mea-culpa

Eu sou jornalista e em 2015, eu trabalhava para O Globo.

Assinava um blog chamado Zona de Desconforto e publicava textos polêmicos que tratavam da vida em sociedade e suas contrariedades.

Os textos eram divertidos, sarcásticos, irônicos e_ muitas vezes_ arrogantes ou agressivos. Não cabe aqui dizer qual era a minha intenção.

Um blog com esse título já diz quase tudo. Causar desonforto não é prazeroso. Eu não tinha idéia do quanto.

Quando o texto Preto no Branco foi publicado, eu descobri.

Magoei ou machuquei muita gente. Por que? Porque eu disse que crianças com síndrome de Down nos causavam certa estranheza ou desconforto.

Eu não pensei nos pais e mães de crianças com Down.

Não imaginei e não me importei com o impacto que aquela frase teria para eles. Só pensei no quanto somos dissimulados diante do diferente.

O texto fala de outras coisas que eu não quero citar aqui. Estaria sendo hipócrita.

E isso _ honestamente _ eu não sou.

Eu devo desculpas aos pais e mães que se sentiram mal quando leram aquele texto.

E, depois de três anos remoendo esse assunto e me considerando uma vítima, por ter sido demitida pela publicação de um texto que eu, naquela época, achava que as pessoas não tinham entendido do jeito que eu queria que elas entendessem, descobri que é minha responsabilidade responder por tudo aquilo que eu publico.

Por causa desse texto, eu fui denunciada no Ministério Público Federal. E isso só serviu, na época, para que eu me sentisse ainda mais vitimizada. No papel patético do “Ninguém me entende!”.

Bom, se niguém me entende e as coisas chegaram a tal ponto, o erro foi meu e quem deve tentar_ um dia_ reconquistar essas pessoas sou eu.

Primeiro, as pessoas. Depois, talvez, os leitores.

Por favor, me perdoem. Me ajudem a me livrar desse passado.

Sinceramente,

Silvia Pilz

ps: se você não leu o texto, basta digitar ‘silvia pilz preto no branco’, no Google.

tapa na cara

Cheguei ao apartamento de Patrícia Araújo, em Copacabana, por volta das seis da tarde, numa terça-feira. O susto foi grande, quase perdi o fôlego. De cara lavada, calça de moletom e camiseta, Patrícia era ainda mais bonita e sensual do que nas fotos que eu havia visto na Internet. Diante daquele monumento, tentando me concentrar e não perder o foco, pedi um copo d´água e acendi um cigarro.

Educada e extremamente doce, ela se movia sem pressa, com a segurança e a determinação de quem sabe aonde quer chegar. Os movimentos eram todos delicados, sua sensualidade era quase paralisante. Tipo de mulher que vai ficando mais bonita ao longo da conversa.

Era charme misturado com Angel ou J’Adore, que são perfumes fortíssimos [daqueles que ficam presos em elevadores]. Pronto! Me desconcentrei. Comecei a imaginar a quantidade de banhos que um cara teria que tomar pra não chegar em casa, pós-Patrícia, exalando adultério. Enquanto engolia o cigarro, meus olhos percorriam cada canto daquele apartamento e cada gesto daquela pessoa que, na certa, também estava avaliando todos os meus movimentos. Por trás daquela delicadeza, havia um homem forte, determinado, direto e divertido. Sarcasmo discreto e na dose certa.

Eu, que nunca havia sequer conversado com profissionais do sexo em mesas de bar ou dado carona às que ficam na estrada, estava ali, diante de um dos brinquedos mais radicais do parquinho. Estar ao lado de uma mulher e imaginar um pau avantajado no meio daquilo era excitante e desconcertante. Minha cabeça girava para cruzar os dados. Porque desde que o mundo é mundo, a gente aprendeu a separar [pra depois juntar] meninas e meninos.

A curiosidade feminina era maior e mais forte que toda e qualquer tentação — a de sair correndo dali ou a de pedir pra ela tirar as calças e me mostrar onde escondia o instrumento. De um jeito ou de outro, ali estava eu, querendo entender aquela fantasia manipulável, que se torna mulher sem abrir mão de ser homem, querendo sondar o terreno e descobrir o que leva um homem a procurar um travesti.

Não demorou muito para eu entender que quem chega ali, além de curioso, sente prazer com sexo anal. Talvez os traços femininos deixem os que a procuram mais excitados ou menos constrangidos. Conversamos sobre prostituição, sobre preconceitos, sobre comida e até sobre astrologia. No fim da converesa Patrícia estava me dando conselhos e até dicas de maquiagem. Quando a percebi como menina [sem me dar conta de que a única menina ali era eu], resolvi perguntar se ela sonhava em livrar-se do pênis e tornar-se uma “mulher”.

Sem dó nem piedade, com ar de deboche, ela me deu um merecidíssimo tapa na cara: ”Para as mulheres talvez seja mais fácil aceitar a vida sem orgasmo. Mas, para um homem, isso é inconcebível! Querida, abro mão de tudo, menos do meu pau”.

Depois do tapa, saí de lá perturbada e consciente de que gosto daquilo que me desperta [exceto despertador]. Acho um saco, um horror, essa coisa de ter que escolher um homem, uma mulher ou um robô. Opção sexual: sem dor, por favor.

o falso desapegado

O falso desapegado é um sujeito frustrado que se faz passar por desapegado. Frequenta restaurantes baratos, despreza quem valoriza conforto e luxo, vive num cubículo e se declara plenamente satisfeito, ao lado de sua namoradinha intelectual, que dá aulas particulares de história.

Ah! Ele não compra cigarros. Compra seda e tabaco. Confecciona seu próprio cigarro. Frequenta botecos em Botafogo, por exemplo. Boteco “raiz”.

Parte do discurso [ porque o discurso é extenso pra caralho ]:

_ Não preciso de muito para viver! Sou uma pessoa simples! Não suporto gente fútil! _ Opa, amigo! Cuidado com o que você não suporta! [ Se eu te der uma Moët & Chandon, você bebe bem, não é pessoa simples? ]

Com o passar do tempo, percebe-se que o falso desapegado usa esse discurso como escudo. Apesar de não precisar de muito para viver, ele é vaidoso, orgulhoso e se sente menor quando está cercado de pessoas que não vivem o mesmo personagem que ele.

Isso fica claro quando o falso desapegado se defende sem que ninguém o tenha atacado ou quando seus olhos brilham diante de uma Harley, por exemplo. No fundo, falso desapegado odeia e ama gente ‘com condição’.

É inseguro e oscila. Em alguns ambientes, sente orgulho em dizer que a mãe é manicure. Em outros, tem receio. Está sempre na defensiva. Chega a ser arrogante. E, normalmente, não tem senso de humor. Leva tudo pro lado pessoal. É egocêntrico e se considera um intelectual.

Já tive um amigo assim. Um dia, eu disse que tinha certeza que ele detestava usar perfume do Boticário e que só os comprava porque eram mais baratos que os importados.

Disse isso porque o cara adorava se cuidar, tratar dos cabelos, da barba, enfim, se preocupava muito com sua aparência. Por mais que comprasse suas roupas em lojas populares, ele se preocupava em vestir-se bem. Levava horas montando o look do hippie sujinho.

Bom, perdi um amigo. Falso desapegado virou um monstro. Não gostou da brincadeira. Esse é o tipo do sujeito que me ama hoje e, amanhã, me chama de coxinha e acaba comigo nas redes sociais. #elitebranca #fascista.

Faço uma aposta. Ofereça ao falso desapegado um apartamento em Paris.  Se ele negar e disser que está bem aqui, levando sua vida simples, me procure. Eu arranco meia dúzia dos meus dentes.

 

 

 

Pay Back Time

Por José Roberto Corrales

Outro dia assisti a um video interessantíssimo sobre uma linha de produção de veículos da Mercedes Benz.

Como sou um amante da tecnologia, fiquei alucinado ao ver a linha de montagem toda operada por robôs, em velocidade e precisão incrível.

Somente no final do processo pude ver alguns funcionários humanos fazendo um polimento ou pequenos acertos.

Incrível. Onde antes haviam mil ou dois mil trabalhadores, o mesmo trabalho foi feito por poderosas e precisas máquinas que trabalham dia e noite sem cansar nem adoecer, sem reclamar, sem férias nem feriados, sem licença-maternidade ou paternidade, sem décimo terceiro, sem bônus, sindicatos, enfim, o sonho de consumo de cem em cem acionistas.

A produtividade foi para o espaço e as não-conformidades são medidas agora em nano índices.

Maximização do ROI em ritmo alucinado.

Se Henry Ford pudesse ler isto, certamente tremeria no túmulo.

O criador da mecanização do trabalho, da produção em massa, da padronização do maquinário, dos equipamentos e da política de metas, tinha o forte conceito de que o pagamento de um salário substancial para os trabalhadores aumentaria seu poder de compra, criando um movimento econômico cíclico.

E é justamente esse o problema a ser resolvido.

Quem vai comprar os Mercedes super high techs? Os dois mil empregados que foram substituídos pelas máquinas não.

Os mais otimistas dirão que não foram substituídos; apenas migraram de atividade: de operário para programadores ou desenvolvedores de robôs.

Nada mais falacioso. Sabemos que a capacitação de pessoas são medidas em termos de geração, digamos em vinte anos, porém já em 1965 Gordon E. Moore fez sua profecia, na qual o número de transistores dos chips teria um aumento de 100%, pelo mesmo custo, a cada período de 18 meses. Essa profecia tornou-se realidade e acabou ganhando o nome de Lei de Moore.

Simplesmente não há como fazer este “catch up” e vejam que aqui falo somente em transistors, robôs e programação de computadores.

Kurzweil, um dos mais expressivos pensadores sobre o futuro da tecnologia, previu em seu ensaio de 2001 “A Teoria das Mudanças Aceleradas” que mudanças de paradigma, como têm sido e continuarão a se tornar cada vez mais comum, levando a “mudanças tecnológicas tão rápidas e profundas que representa uma ruptura no tecido da história humana”. Ele acredita que a teoria das mudanças aceleradas implica que uma singularidade tecnológica irá ocorrer na primeira metade do século 21, em 2045, quando a Inteligência Artificial superará a capacidade humana em todos os aspectos.

E quais são as propostas, não ideológicas tampouco maniqueístas, para salvar a humanidade desta profecia autorrealizável da projeção lógica da evolução das relações trabalhistas?

Nomes como Carlos Slim, Bill Gates, Zuckerberg, Jeremy Howard, Elon Musk entre outros, há muito percebem a perspectiva sombria da sorte humana e convergem para a ideia da renda basica.

Defendida em diferentes locais do espectro político, da direta à esquerda, a renda básica tem sido vista cada vez mais como a solução para vários problemas contemporâneos – mas chegaremos lá depois. A renda básica é, como o próprio nome sugere, um valor transferido às pessoas mensal ou anualmente.

Os requisitos básicos passam por atender a todas as necessidades básicas como gastos com moradia, alimentação, saúde, educação; deve ser universal – aplicada para ricos e pobres além não estabelecer condição alguma para a concessão desse benefício vitalício. Ah, e importante: paga pelo estado.

A renda básica é controversa, mas delineada por pessoas de diversas ideologias, da direita mais conservadora à esquerda mais radical. Cada um com as suas razões, é claro. Quem está mais à direita, defende que a renda básica concede maior liberdade aos indivíduos e fortalece o mercado, por fornecer aos consumidores os meios ($) para comprar mais produtos. Quem está mais à esquerda do espectro político, argumenta que a renda básica é uma maneira de acabar com a pobreza e diminuir as desigualdades no mundo, principalmente de acesso aos direitos básicos, e de introduzir as camadas mais pobres à educação e a profissões mais qualificadas.

Mark Zuckerberg, em seu discurso na Universidade de Harvard, em 25 de maio de 2017, disse: “Chegou a hora de nossa geração definir um novo contrato social. Deveríamos explorar ideias como a da renda básica universal para garantir que todos tenham segurança para testar novas ideias”.

O criador do Facebook teve suas razões para defender a renda mínima: no Vale do Silício, local de desenvolvimento de tecnologias de ponta na Califórnia e onde estão as principais mentes por trás das inovações no mundo, há uma grande preocupação com a escassez de empregos por conta da tecnologia. O movimento de mecanização de algumas atividades humanas é um movimento antigo, presente desde a Revolução Industrial no século XIX, e que tende a aumentar.

De acordo com um estudo feito em janeiro 2016 pela Universidade de Oxford, 37% dos trabalhos de força humana está sob o risco de desaparecer nos países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Há um indicativo de 45% das atividades remuneradas atualmente pode ser automatizada no futuro com tecnologias já desenvolvidas, avaliação feita pela empresa de consultoria McKinsey. No rol de trabalhos, estaria o de médicos, CEOs e executivos de finanças, por exemplo.

Com essa realidade em mente, a manutenção de uma renda básica não deixaria as pessoas desamparadas caso viessem a perder seus empregos, dando-lhes o mínimo necessário para sobreviver e até uma oportunidade de empreender.

A iniciativa governamental mais recente foi na Finlândia, onde há um projeto piloto de implementar a renda básica no início de 2017, transferindo 800 euros mensalmente aos finlandeses participantes. Serão 20 bilhões de euros destinados à renda básica em dois anos de teste. Em 2015, 65% da população na Finlândia apoiava a renda mínima de mil euros ao mês.

E então, qual a sua opinião sobre isso?