraram quase tanto quanto um caraoquê, rolava um show do Sting. A vista era espetacular e seria sedutora se eu não fosse carioca. O apartamento era impessoal, como um quarto de hotel. Sofá branco. Todos amam sofás brancos. E se tem uma coisa que eu não entendo é esse fascínio da maioria pela tal da cobertura. É o céu? Deve ser. Não me importa. Eu preciso de um teto, que é para eu nem pensar em voar.

Minha amiga demorava no banho e ele insistiu nas bebidas. Começou a me mostrar o que ele tinha no bar. Eu disse que preferia tomar uma cerveja. Muito educado, aquele ser magro, com uma calça jeans justa, uma camisa social branca e gel nos cabelos, virou pra mim e disse:

‘Não tenho cervejas aqui. Podemos ir até o posto comprar algumas’. Pensei que fôssemos esperar minha amiga sair do banho. Me enganei pela segunda vez. Ele pega a chave do carro e diz: ‘Vamos! Quando ela sair do banho, já estaremos de volta’. Descemos para a garagem. Ele me dá a chave do carro e diz, numa tentativa de aproximação, forjando uma intimidade que não existia: ‘Quero ver você dirigindo’. Fiquei sem graça, sem ação. Achei aquilo estranho, cafona, sertanejo, mas, não deixei de sorrir e dizer: ‘Vamos lá! Posso fumar? Adoro fumar enquanto dirijo’. Ele tirou um isqueiro do bolso.

O carro era um desses que faz brilhar os olhos de ‘gold diggers’. Não me lembro o modelo. Era uma coisa conversível, preta e pequena. Não conheço automóveis. Sofro quando chamo um Uber. Um Corolla modelo tal. _ Sei! Salve o pisca-alerta!

Voltando ao texto.

Para não parecer uma idiota, que era exatamente como eu estava me sentindo, sentei no banco do motorista e saí da garagem como uma lady. Ele, obviamente, começou a me dizer que eu estava dirigindo um carro assim e assado [descrições técnicas chatíssimas]. Chegamos ao posto em menos de cinco minutos. Compramos a cerveja e voltamos para o apartamento.

Quando chegamos, minha amiga já estava linda, leve e solta. Eu fiz de conta que estava achando tudo aquilo natural e agradável. Não era hora de puxar ela pro banheiro e perguntar: ‘Que porra é essa?’. Percebi que a onda dos dois era outra. Começamos a beber. Pensei: Pronto! Agora, fica mais fácil entender qualquer porra. _ Escuta, podemos ouvir outra coisa? Tem Fábio Jr.?

Mari me olhou com olhos arregalados. Ah! Mari. Tudo tem um preço. Quero ver como é que fica esse clima ao som de Caça e Caçador? E não me olhe torto que eu peço Oswaldo Montenegro, porque metade de mim está C, e a outra metade, está U.

O rapaz das sobrancelhas feitas já estava íntimo e fazia o possível para me agradar. Mari disse que eu estava brincando. Mesmo assim, com todo respeito, ele respondeu: _ Não tenho Fábio Jr. Mari não era Mari. Estava vivendo um personagem.

Os dois se sentaram no sofá e começaram a se beijar. Eu, meio sem graça, fui até a varanda fumar um cigarro. Olho pra trás. Vejo minha amiga de joelhos e o cara sentado no sofá. Na mesa de centro, uma bandeja de prata, recheada.

Eles estavam começando e a intenção era que eu entrasse no jogo. A cena era mais assustadora que tentadora. Eu precisava de algo mais pra sair daquela varanda e caminhar até o sofá. Aliás, eu só precisava  gostar de ménage à trois.

Passei pela sala, dei um bom tapa na bandeja de prata, um outro na bunda da Mari e fui até a cozinha. Achei a chave do carro, desci e voltei para casa, dirigindo aquela coisa conversível, preta e pequena.

parabéns para você

É só uma festa de aniversário de uma criança de dois anos, diria minha cunhada, especialista em adestrar inquietos. Chego, sempre sem o presente, e cumprimento todas as pessoas educadamente.

As crianças mais velhas brincam e os animadores tentam dar conta delas e dos bebês, normalmente cercados por uma roda de capoeira formada pelas babás, vestidas de branco. Aliás, se tem uma coisa que me deixa muito constrangida é animador de festa infantil e babá vestida de branco. Aquela alegria exagerada me deixa dura. Já me escondi muito em banheiro de festa naquele momento constrangedor em que eles pedem a participação dos adultos em alguma das brincadeiras.

Chegar sem criança, sem presente e sem alguém [leia-se um marido ou namorado] já me torna minoria naquele espaço, onde a maioria tem mais de três pessoas nos porta-retratos. Onde a maternidade é considerada uma benção e uma cruz. “Olha, ser mãe foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida. É sublime. Um amor indescritível! Mas dá um trabalho!”. Pais e mães trocam informações, falam sobre o comportamento das crianças e blá-blá-blá.

Voltando à festa: mini hambúrguer, mini cachorro-quente, mini coxinha, pipoca em mini saquinhos, batatas fritas em mini saquinhos, uma mini loucura. As crianças brincam e os adultos devoram todos os mini. A alimentação saudável vai pro brejo. E o serviço do pessoal do bufê não para. São pagos por hora e precisam se livrar – servir – todos os minis durante o tempo previamente acertado com a mãe, dona da festa. A mãe, normalmente, é uma pessoa que perdeu a noção do ridículo e acredita que uma criança de dois anos tem consciência de que está fazendo aniversário.

_ Eu queria fazer uma reunião simples. Não queria deixar passar em branco, sabe? Mas, sabe como é. A gente começa a fazer a lista e acaba incluindo a família toda, os amiguinhos da creche, e o que era para ser uma festinha acaba virando um festão. Aliás, você gostou da decoração?

_ Gostei. Galinha Pintadinha. Super original. Mas o importante mesmo é que ele está aproveitando, não é mesmo?

Pronto! Ganhei pontos. Como já disse, toda mãe tem dificuldade em entender que uma criança de dois anos aproveita qualquer festa. Ela não está se divertindo porque a festa é dela. Ela está apenas se divertindo.

O presente, sinceramente, me parece ofensivo. Uma criança ganhar cerca de 50 brinquedos num só dia é uma tremenda falta de educação, em todos os sentidos. Algumas coisas, eu engulo. Outras, não.

Colocam as crianças em escolinhas construtivistas e, em casa, o exemplo é justamente o oposto. Um consumismo assustador, uma necessidade de preencher vazios internos com coisas. A desvalorização do simples. Desperdiça-se tudo, inclusive o que não tem preço: tempo.

Os pais se sentem culpados pela ausência e compram o “vale-perdão” em lojas de brinquedos. A essa altura do campeonato, o conceito que a escola diz que prega já foi para a casa do cacete. E, eu também. Como eu não tenho filhos, não abro a boca, porque a resposta é sempre a mesma: “se você fosse mãe, você entenderia”.

_Tem cerveja? – perguntei ao garçom. – Tem. Já trago para a senhora.

_Olha, traz quente e no copo de plástico, por favor! Falta muito pro parabéns? Eu quero levar a lembrancinha sustentável, saquinho com sementes, o vaso e o pequeno regador!