Eleanor Rigby

Do décimo primeiro andar de um prédio, Flamengo, eu observo as janelas de um outro prédio. São diversas cenas separadas por paredes de concreto.
Vejo uma gorda, de camisola, sentada no sofá, assistindo TV. Ao lado dela, um labrador, deitado _tão gordo quanto ela. Era uma pintura de Lucian Freud.
Vejo um casal arrumando as plantas do apartamento. Coloca a samambaia pra cá, coloca a samambaia pra lá. Pareciam namorados ou recém casados. Ele sem camisa. Um corpo bonito. Um magro com poucos músculos. Ela de short e camiseta. Não parecia o tipo de mulher que se preocupa com o corpo. Tinha pinta de quem jamais se preocupou em fazer exercícios físicos. Era ruiva. Tinha os cabelos compridos e presos num rabo de cavalo bagunçado. Ali, rolava sexo.
Do outro lado, um casal de velhinhos jogando cartas. Um apartamento cinematográfico. A decoração era a mesma desde o dia em que se casaram. Senti vontade de bater naquela porta. De pirar naquele cenário. As cortinas da década de 70.
Trago meu olhar pra mim. Emocionalmente tetraplégica, fumando um cigarro, observando a vida alheia e pensando…
Isso daria um livro.
Por último, vejo uma mulher de meia idade, acendendo um incenso, uma vela e embaralhando cartas numa mesa coberta por uma toalha que mais parecia uma canga. Não era gorda nem magra e fazia a linha hippie. Com certeza, estava esperando alguém _ uma cliente _ para jogar suas cartas de tarô.

Os apartamentos daquele prédio tinham sessenta metros quadrados. Abaixo do casal da samambaia, vivia um ciclista desses que pedalam às seis horas da manhã, de capacete e malhas fosforescentes coladas no corpo. Ele saía às seis, voltava por volta das sete e pendurava a bicicleta _ que ele jamais deixaria na garagem do prédio_ na parede da sala.
Depois de vinte minutos, aparecia de camisa social, calça jeans e um crachá pendurado no pescoço. Era jovem e morava sozinho. Assim que ele saía, chegava a empregada, uma senhora, negra e gorda, que me parecia muito simpática. Ela arrumava o apartamento e passava horas na cozinha. Com certeza, deixava comida pronta para o ciclista. Depois disso, ela deitava na cama do rapaz e assistia TV por uma ou duas horas. Era uma figura.
Às quatro da tarde, ela se levantava e partia. Às quatro, eu deveria ter me levantado para ir para terapia. O ciclista chegava em casa às vinte horas, em ponto. Tirava a camisa social, jogava o crachá na mesa onde ficava o computador, entrava na cozinha e voltava com um prato de pedreiro. Comia com pressa, já checando seus e-mails ou perdendo seu tempo no Facebook. Terminava de comer, levava o prato até a cozinha e voltava para o computador. Se acomodava na cadeira e _ de janelas abertas _ abria o zíper da calça jeans, colocava o pau para fora e tocava uma bela de uma punheta. Já relaxado, ele se levantava, tomava um banho, vestia uma cueca [ estilo boxer ], deitava na cama, ligava a TV e dormia. Uma rotina invejável.
Eu _ neurótica _ pensava: Vai deixar a louça suja? E a toalha molhada, assim, pendurada, de qualquer jeito, na porta do armário?

Comecei a receber dezenas de mensagens da minha psicoterapeuta. Afinal, depois que comecei a observar homo sapiens entre quatro paredes, eu perdi completamente a vontade de falar de mim. Eu já me conheço e me acho um pé no saco.
Desci para comprar cigarros.
Me deparei com o casal da samambaia na banca de jornal. Impossível não reconhecer aqueles cabelos ruivos. Descobri que ela também fumava e era artista plástica. Os dois estavam discutindo. Ele dizia que ser artista plástica no Brasil era uma merda e ela defendia sua classe.
_ A arte transforma. A arte cura. A arte puxa. A arte empurra…
Ela era muito bonita. Tinha uma tatuagem estilo Yann Black nas costas. Ele também era interessante. Tinha um olhar penetrante, uma voz forte e um escorpião tatuado no braço. Todo escorpiano adora ser escorpiano. E eles têm motivo para isso.
Voltei pra casa.
Ciclista estava ganhando uma vizinha. Uma modelo. De cara, pensei que fosse a Guta Ruiz. Não era. Porém, era tão bonita e assustadoramente presente quanto a Guta.
O porteiro a ajudou a largar duas malas e três caixas de papelão no chão. Ela abriu as janelas e saiu. Voltou com algumas sacolas do Zona Sul. Colocou algumas coisas na geladeira e outras no banheiro.
Depois disso, tirou a camiseta e abriu uma garrafa de vinho.
A taça, ela tirou de uma das caixas de papelão.
De sutiã preto e calça jeans, colocou fones no ouvido e começou a arrumar suas coisas. Aquele apartamento _ com certeza_ já estava decorado.
De repente, ela se aproximou da janela e começou a observar sua vista. Enrolou um baseado com maestria.
Era fino e _ provavelmente_ tinha oito centímetros. Acendeu e fumou, tranquilamente, como se estivesse em Santiago, no Chile.

Perdi o sono e resolvi dar uma volta pelo quarteirão. Obviamente, não resisti e resolvi passar em frente ao prédio que eu observava pelos fundos. Para a minha surpresa, encontrei a escatológica obra de Lucian Freud em movimento.
A gorda – de camisola – e seu labrador, ainda mais gordo, estavam na rua, em frente ao prédio. Ela não parecia disposta a levar o cão para passear. Provavelmente descia para que ele pudesse usar um canteiro como banheiro químico.
Continuei caminhando. Na esquina, encostada num poste, estava a bela ruiva, fumando um cigarro e enxugando suas lágrimas.
Que sorte!
Perfeito! Vou perguntar se ela tem fogo.
_ Oi!
_ Oi!
_ Você pode me emprestar seu isqueiro?
_ Lógico.
Depois de acender o cigarro, discretamente, perguntei:
_ Você está bem?
_ Não. Acho que bebi demais e acabei discutindo com meu namorado. Vai passar! Ele _ quando quer _ consegue me fazer sentir a pior das mulheres. A família dele é esquerdista e eles são todos muito radicais. A irmã dele me detesta sem motivo algum. Gente mal educada. Gente que não sabe conversar.
_ Você quer conversar?
_ Quero! Estou longe dos meus amigos, insegura, sem grana.
_ Você é paulista, certo?
_ Certo!
_ Que merda!
Ela riu e me perguntou:
_ Por que?
_ Por amor, você veio parar neste balneário decadente!
Ela deu uma gargalhada e disse:
_ Meu nome é Lia.
_ O meu é Silvia. Eu moro naquele prédio ali, no apartamento 1103.
_ Bom saber! Não tem nenhum barzinho aqui por perto pra gente tomar um chope?
_ Você disse que já bebeu demais!
_ Foda-se!
_ Que assim seja!
_ Deixa eu te perguntar uma coisa: a irmã do seu namorado é feia?
_ É…
_ Explicado.

Para quem se perdeu entre os capítulos, Lia é a ruiva exótica, parceira do escorpiano, artista plástica e dona das samambaias.
Sentamos no Belmonte, Praia do Flamengo, número 300.
Apesar de ter dito que já havia bebido, Lia me parecia sóbria.
Estava de calça jeans, havaianas e com uma camiseta do gato Felix.
Lia lembrou-se que estava sem carteira. Eu tinha cinquenta reais no bolso.
Depois do terceiro chope, Lia resolveu falar sobre imbecilização coletiva e me disse que era fã de Olavo de Carvalho. Depois do quarto chope, vieram as artes plásticas e Adriana Varejão.
No quinto, ela me contou que tinha 32 anos, era católica e devota de Santa Teresinha de Lisieux.
No sexto, ela me contou que conheceu Marcelo _ o escorpiano _ na Barra do Sahy, litoral norte de São Paulo, quando tinha 28 anos.
No sétimo, eu já não estava mais em condições de contar chopes e precisava _ urgentemente_ de uma pausa para fumar um cigarro.
Deixamos a mesa e fomos pro lado de fora do bar.
Cada uma com sua tulipa em punho.
Depois de dar o primeiro trago, Lia olhou nos meus olhos e perguntou:
_ Você me acha atraente?
_ Sim. Atraente e carente [ risos ]
_ Eu tenho uma necessidade ridícula de me sentir desejada.
_ Todos temos.
_ Eu não parei de falar desde que chegamos aqui.
_ Eu percebi.
_ Então, antes de conhecer o Marcelo, eu passei quatro anos com a Debora. Nós estudávamos juntas na FAAP. Ela foi o primeiro grande amor da minha vida. Foram quatro anos intensos. Quando resolvemos morar juntas, o relacionamento foi pro saco.
_ Por que?
_ Ela se tornou possessiva.
_ E o Marcelo?
_ O Marcelo é ciumento. É diferente.
_ E_ pelo visto_ não é preconceituoso?
_ Não. Se é, faz de conta que não é. Eu me apaixono por gente. Ele, por um acaso, tem um pau. Explicar isso para essa gente medieval que insiste em etiquetar-se é um caos!
_ Concordo. Por que você estava chateada quando nos encontramos hoje?
_ Por causa das samambaias que estamos pendurando lá em casa! O Marcelo estuda feng shui e eu acho isso ridículo!
Deixei Lia em frente ao prédio dela. Quando caminhava pela calçada, ela gritou:
_ Eu não esqueci. Aquele prédio ali, apartamento 1103.
Pensei! Minha Santa Teresinha de Lisieux!

No dia seguinte, Lia deixa um bilhete na portaria:

“Minha vida parou.
Eu podia respirar, comer, beber e dormir, porque não podia ficar sem respirar, sem comer, sem beber e sem dormir; mas não existia vida, porque não existiam desejos cuja satisfação eu considerasse razoável.
Se eu desejava algo, sabia de antemão que, satisfizesse ou não meu desejo, aquilo não daria em nada.”
_ Liev Tolstói

Eu peço socorro. Editor, preciso de um assistente. Não estou satisfeita com a Lia que criei e não sei o que fazer com ela. O ciclista está pronto. A namorada é só o começo.
A modelo tem que entrar em jogo. De repente, ela pode resolver marcar uma hora com a taróloga. E o casal de velhinhos_ por enquanto_ joga uma partida de dominó ou cheira uma carreira de pó.
Marcelo, namorado da Lia, que curte feng shui, é arquiteto. Ele vai revolucionar o mercado de grades protetoras. Vai criar grades personalizadas feitas com cabos de aço. Essa coisa deselegante, que faz com que qualquer apartamento pareça um galinheiro, vai ganhar um concorrente.
Além disso, precisamos de mais acontecimentos.
Até o momento, nossa única obra de arte é a gorda de Lucian Freud.

A vida do ciclista mudou. A casa dele também. A namorada trazia quadros, orquídeas. Juntos, eles instalaram um ventilador de teto na sala e um novo aparelho de ar condicionado no quarto. Até as persianas eles trocaram. As antigas pareciam persianas de escritório. Cheguei a pensar que ela fosse se mudar pra lá.
Lembro-me de um dia que os dois discutiram e ela saiu derrubando o que via pela frente. Deixou cair um vaso de flores que ela mesmo havia levado para aquele ninho. Ele saiu atrás, meio desesperado, de camisa social e crachá, atrasado pro trabalho.
A moça_ que eu conhecia não sei de onde_era delicada e intensa.
Depois de 20 minutos, ela voltou. A empregada já estava no apartamento. Ela ajudou a empregada a recolher os cacos de vidro.
Deixou um bilhete na mesa do computador. Saiu e voltou com um vaso novo. Deixou o vaso vazio. Achei poético.
Fumou um cigarro e partiu.

Ele chegou, leu o bilhete, olhou pro vaso mas não pegou o telefone. E eu torcendo para que ela voltasse. No dia seguinte, ele acordou cedo e preparou-se para pedalar. Ele saiu, ele voltou. Tomou seu banho e foi trabalhar. E nada dela chegar. À noite, graças a Santa Teresinha de Lisieux, ela apareceu. Achei que fossem retomar a discussão. Enganei-me. Os dois se abraçaram. Ele segurava o rosto dela e a cobria de beijos, como quem diz: _ Jamais faça isso outra vez! Nesta noite, eles não foram pra cama. Ele sentou a moça na mesa. Arrancou a calça jeans que ela vestia e ajoelhou-se. As pernas dela tremiam e ele prosseguia. Desnecessário descrever aqui o que ele fazia. Levantou-se e beijando-a na boca meteu o pau onde queria.
Bruto e romântico. Um homem apaixonado. Ela parecia uma escultura em movimento.

O edifício _ que se chamava Eleanor Rigby _ pegou fogo no dia 10 de fevereiro de 2015. Ninguém sobreviveu, exceto eu, que era a namorada do ciclista e estava na farmácia, comprando a pílula do dia seguinte.

Antes do incêndio, Yolanda, a obra de Lucian Freud, resolveu livrar seu labrador da monotonia e contratou um passeador pra lá de excêntrico. Uma bicha frenética, designer de sobrancelhas. Estilo nasci na merda, superei todos os obstáculos e não suporto gente que reclama da vida ao meu lado.
Ed era simpático e muito bem educado.
Pelas manhãs, ela passeava com cachorros. Durante a tarde, trabalhava num salão, desenhando sobrancelhas. Fora isso, Ed era vegano e fazia pratos incríveis sob encomenda.
Marcelo, namorado de Lia, vendeu seu projeto de grades de segurança personalizadas [ em cabos de aço inox ] para um escritório de arquitetura quase falido.
Lia_ ainda meio perdida_ resolveu fazer uma mini-horta na área verde do prédio. Com o consentimento da síndica, obviamente.
Isis, a modelo, morreu sem se ver na capa da Vogue do mês de março.
O incêndio começou no apartamento dos idosos.
Motivo: vazamento de gás na cozinha.
A taróloga não teve como prever nada disso.
O ciclista estava no elevador.

ps:
Ed também sobreviveu. Ele estava passeando com o labrador de Yolanda.

coragem

De uns tempos pra cá, todos se tornaram educados, quero dizer, oprimidos. Ninguém pode brigar com ninguém, ninguém pode reagir, ninguém pode perder a cabeça. Ser reativo não é uma qualidade. É defeito. É sinônimo de descontrole. E ninguém – principalmente no universo corporativo – admira um reativo. O bacana é você ser aquele cara super educado, excessivamente simpático, que dá bom dia até para o poste e controla todas as suas emoções, mesmo que para isso, você tenha que estar medicado.

Todos se tornaram civilizados. É admirável.
Até nas escolinhas é feito um enorme drama se uma criança arranhar um amiguinho.
O que arranhou vai pro banco dos réus e tem que pedir desculpas _ em praça pública _ para o arranhado. Assim, desde cedo, ele aprende a lição, dizem os pais, envaidecidos.

O sintoma agressão tem que deixar de existir e, com o treino, a agressão permanece “controlada”, entre muitas aspas.

Mandou alguém à merda, processo.
Confundiu um ator negro com um garçom, é preconceito.
E o garçom _ a vítima_ não pode nem pensar em meter a mão na cara da celebridade. Tudo bem contraditório, do jeito que eu gosto.

E, para não perder a cabeça, as pessoas se agridem de forma velada, leem OSHO, acham que meditam, trabalham 18 horas por dia, bebem pra cacete, se tornam compulsivas sexuais, enfim, buscam válvulas de escape.
Já dominada por essa opressão, que não aconteceu do dia pra noite, a sociedade acata a agressão como grande inimiga e se torna apática.

Porém, isso vai contra a natureza do ser humano e a agressão se torna latente. Por isso, homens e mulheres começam a perder a cabeça porque o vaso de planta que estava do lado direito da varanda está do lado esquerdo, porque o trânsito está lento, porque o carro da frente demorou três segundos para rodar depois que o sinal ficou verde e, por conta disso, começam a cavar pequenas discussões sem fundamento onde eles conseguem extravasar a vontade que têm de enforcar o chefe ou a esposa, por exemplo. Ou, até mesmo aquele cara que não concorda com o que você pensa sobre política.

Porque as pessoas têm desejos velados que elas não têm coragem de revelar nem para si mesmas. E eu não estou falando de psicopatas. Estou falando de pessoas que divulgam o significado da palavra resiliência em redes sociais. Essa moda vai deixando as pessoas doentes e criando bombas-relógio.

Mudando o foco.

O ‘resilientes’ não perdem a oportunidade de entrar numa boa discussão no trânsito para colocar parte dessa agressão oprimida para fora, da forma que a sociedade ainda concebe como permitida. E jamais deixam de colocar todo seu ódio para fora quando encontram um post controverso no Facebook, por exemplo.

Porém, durante um assalto, por exemplo, os corajosos se tornam mansos e o lema propagado é o : _ Não reaja! O importante é que você saia vivo. Que nada de mal te aconteça.

É óbvio. O sujeito está armado e você não. E, mesmo que estivesse, sua educação não lhe permitiria sacar uma arma e acertar o peito do sujeito, seja ele um homem de 34 anos ou um menino de 15. Porque matar é pecado grave. É forte. E tem punição, inclusive divina. Porque só Deus pode tirar a vida de alguém.

Você não teria coragem.
E não me diga: “Ah, eu teria! Com requintes de crueldade.”
Você já foi oprimido. Você não conseguiria.
Você já acha que vai pro inferno se tirar a vida de alguém e… “eu acho que eu não conseguiria conviver com isso, sabe?”

Um terrorista já come a tua mulher na tua frente e te deixa durinho de medo de morrer.

Agora, coragem para mandar alguém fazer, talvez você tenha. Porque anularam a agressão, mas a covardia continua de pé, patetas.

criança problema

O drama do smartphone
O uso excessivo de celulares pode causar problemas de saúde e complicações na vida social. Pedagogos, psicólogos, oftalmologistas vivem divulgando o mal que o smartphone pode causar.
Centenas de pais e mães_ desesperados_ trocam informações pelo WhatsApp.
O smartphone e o pó do miojo. [ a porra do sódio ]
Poucos são os pais que sabem lidar com essa geração que fica hipnotizada quando está de cara pro celular do papai ou da mamãe.
A grande maioria alega que não sabe o que fazer. Alguns estabelecem horários. Outros, dizem uma coisa e fazem outra, o que faz com que as crianças percebam a dificuldade dos pais em estabelecer limites.
Um dia pode. No outro, não.
Quando mamãe está almoçando com uma amiga, o smartphone vira uma babá. Porque mamãe precisa conversar e relaxar e _ em função da ausência de tempo e paciência _ ela se faz presente _ está ao lado da cria _ porém ausente.
A criança fica hipnotizada por um tempo, a mãe descansa, almoça em paz e _depois_ ela tira o retângulo da criança, porque precisa responder 257 mensagens de WhatsApp.
O que a criança mais ouve é: peraí, filho. Porque agora é a vez da mamãe ou do papai.
De um lado, os pais que se descabelam quando veem seus filhos hipnotizados, já que eles têm consciência de que aquilo não é um hábito saudável. Do outro, os que entregam os pontos e apresentam Ipads mini ou pro para crianças de três anos de idade.
Em restaurantes, é comum ver crianças hipnotizadas por Ipads ou smartphones. E aquilo produz um som desagradável. Não é som. É barulho.
E os pais relaxados, enchendo a cara de vinho.
E a criança vai ficando cinza. Abre mão de qualquer coisa para ficar ali, em estado de graça, assistindo Pepa Pig ou jogando alguma coisa que gere bastante ansiedade.
O papo dos pais é repetitivo. ‘É a geração deles. Na nossa época, era assim e assado.’ Detesto esse ‘na nossa época’.
Papinho chato que vai do nada para lugar nenhum.
O problema não é a geração deles. É a nossa.
A maioria dos pais trabalha e, quando estão com os comandantes, por culpa [ acho eu ], acabam deixando que eles tomem todas as decisões. Acontece que eles são crianças e, até onde eu sei, precisam de limites. Não faço ideia do que está certo ou errado. Só observo.
Esse tipo de desastre me desperta muita curiosidade.
Acredito que dizer não seja super saudável.
Smartphone é coisa de adulto. Ponto final.
Basta imaginar que o smartphone é um copo de cachaça.
Jamais, um pai ou uma mãe [ aqui entra o pavor do pó do miojo ] deixaria uma criança de sete anos tomar uma caipirinha.
As crianças percebem tudo e dominam os pais. Decidem muitas coisas, incluindo o modelo do carro que mamãe vai comprar.
E o mais bizarro é que os pais têm consciência disso, mas são pais.
É natural que se enganem.
E mesmo quando fazem merda, estão tentando acertar.
E os reféns ficam a mercê dos responsáveis, que querem ser pais participativos e não contratam babás no final de semana. Bom, não é bem assim. Tem gente que viaja para Disney e leva a babá. Eu bato palmas.
E, se eu fosse mãe, acho que colocaria meus filhos nas mãos de bons psicanalistas, desde cedo. Porque autoconhecimento não tem preço e não se aprende na escola.
Digo isso porque confio muito no divã e tenho amigas que pensam como eu. Os filhos são mais centrados e sabem se comunicar, coisa que a nossa geração vem desaprendendo.
Mas, a maioria prefere o judô, o balé, a capoeira, enfim, tudo que faça a criança gastar energia.
Difícil fazer um pai entender que o autoconhecimento é uma benção.
No Brasil, infelizmente, criança que frequenta um consultório é criança problema.
É difícil fazer os pais entenderem que a psicanálise pode ser muito divertida e despertar a criança para diversas realidades. O psicanalista infantil sabe conduzir a conversa e responder perguntas que os pais não respondem.
PS: Eu faço miojo com o pó letal para os meus sobrinhos.