parabéns para você

É só uma festa de aniversário de uma criança de dois anos, diria minha cunhada, especialista em adestrar inquietos. Chego, sempre sem o presente, e cumprimento todas as pessoas educadamente.

As crianças mais velhas brincam e os animadores tentam dar conta delas e dos bebês, normalmente cercados por uma roda de capoeira formada pelas babás, vestidas de branco. Aliás, se tem uma coisa que me deixa muito constrangida é animador de festa infantil e babá vestida de branco. Aquela alegria exagerada me deixa dura. Já me escondi muito em banheiro de festa naquele momento constrangedor em que eles pedem a participação dos adultos em alguma das brincadeiras.

Chegar sem criança, sem presente e sem alguém [leia-se um marido ou namorado] já me torna minoria naquele espaço, onde a maioria tem mais de três pessoas nos porta-retratos. Onde a maternidade é considerada uma benção e uma cruz. “Olha, ser mãe foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida. É sublime. Um amor indescritível! Mas dá um trabalho!”. Pais e mães trocam informações, falam sobre o comportamento das crianças e blá-blá-blá.

Voltando à festa: mini hambúrguer, mini cachorro-quente, mini coxinha, pipoca em mini saquinhos, batatas fritas em mini saquinhos, uma mini loucura. As crianças brincam e os adultos devoram todos os mini. A alimentação saudável vai pro brejo. E o serviço do pessoal do bufê não para. São pagos por hora e precisam se livrar – servir – todos os minis durante o tempo previamente acertado com a mãe, dona da festa. A mãe, normalmente, é uma pessoa que perdeu a noção do ridículo e acredita que uma criança de dois anos tem consciência de que está fazendo aniversário.

_ Eu queria fazer uma reunião simples. Não queria deixar passar em branco, sabe? Mas, sabe como é. A gente começa a fazer a lista e acaba incluindo a família toda, os amiguinhos da creche, e o que era para ser uma festinha acaba virando um festão. Aliás, você gostou da decoração?

_ Gostei. Galinha Pintadinha. Super original. Mas o importante mesmo é que ele está aproveitando, não é mesmo?

Pronto! Ganhei pontos. Como já disse, toda mãe tem dificuldade em entender que uma criança de dois anos aproveita qualquer festa. Ela não está se divertindo porque a festa é dela. Ela está apenas se divertindo.

O presente, sinceramente, me parece ofensivo. Uma criança ganhar cerca de 50 brinquedos num só dia é uma tremenda falta de educação, em todos os sentidos. Algumas coisas, eu engulo. Outras, não.

Colocam as crianças em escolinhas construtivistas e, em casa, o exemplo é justamente o oposto. Um consumismo assustador, uma necessidade de preencher vazios internos com coisas. A desvalorização do simples. Desperdiça-se tudo, inclusive o que não tem preço: tempo.

Os pais se sentem culpados pela ausência e compram o “vale-perdão” em lojas de brinquedos. A essa altura do campeonato, o conceito que a escola diz que prega já foi para a casa do cacete. E, eu também. Como eu não tenho filhos, não abro a boca, porque a resposta é sempre a mesma: “se você fosse mãe, você entenderia”.

_Tem cerveja? – perguntei ao garçom. – Tem. Já trago para a senhora.

_Olha, traz quente e no copo de plástico, por favor! Falta muito pro parabéns? Eu quero levar a lembrancinha sustentável, saquinho com sementes, o vaso e o pequeno regador!

peterson

Troca de mensagens pelo WhatsApp

_ Iza, são 10 horas da manhã e o calor, aqui no centro da cidade, já está insuportável. Vou andando até a Nilo Peçanha. Te ligo quando sair da consulta. Beijos.
_ Boa sorte! Almoçaremos juntas.

E lá fui eu encontrar o psiquiatra que – além das drogas – trabalha com o divino.
Pelo que entendi, ele dá passes, lê o Evangelho Segundo o Espiritismo, faz palestras.
Eu não acredito em Deus. Acho espiritismo o ó. Mesmo assim, fui marcar ponto em mais uma furada.

Na portaria do prédio, esperando o elevador, eu e mais 5 pessoas. Eu conto o número de pessoas que entra no elevador porque sou claustrofóbica. Se eu perceber que o meio de transporte mais seguro da face da terra vai ficar muito cheio, eu saio.
Como só havia um elevador funcionando e ele demorou para chegar, tive tempo de analisar superficialmente as pessoas que estavam ao meu redor e que subiriam comigo.
Um entregador de farmácia, uniformizado; um advogado que eu não sei se era ou não advogado; um cabeludo com pinta de músico; uma mulher que me lembrou Uma Thurman e um cara com um perfume forte, uma barriga ofensiva, uma calça jeans e uma camisa do Botafogo. Tinha o cabelo acaju e parecia muito contente.

O elevador chegou.

Entrei por último porque gosto de ficar ao lado da porta. Apertei o 19.
O elevador era moderno, tinha aquela TV que ninguém assiste. Foi colocada ali para que os passageiros possam fixar o olhar na tela e não sejam obrigados a interagir.
O elevador começou a subir e Barriga não se conteve. Olhou para o entregador da farmácia e disse: _ Rapaz, para que time você torce? O rapaz demorou alguns segundos, respirou e respondeu de forma seca:
_ Não torço pra nenhum time. Não gosto de futebol.

Botafoguense insistiu:_ Brasileiro, trabalhador e não torce para nenhum time? Já impaciente, o entregador reage: _ Sou brasileiro e trabalhador. Isso não me obriga a gostar nem de futebol, nem de brasileiros.
Uma Thurman, que até então estava calada, não se conteve e deu uma gargalhada inesperada. O cara do terno da Vila Romana, o advogado, continuava calado e lia atentamente o horóscopo do dia.
Não resisti e perguntei: _ Qual é o seu signo? _ Touro.

De repente, a luz do elevador se apaga e ele para. Em silêncio, esperamos alguns segundos. Eu – no escuro – abri minha bolsa, peguei um comprimido de Frontal e coloquei debaixo da língua.

Uma Thurman, como se estivesse na calçada, resolve acender um cigarro e ninguém fala nada. O Barriga calou a boca – por pouco tempo – obviamente.
Smartphones se transformaram em lanternas.

O entregador da farmácia, super tranquilo, diz: _ Vou acabar perdendo a hora do meu almoço!
Eu_ respirando fundo_ disse: _ Não vai, não! Impossível que esse prédio não tenha gerador. E, para o meu desespero, ele responde: _ Não tem, não. Já fiquei preso aqui, outras vezes.

_ Bom, eu preciso sair daqui, agora. Pelo amor de Deus, arrombem essa porta!, exclamei, apavorada.
Uma Thurman diz: _ Gata, relaxe. Alguém vai nos tirar aqui de dentro. Quer um trago?
_ Não. Quero um inteiro.
Pensei: Se esse taurino fosse ariano, já teria metido o pé na porta! Lembrei de um  psiquiatra que eu conheci e que me espantou quando arrombou a porta do consultório porque havia esquecido as chaves com a secretária.
Botafoguense se pronuncia:
_ Vocês não podem fumar aqui dentro! Isso é um absurdo.
Uma Thurman responde:
_ Transporte-se para 1960, por favor.

O cabeludo, que até então estava mudo, de repente, disse:

_ Esta merda vai cair! Vamos sair daqui! Com os braços, abriu as portas do elevador. Com as pernas, manteve as portas abertas para que todos pudessem saltar. Estávamos entre um andar e outro. O espaço era pequeno mas, no desespero, um metro é o suficiente. Uma Thurman ficou tensa, disse que se a luz voltasse, nossos corpos seriam partidos ao meio. Eu, desesperada, fui a primeira a pular. Estávamos no sétimo andar. Atrás de mim, veio o entregador de farmácia.

O advogado, o botafoguense e Uma Thurman hesitaram. Uma teve que empurrar o Barriga. Um metro, pra ele, era pouco espaço. O advogado também ajudou. Quem tem barriga sempre atrapalha a passagem.

O cabeludo disse: _ Vamos lá! Rápido. Sem pensar muito, por favor! Bom, todos saíram e o elevador não despencou.
O cabeludo chamava-se Peterson e já havia trabalhado na manutenção do prédio.

Descemos pelas escadas, usando os telefones como lanterna.

Troca de mensagem pelo WhatsApp

_ Iza, são 11 e eu já estou liberada. Desisti da consulta. Vou tomar uma cachaça na padaria com alguns amigos que fiz no elevador. Quando você estiver liberada pro almoço, me avise.
_ Como é que é?
_ É.