Eleanor Rigby

Do décimo primeiro andar de um prédio, Flamengo, eu observo as janelas de um outro prédio. São diversas cenas separadas por paredes de concreto.
Vejo uma gorda, de camisola, sentada no sofá, assistindo TV. Ao lado dela, um labrador, deitado _tão gordo quanto ela. Era uma pintura de Lucian Freud.
Vejo um casal arrumando as plantas do apartamento. Coloca a samambaia pra cá, coloca a samambaia pra lá. Pareciam namorados ou recém casados. Ele sem camisa. Um corpo bonito. Um magro com poucos músculos. Ela de short e camiseta. Não parecia o tipo de mulher que se preocupa com o corpo. Tinha pinta de quem jamais se preocupou em fazer exercícios físicos. Era ruiva. Tinha os cabelos compridos e presos num rabo de cavalo bagunçado. Ali, rolava sexo.
Do outro lado, um casal de velhinhos jogando cartas. Um apartamento cinematográfico. A decoração era a mesma desde o dia em que se casaram. Senti vontade de bater naquela porta. De pirar naquele cenário. As cortinas da década de 70.
Trago meu olhar pra mim. Emocionalmente tetraplégica, fumando um cigarro, observando a vida alheia e pensando…
Isso daria um livro.
Por último, vejo uma mulher de meia idade, acendendo um incenso, uma vela e embaralhando cartas numa mesa coberta por uma toalha que mais parecia uma canga. Não era gorda nem magra e fazia a linha hippie. Com certeza, estava esperando alguém _ uma cliente _ para jogar suas cartas de tarô.

Os apartamentos daquele prédio tinham sessenta metros quadrados. Abaixo do casal da samambaia, vivia um ciclista desses que pedalam às seis horas da manhã, de capacete e malhas fosforescentes coladas no corpo. Ele saía às seis, voltava por volta das sete e pendurava a bicicleta _ que ele jamais deixaria na garagem do prédio_ na parede da sala.
Depois de vinte minutos, aparecia de camisa social, calça jeans e um crachá pendurado no pescoço. Era jovem e morava sozinho. Assim que ele saía, chegava a empregada, uma senhora, negra e gorda, que me parecia muito simpática. Ela arrumava o apartamento e passava horas na cozinha. Com certeza, deixava comida pronta para o ciclista. Depois disso, ela deitava na cama do rapaz e assistia TV por uma ou duas horas. Era uma figura.
Às quatro da tarde, ela se levantava e partia. Às quatro, eu deveria ter me levantado para ir para terapia. O ciclista chegava em casa às vinte horas, em ponto. Tirava a camisa social, jogava o crachá na mesa onde ficava o computador, entrava na cozinha e voltava com um prato de pedreiro. Comia com pressa, já checando seus e-mails ou perdendo seu tempo no Facebook. Terminava de comer, levava o prato até a cozinha e voltava para o computador. Se acomodava na cadeira e _ de janelas abertas _ abria o zíper da calça jeans, colocava o pau para fora e tocava uma bela de uma punheta. Já relaxado, ele se levantava, tomava um banho, vestia uma cueca [ estilo boxer ], deitava na cama, ligava a TV e dormia. Uma rotina invejável.
Eu _ neurótica _ pensava: Vai deixar a louça suja? E a toalha molhada, assim, pendurada, de qualquer jeito, na porta do armário?

Comecei a receber dezenas de mensagens da minha psicoterapeuta. Afinal, depois que comecei a observar homo sapiens entre quatro paredes, eu perdi completamente a vontade de falar de mim. Eu já me conheço e me acho um pé no saco.
Desci para comprar cigarros.
Me deparei com o casal da samambaia na banca de jornal. Impossível não reconhecer aqueles cabelos ruivos. Descobri que ela também fumava e era artista plástica. Os dois estavam discutindo. Ele dizia que ser artista plástica no Brasil era uma merda e ela defendia sua classe.
_ A arte transforma. A arte cura. A arte puxa. A arte empurra…
Ela era muito bonita. Tinha uma tatuagem estilo Yann Black nas costas. Ele também era interessante. Tinha um olhar penetrante, uma voz forte e um escorpião tatuado no braço. Todo escorpiano adora ser escorpiano. E eles têm motivo para isso.
Voltei pra casa.
Ciclista estava ganhando uma vizinha. Uma modelo. De cara, pensei que fosse a Guta Ruiz. Não era. Porém, era tão bonita e assustadoramente presente quanto a Guta.
O porteiro a ajudou a largar duas malas e três caixas de papelão no chão. Ela abriu as janelas e saiu. Voltou com algumas sacolas do Zona Sul. Colocou algumas coisas na geladeira e outras no banheiro.
Depois disso, tirou a camiseta e abriu uma garrafa de vinho.
A taça, ela tirou de uma das caixas de papelão.
De sutiã preto e calça jeans, colocou fones no ouvido e começou a arrumar suas coisas. Aquele apartamento _ com certeza_ já estava decorado.
De repente, ela se aproximou da janela e começou a observar sua vista. Enrolou um baseado com maestria.
Era fino e _ provavelmente_ tinha oito centímetros. Acendeu e fumou, tranquilamente, como se estivesse em Santiago, no Chile.

Perdi o sono e resolvi dar uma volta pelo quarteirão. Obviamente, não resisti e resolvi passar em frente ao prédio que eu observava pelos fundos. Para a minha surpresa, encontrei a escatológica obra de Lucian Freud em movimento.
A gorda – de camisola – e seu labrador, ainda mais gordo, estavam na rua, em frente ao prédio. Ela não parecia disposta a levar o cão para passear. Provavelmente descia para que ele pudesse usar um canteiro como banheiro químico.
Continuei caminhando. Na esquina, encostada num poste, estava a bela ruiva, fumando um cigarro e enxugando suas lágrimas.
Que sorte!
Perfeito! Vou perguntar se ela tem fogo.
_ Oi!
_ Oi!
_ Você pode me emprestar seu isqueiro?
_ Lógico.
Depois de acender o cigarro, discretamente, perguntei:
_ Você está bem?
_ Não. Acho que bebi demais e acabei discutindo com meu namorado. Vai passar! Ele _ quando quer _ consegue me fazer sentir a pior das mulheres. A família dele é esquerdista e eles são todos muito radicais. A irmã dele me detesta sem motivo algum. Gente mal educada. Gente que não sabe conversar.
_ Você quer conversar?
_ Quero! Estou longe dos meus amigos, insegura, sem grana.
_ Você é paulista, certo?
_ Certo!
_ Que merda!
Ela riu e me perguntou:
_ Por que?
_ Por amor, você veio parar neste balneário decadente!
Ela deu uma gargalhada e disse:
_ Meu nome é Lia.
_ O meu é Silvia. Eu moro naquele prédio ali, no apartamento 1103.
_ Bom saber! Não tem nenhum barzinho aqui por perto pra gente tomar um chope?
_ Você disse que já bebeu demais!
_ Foda-se!
_ Que assim seja!
_ Deixa eu te perguntar uma coisa: a irmã do seu namorado é feia?
_ É…
_ Explicado.

Para quem se perdeu entre os capítulos, Lia é a ruiva exótica, parceira do escorpiano, artista plástica e dona das samambaias.
Sentamos no Belmonte, Praia do Flamengo, número 300.
Apesar de ter dito que já havia bebido, Lia me parecia sóbria.
Estava de calça jeans, havaianas e com uma camiseta do gato Felix.
Lia lembrou-se que estava sem carteira. Eu tinha cinquenta reais no bolso.
Depois do terceiro chope, Lia resolveu falar sobre imbecilização coletiva e me disse que era fã de Olavo de Carvalho. Depois do quarto chope, vieram as artes plásticas e Adriana Varejão.
No quinto, ela me contou que tinha 32 anos, era católica e devota de Santa Teresinha de Lisieux.
No sexto, ela me contou que conheceu Marcelo _ o escorpiano _ na Barra do Sahy, litoral norte de São Paulo, quando tinha 28 anos.
No sétimo, eu já não estava mais em condições de contar chopes e precisava _ urgentemente_ de uma pausa para fumar um cigarro.
Deixamos a mesa e fomos pro lado de fora do bar.
Cada uma com sua tulipa em punho.
Depois de dar o primeiro trago, Lia olhou nos meus olhos e perguntou:
_ Você me acha atraente?
_ Sim. Atraente e carente [ risos ]
_ Eu tenho uma necessidade ridícula de me sentir desejada.
_ Todos temos.
_ Eu não parei de falar desde que chegamos aqui.
_ Eu percebi.
_ Então, antes de conhecer o Marcelo, eu passei quatro anos com a Debora. Nós estudávamos juntas na FAAP. Ela foi o primeiro grande amor da minha vida. Foram quatro anos intensos. Quando resolvemos morar juntas, o relacionamento foi pro saco.
_ Por que?
_ Ela se tornou possessiva.
_ E o Marcelo?
_ O Marcelo é ciumento. É diferente.
_ E_ pelo visto_ não é preconceituoso?
_ Não. Se é, faz de conta que não é. Eu me apaixono por gente. Ele, por um acaso, tem um pau. Explicar isso para essa gente medieval que insiste em etiquetar-se é um caos!
_ Concordo. Por que você estava chateada quando nos encontramos hoje?
_ Por causa das samambaias que estamos pendurando lá em casa! O Marcelo estuda feng shui e eu acho isso ridículo!
Deixei Lia em frente ao prédio dela. Quando caminhava pela calçada, ela gritou:
_ Eu não esqueci. Aquele prédio ali, apartamento 1103.
Pensei! Minha Santa Teresinha de Lisieux!

No dia seguinte, Lia deixa um bilhete na portaria:

“Minha vida parou.
Eu podia respirar, comer, beber e dormir, porque não podia ficar sem respirar, sem comer, sem beber e sem dormir; mas não existia vida, porque não existiam desejos cuja satisfação eu considerasse razoável.
Se eu desejava algo, sabia de antemão que, satisfizesse ou não meu desejo, aquilo não daria em nada.”
_ Liev Tolstói

Eu peço socorro. Editor, preciso de um assistente. Não estou satisfeita com a Lia que criei e não sei o que fazer com ela. O ciclista está pronto. A namorada é só o começo.
A modelo tem que entrar em jogo. De repente, ela pode resolver marcar uma hora com a taróloga. E o casal de velhinhos_ por enquanto_ joga uma partida de dominó ou cheira uma carreira de pó.
Marcelo, namorado da Lia, que curte feng shui, é arquiteto. Ele vai revolucionar o mercado de grades protetoras. Vai criar grades personalizadas feitas com cabos de aço. Essa coisa deselegante, que faz com que qualquer apartamento pareça um galinheiro, vai ganhar um concorrente.
Além disso, precisamos de mais acontecimentos.
Até o momento, nossa única obra de arte é a gorda de Lucian Freud.

A vida do ciclista mudou. A casa dele também. A namorada trazia quadros, orquídeas. Juntos, eles instalaram um ventilador de teto na sala e um novo aparelho de ar condicionado no quarto. Até as persianas eles trocaram. As antigas pareciam persianas de escritório. Cheguei a pensar que ela fosse se mudar pra lá.
Lembro-me de um dia que os dois discutiram e ela saiu derrubando o que via pela frente. Deixou cair um vaso de flores que ela mesmo havia levado para aquele ninho. Ele saiu atrás, meio desesperado, de camisa social e crachá, atrasado pro trabalho.
A moça_ que eu conhecia não sei de onde_era delicada e intensa.
Depois de 20 minutos, ela voltou. A empregada já estava no apartamento. Ela ajudou a empregada a recolher os cacos de vidro.
Deixou um bilhete na mesa do computador. Saiu e voltou com um vaso novo. Deixou o vaso vazio. Achei poético.
Fumou um cigarro e partiu.

Ele chegou, leu o bilhete, olhou pro vaso mas não pegou o telefone. E eu torcendo para que ela voltasse. No dia seguinte, ele acordou cedo e preparou-se para pedalar. Ele saiu, ele voltou. Tomou seu banho e foi trabalhar. E nada dela chegar. À noite, graças a Santa Teresinha de Lisieux, ela apareceu. Achei que fossem retomar a discussão. Enganei-me. Os dois se abraçaram. Ele segurava o rosto dela e a cobria de beijos, como quem diz: _ Jamais faça isso outra vez! Nesta noite, eles não foram pra cama. Ele sentou a moça na mesa. Arrancou a calça jeans que ela vestia e ajoelhou-se. As pernas dela tremiam e ele prosseguia. Desnecessário descrever aqui o que ele fazia. Levantou-se e beijando-a na boca meteu o pau onde queria.
Bruto e romântico. Um homem apaixonado. Ela parecia uma escultura em movimento.

O edifício _ que se chamava Eleanor Rigby _ pegou fogo no dia 10 de fevereiro de 2015. Ninguém sobreviveu, exceto eu, que era a namorada do ciclista e estava na farmácia, comprando a pílula do dia seguinte.

Antes do incêndio, Yolanda, a obra de Lucian Freud, resolveu livrar seu labrador da monotonia e contratou um passeador pra lá de excêntrico. Uma bicha frenética, designer de sobrancelhas. Estilo nasci na merda, superei todos os obstáculos e não suporto gente que reclama da vida ao meu lado.
Ed era simpático e muito bem educado.
Pelas manhãs, ela passeava com cachorros. Durante a tarde, trabalhava num salão, desenhando sobrancelhas. Fora isso, Ed era vegano e fazia pratos incríveis sob encomenda.
Marcelo, namorado de Lia, vendeu seu projeto de grades de segurança personalizadas [ em cabos de aço inox ] para um escritório de arquitetura quase falido.
Lia_ ainda meio perdida_ resolveu fazer uma mini-horta na área verde do prédio. Com o consentimento da síndica, obviamente.
Isis, a modelo, morreu sem se ver na capa da Vogue do mês de março.
O incêndio começou no apartamento dos idosos.
Motivo: vazamento de gás na cozinha.
A taróloga não teve como prever nada disso.
O ciclista estava no elevador.

ps:
Ed também sobreviveu. Ele estava passeando com o labrador de Yolanda.

ménage à trois

Fui chamada pra ir à casa do novo namorado de uma amiga deslumbrada que estava numa fase divina, pelo que apontavam minhas narinas.

O cara morava na Vieira Souto, numa cobertura fria. Cheguei achando que encontraria o casal e mais alguns convidados. Me enganei. Ele abriu a porta, apresentou-se e me perguntou se eu queria beber alguma coisa.

Eu disse: ‘Não, por enquanto, não’. Minha amiga estava no banho e a intenção do rapaz, de sobrancelhas mal feitas [detalhe importantíssimo] era me ciceronear até que a retardada da Mari aparecesse. Me ofereceu pó. Não, obrigada. Isso é bom demais. Dá “poblema”!

Percebi que eu era a única convidada da festa. Num telão gigante, desses que sempre me apavoraram quase tanto quanto um caraoquê, rolava um show do Sting. A vista era espetacular e seria sedutora se eu não fosse carioca. O apartamento era impessoal, como um quarto de hotel. Sofá branco. Todos amam sofás brancos. E se tem uma coisa que eu não entendo é esse fascínio da maioria pela tal da cobertura. É o céu? Deve ser. Não me importa. Eu preciso de um teto, que é para eu nem pensar em voar.

Minha amiga demorava no banho e ele insistiu nas bebidas. Começou a me mostrar o que ele tinha no bar. Eu disse que preferia tomar uma cerveja. Muito educado, aquele ser magro, com uma calça jeans justa, uma camisa social branca e gel nos cabelos, virou pra mim e disse:

‘Não tenho cervejas aqui. Podemos ir até o posto comprar algumas’. Pensei que fôssemos esperar minha amiga sair do banho. Me enganei pela segunda vez. Ele pega a chave do carro e diz: ‘Vamos! Quando ela sair do banho, já estaremos de volta’. Descemos para a garagem. Ele me dá a chave do carro e diz, numa tentativa de aproximação, forjando uma intimidade que não existia: ‘Quero ver você dirigindo’. Fiquei sem graça, sem ação. Achei aquilo estranho, cafona, sertanejo, mas, não deixei de sorrir e dizer: ‘Vamos lá! Posso fumar? Adoro fumar enquanto dirijo’. Ele tirou um isqueiro do bolso.

O carro era um desses que faz brilhar os olhos de ‘gold diggers’. Não me lembro o modelo. Era uma coisa conversível, preta e pequena. Não conheço automóveis. Sofro quando chamo um Uber. Um Corolla modelo tal. _ Sei! Salve o pisca-alerta!

Voltando ao texto.

Para não parecer uma idiota, que era exatamente como eu estava me sentindo, sentei no banco do motorista e saí da garagem como uma lady. Ele, obviamente, começou a me dizer que eu estava dirigindo um carro assim e assado [descrições técnicas chatíssimas]. Chegamos ao posto em menos de cinco minutos. Compramos a cerveja e voltamos para o apartamento.

Quando chegamos, minha amiga já estava linda, leve e solta. Eu fiz de conta que estava achando tudo aquilo natural e agradável. Não era hora de puxar ela pro banheiro e perguntar: ‘Que porra é essa?’. Percebi que a onda dos dois era outra. Começamos a beber. Pensei: Pronto! Agora, fica mais fácil entender qualquer porra. _ Escuta, podemos ouvir outra coisa? Tem Fábio Jr.?

Mari me olhou com olhos arregalados. Ah! Mari. Tudo tem um preço. Quero ver como é que fica esse clima ao som de Caça e Caçador? E não me olhe torto que eu peço Oswaldo Montenegro, porque metade de mim está C, e a outra metade, está U.

O rapaz das sobrancelhas feitas já estava íntimo e fazia o possível para me agradar. Mari disse que eu estava brincando. Mesmo assim, com todo respeito, ele respondeu: _ Não tenho Fábio Jr. Mari não era Mari. Estava vivendo um personagem.

Os dois se sentaram no sofá e começaram a se beijar. Eu, meio sem graça, fui até a varanda fumar um cigarro. Olho pra trás. Vejo minha amiga de joelhos e o cara sentado no sofá. Na mesa de centro, uma bandeja de prata, recheada.

Eles estavam começando e a intenção era que eu entrasse no jogo. A cena era mais assustadora que tentadora. Eu precisava de algo mais pra sair daquela varanda e caminhar até o sofá. Aliás, eu só precisava  gostar de ménage à trois.

Passei pela sala, dei um bom tapa na bandeja de prata, um outro na bunda da Mari e fui até a cozinha. Achei a chave do carro, desci e voltei para casa, dirigindo aquela coisa conversível, preta e pequena.

travessia

Travessia Petrópolis – Teresópolis.
Com aproximadamente 30km de extensão, a travessia é considerada uma das mais belas caminhadas do Brasil.
Só topei participar porque estava apaixonada.
Já acho ridículo as travessias serem classificadas por estrelinhas, de acordo com o grau de dificuldade.

Porém, entendo. As pessoas precisam saber se estão ou não preparadas para o que vão encarar.
Petrópolis – Teresópolis tem cinco estrelinhas, o que faz os participantes se sentirem nos Alpes. Todos paramentados. Uma quantidade de acessórios assustadora.

Dois guias e um grupo de 12 pessoas. Todos fantasiados, carregando mochilas com sanduíches, barras de cereais, água [único item que realmente fazia sentido], lanternas, facas, canivetes e etc.
Perguntei para o meu namorado:

_ Temos dois guias com todos esses aparatos. Por que é que cada um faz questão de trazer os seus?

_ Silvia, não comece a questionar, pelo amor de Deus. _ Tudo bem. Só acho meio ridículo. É uma caminhada. E não vamos fazer nenhuma escalada.
Começamos a caminhar.
A cada 40 minutos, uma parada para contemplar a vista.
Os 12 coleguinhas sacavam seus smartphones do bolso e filmavam, fotografavam. Alguns, ficavam satisfeitos porque o telefone ainda estava “pegando” e ligavam para seus entes queridos como se já estivessem em Tóquio.

 Cheguei para um dos guias, tranquilamente, e perguntei:
_ A trilha é toda sinalizada, não é?
_ É.
_ Posso ir subindo na frente? Vou devagar. Prometo.
Antes que o guia me respondesse, meu namorado me cortou e disse:
_ Silvia, não podemos quebrar as regras. Não é seguro. O cara não pode deixar a gente seguir na frente.
O guia me olhou e disse:

_ Ele já respondeu a sua pergunta.
Seguimos caminhando. Sim, a caminhada era cansativa. Não foi fácil. É uma subida forte. As paradas para contemplar a natureza não deixavam de ser um tempo para descanso.
Eu só tomava água e Coca-Cola. Não consigo comer enquanto estou fazendo uma atividade física forte. O resto do grupo, em compensação, mastigava forte.
Numa determinada parada, resolvi acender um cigarro. Ninguém abriu a boca. Para a minha sorte, um dos guias também fumava.


O guia se aproximou e disse: _ Você tem um excelente preparo físico! Você treina?
_ Não. É pura ansiedade. Essas paradas estão me enlouquecendo. Não vejo a hora de chegar no tal abrigo. Aliás, me explique uma coisa. Chegaremos no abrigo, dormiremos por lá e, amanhã cedo, começaremos a descer, certo?
_ Certo.
_ Tem banho nesse abrigo?
_ Tem, mas não funciona.
_ Não brinca?
_ O abrigo é precário. Não tem luz elétrica. Temos lampiões e um pequeno fogão a gás. Quando chegarmos lá, faremos um jantar. Penne ao molho pesto. Os ingredientes estão aqui, na minha mochila.
_ Vocês só pensam em comer. Não consigo entender. Eu quero água para tomar banho, para escovar os dentes.
E lá vem Vicente [ meu namorado ].
_ Silvia, relaxa. Quando a gente chegar lá, a gente sente.
_ A gente sente o que, Vicente? Você pagou 400 reais _ aliás, 800_ para comer Penne ao molho pesto e dormir sem tomar banho. Que porra é essa?

 

Chegamos ao abrigo da Branca de Neve. Neblina forte, chuva e muito frio. Todos equipados largaram suas mochilas, que ocupavam um puta espaço. Eu e Vicente parecíamos dois entregadores de pizza. Não havia sentido investir muito para fazer uma travessia. Nosso traje motoboy funcionou perfeitamente.

O abrigo era um quarto com diversos beliches, um banheiro triste e uma cozinha mínima. Nossos 12 coleguinhas pareciam satisfeitos. Eu fiquei muda. Aquele capítulo de Into the Wild versão terra brasilis me parecia patético.

O abrigo deveria ser mais para mais do que para menos. Porém, para a maioria, aquela precariedade faz parte das cinco estrelinhas. É o que eles chamam de perrengue. Todos fumaram baseados, todos comeram penne ao pesto. Óbvio que havia um infeliz com um violão para tocar Feira Moderna, do Beto Guedes. Todos dormiram nos colchões dos beliches, com cobertores de presidiários. Eu só pensava no banho. Um dos guias me disse que se ele abrisse um registro, do lado de fora do abrigo, havia um cano, que eu poderia usar como chuveiro.

_ Moço, por favor! Não tenho medo de água fria. Pode abrir o registro. Em meio ao bando, comecei a tirar minha roupa. Vicente pegou, na mochila, a toalha. Uma das mulheres me olhou e disse: _ Você vai mesmo? _ Vou! Quando eu já estava só de camiseta e com a calça de lycra, Vicente me olhou apavorado e disse: _ Você vai ficar nua, aqui, na frente dessa gente? _ Vou! _ Pirou? _ Se ficar nua para tomar um banho frio pra cacete é pirar, pirei. O menor dos meus problemas é ficar nua na frente dessa gente. Ninguém aqui está preocupado com isso.

_ Calma! Vou com você. Se enrole no cobertor. Você não precisa sair de dentro desse abrigo pelada! Fomos. Tirei a roupa, Tomei o banho. Lavei até a cabeça. Ninguém sabe que banho frio, na hora, é a morte. Depois, esquenta. O corpo gera um calor delicioso. Vicente também tomou banho. Voltamos para o abrigo. Nossos coleguinhas estavam impressionados. Para quem não está acostumado a se meter em roubadas, um banho noturno, a sei lá quantos metros de altitude, é assustador.

Vicente escolheu um dos colchões e desmaiou. Eu tomei um Lexotan de 2mg. Deitei ao lado dele. Estava agitada. Não conseguia relaxar para dormir. Havia um violão naquele inferno. Resolvi sair. Resolvi ‘contemplar’ a neblina. Do lado de fora, encontrei um dos 12 coleguinhas. O nome dele era Hugo. Ele também estava sem sono e estava tomando conhaque. Hugo me disse que já tinha feito aquela travessia e que de tempos em tempos gostava de repetir o programa. Me pareceu ser um cara tranquilo. Junto com o conhaque, ele comia uma banana. Obviamente, ele me ofereceu um gole do Hennessy e eu aceitei. Gravei o nome do conhaque.

De repente, ele me diz:
_ Você é divertida. Gostei do espetáculo do banho [risos].
Respondi: _ Você deveria ter me oferecido esse conhaque no momento do espetáculo.
_ Pensei nisso. Mas achei que seu namorado poderia não gostar. Sou um cara muito reservado.
_ Adoro pessoas reservadas. Me lembram uma amiga que sempre me diz que quem fala menos, erra menos. Não é o meu caso…
_ Você é autêntica. Você está fazendo essa trilha porque seu namorado te convenceu. É um gesto bonito. Você é uma puta companheira.
_ Me dá mais conhaque, por favor. Não entendo de bebidas. Mas farejo coisa ruim, de longe. Esse conhaque é bom.
_ É muito bom. É nobre. Deixa os lábios dormentes e o corpo mole.

Opa! Chega Vicente!

_ Silvia, estava te procurando. Está tudo bem?

_ Sim. Tudo ótimo. Eu e Hugo estamos contemplando a neblina e a chuva, tomando um conhaque e conversando.

Hugo, educadamente, oferece o conhaque para Vicente.

_ Não, ele não consome importados. Vicente é #brasilidade. Sou punida por beber Coca-Cola, por fumar Marlboro, sou obrigada a ouvir Jackson do Pandeiro. A família dele não assiste filmes americanos. São todos doentes. Se ele quiser, num desses armários, deve ter uma cachaça #artesanal, #regional, não é mesmo, amor?

Vicente diz:

_ Ela não deixa passar. Não tem jeito! Amor, deixa de ser chata. Eu te amo com Coca-Cola, com Marboro, com Pulp Fiction, com o que você quiser. Deixa eu dar um gole nesse conhaque, deixa?

Bom, ficamos os três, ali, bebendo e conversando sobre o que aconteceria se não parasse de chover. Hugo nos disse o seguinte:

_ Se não parar de chover, nós não desceremos para Petrópolis. Não é seguro. Desceremos pelo mesmo caminho que subimos.

Vicente ficou indignado. Eu fiquei foda-se. E foi exatamente isso o que aconteceu. A chuva não cedeu. Eu não dormi. Às 6 horas, o guia apareceu e disse:

_ Já era!

Explicou ao grupo o que Hugo já havia nos explicado e ponto final. Todos sentados, esperando a neblina passar, para começar a descer por onde subimos.

Travessia Teresópolis – Teresópolis.

Foi lindo. Dedo de Deus.

 

 

 

marta

Ontem, ele chegou mais cedo do trabalho e me trouxe lingerie de presente.
Nossa vida sexual está um desastre. O que ele não sabe é que para quem está sem a menor vontade de trepar, um jogo de panos de prato pode ser mais excitante que uma lingerie supostamente picante.

Estou tomando antidepressivos. Tudo bem, o gesto foi lindo. Super Hollywood movies. No entanto, passamos a noite tomando vinho. Sexo? Jamais!
O psiquiatra disse que não deveríamos consumir álcool e que deveríamos fazer exercícios físicos.
Bom, nós temos uma bicicleta ergométrica em casa. Mas, ela se transformou num cabideiro e nós a deixamos em paz.

Estou desempregada. Passo o dia em casa, observando meu varal de orquídeas e observando minha “secretária” arrumar a casa. Só tiro meu roupão em caso de emergência. Sim, já fui ao supermercado de roupão. Basta fazer um coque e usar óculos escuros. Estilo celebrity. Espinha ereta e vamos nessa. Quem se arruma para fazer compras é a classe média emergente, com dentes brancos implantados, reluzentes. Até perfume passam. Angel, às nove da manhã.
Meu marido corporativo está empregado e é feliz. Tipo de gente que fotografa o pôr do sol. É Diretor de qualquer coisa da Tupperware. Faz palestras que incentivam mulheres a vender vasilhas plásticas e outros itens como loucas.

É do tipo que lê o Poder do Agora. Minha Nossa Senhora.
Não temos filhos.
Temos uma calopsita chamada Marta Suplicy.
Nossa vida é simples.
Gostamos de viajar e frequentar bons restaurantes.

Meu parceiro é gourmetizado. Toda vez que abrimos um vinho, meu marido perde cerca de vinte minutos me explicando a origem daquela porra. Eu finjo que presto atenção, enquanto bebo.
Sou arquiteta. Mas, no momento, não consigo arquitetar nem sequer um lavabo ou um plano para escapar dessa gaiola.