coragem

De uns tempos pra cá, todos se tornaram educados, quero dizer, oprimidos. Ninguém pode brigar com ninguém, ninguém pode reagir. Ser reativo não é qualidade. É defeito. É sinônimo de descontrole. E ninguém – principalmente no universo corporativo – admira um reativo. O bacana é você ser aquele cara super educado, excessivamente simpático, que dá bom dia até para o poste.

Todos se tornaram civilizados. É admirável.
Até nas escolinhas é feito um enorme drama se uma criança arranhar um amiguinho.
O que arranhou vai pro banco dos réus e tem que pedir desculpas _ em praça pública _ para o arranhado. Assim, desde cedo, ele aprende a lição, dizem os pais, envaidecidos.

O sintoma agressão tem que deixar de existir e, com o treino, a agressão não desaparece mas permanece “controlada”, entre muitas aspas.

É considerado inadequado, inadmissível.
Mandou alguém à merda, processo.

Ninguém mais pode perder a cabeça.
Confundiu um ator negro com um garçom, é preconceito.
E o garçom _ a vítima_ não pode nem pensar em meter a mão na cara da celebridade. Tudo bem contraditório, do jeito que eu gosto.

E, para não perder a cabeça, as pessoas se agridem, se medicam, praticam jiu-jitsu, leem OSHO, acham que meditam, trabalham 30 horas por dia, bebem pra cacete, se tornam compulsivas sexuais, entre outros transtornos.
Já dominada por essa opressão, que não aconteceu do dia pra noite, a sociedade acata a agressão como grande inimiga e se torna apática.

Acontece que isso vai contra a natureza do ser humano e a agressão torna-se latente. Por isso, as pessoas começam a perder a cabeça porque o vaso de planta que estava do lado direito da varanda está do lado esquerdo, porque o trânsito está lento, porque o carro da frente demorou três segundos para rodar depois que o sinal ficou verde e, por conta disso, começam a cavar pequenas discussões sem fundamento onde eles conseguem extravasar a vontade que têm de enforcar o chefe ou a esposa, por exemplo.
Porque as pessoas têm desejos velados que elas não têm coragem de revelar nem para elas mesmas. E eu não estou falando de psicopatas.

Ninguém pode enforcar ninguém. Isso é crime. Mas, uma boa discussão no trânsito, pode não dar em nada e o sujeito coloca parte da sua agressão oprimida para fora, da forma que a sociedade ainda concebe como permitida.

O lema, durante um assalto, por exemplo, é: _ Não reaja!

É óbvio. O sujeito está armado e você não. E, mesmo que estivesse, sua educação cristã não lhe permitiria sacar uma arma e acertar o peito do sujeito, fosse ele um homem de 34 anos ou um menino de 15. Porque matar é pecado grave. É forte. E tem punição grave, tanto aqui quanto no #nossolar.

Você teria coragem de matar o Cabral?
Não. E não me diga: “Ah, eu teria! Com requintes de crueldade.”
Você já foi oprimido. Você não conseguiria.
Você já acha que vai pro inferno se tirar a vida de alguém e… “eu acho que eu não conseguiria conviver com isso, sabe?”

Um muçulmano já come a tua mulher na tua frente e te deixa durinho de medo de morrer.

Agora, coragem para mandar alguém fazer, talvez você tenha. Porque anularam a violência, mas a covardia está de pé e bem forte.