passa o rodo

barmesa

Era Sexta-feira da Paixão, por volta de nove da noite. Nessa hora, há dois mil e tantos anos em Jerusalém, Jesus já estava em maus lençóis. Eu estava na Praça Tiradentes, de roupa social, relativamente perfumado apesar do calor, e com um ridículo rodinho de pia nas mãos. O rodo não era resultado da minha adesão a nenhuma seita misteriosa de liturgia pagã. Ou talvez fosse. O rodinho de pia era um dos símbolos sagrados da minha religião naquela noite. Minha religião naquela noite se chamava Silvia Pilz.

Cerca de duas semanas antes disso, Silvia Pilz era apenas um nome assinando uma coluna que muitíssimo me agrada. Um nome sem corpo, ou com todos os corpos que minha imaginação pudesse escolher, e atrelado a uma personalidade bastante forte, textualmente definida.

O nome se personificou através de improváveis mensagens doces na minha caixa de e-mail, e quando surgiu a possibilidade de escrevermos juntos, decidi que era hora de tomarmos um café para definir os contornos dessa parceria.

Ela prontamente aceitou, depois que esclareci não ser um psicopata louco que iria persegui-la pela rua. Originalmente jantaríamos no Cervantes, mas em cima da hora ela optou por irmos ao teatro. A peça era Navalha na carne, de Plínio Marcos, encenada no quarto 107 do Hotel Nicácio, um dos mais reputados antros do entorno da Tiradentes. Um lugar onde dez reais e dez minutos são suficientes para qualquer coisa.

Como até então toda nossa comunicação havia sido digital, não fazia ideia do que me esperava. Esperei pelo pior, portanto, como se deve fazer na vida. Se um homem me abordasse e dissesse: “prazer, Silvia”, eu acreditaria, embora duvide que um homem possa entender tanto assim de mulher como ela deixa transparecer em seus textos. Se um hipopótamo de setenta anos e fita no cabelo viesse até mim, confesso que não sei exatamente o que faria, posto que já tinha segundas intenções antes de conhecê-la. Para além de suas curvas, já amava suas letras.

Só não me preparei para o pior: a peça começou e ela não apareceu. Resolvi que valia a pena ficar, em respeito ao espetáculo [excelente, diga-se], e aos meus vinte reais. O Hotel Nicácio está repleto de ratazanas nada cenográficas, que junto com as profissionais liberais do sexo instaladas nos corredores com seus clientes, colaboram para uma espécie de conturbação dos mundos: o real e o cenográfico, que convivem no mesmo espaço com algum grau de harmonia, de maneira quase indistinguível. Fazer a classe média visitar o puteiro para ir ao teatro e ver gente feia ― porque gente de verdade é gente feia ― é uma proposta no mínimo inusitada, e que merece dar certo.

Mas ninguém está lendo isso pelo teatro. O motivo é Silvia. O rodinho de pia era a chave para o reconhecimento, que não aconteceu. Em verdade, o objeto, considerado esdrúxulo, naquele contexto era o menos estranho dos objetos ao alcance, e nenhum dos vinte e dois espectadores [lotação máxima do quarto 107] pareceu incomodar-se. Havia alguns casais, representantes da classe artística, diretor de novela e o escambau, mas ninguém com cara de Silvia. Quando o espetáculo terminou, corri para a saída e, de frente para a porta, ostentei o rodinho. Nada. Descendo as escadas, desolado pela frustração, mas feliz com a permanência do mito, ouvi alguém chamar meu nome.

Olhei para trás e lá estava ela. Não vou descrevê-la para manter a mística, mas asseguro que não me decepcionei. Suspirei. Ironicamente, estávamos sentados na mesma fileira a peça toda; ela, um sujeito e eu, exatamente nessa ordem. Notei que ela e o cara que a acompanhava se davam muito bem para serem namorados, noivos ou casados, o que me deixou aliviado. Terminamos a descida a fim de tomar a primeira de muitas cervejas.

O botequim em frente ao “teatro” parecia um anexo. A Praça Tiradentes inteira, na verdade, parece escrita por Plínio Marcos. Logo o elenco da peça veio à nossa mesa e saímos para jantar. Optamos [eles optaram] pelo Fiorentina, no Leme.

Contando com os agregados, e me incluo nesses, éramos sete organizados em três casais e um ‘na de fora’, eu no caso, que jamais vira nenhum dos rostos naquela mesa. Situação bastante desagradável, principalmente pelo contato cada vez mais próximo que Silvia desenvolvia com um dos atores, um tipo amante latino, forte, penteado, voz grossa e boa dicção, um horror. Quando ela se levantou para ir ao banheiro, contei dois minutos e fui atrás, disposto a revelar que estava ali com décimas segundas intenções, e uma vez que ela estava quase entregue ao charme do Don Juan ― compreensível ―, não me restava alternativa a não ser ir embora. Sem ressentimento, do ponto de vista literário nada seria inviabilizado. Ensaiei esse discurso mentalmente duas vezes no subsolo do Fiorentina, mais para me convencer do que para convencê-la. Abriu-se a porta do banheiro feminino, revelando Silvia.

― Tá esperando pra ir ao banheiro masculino?

― Tô esperando você.

Ela sorriu, eu também. Inconscientemente nos aproximamos, alheios ao que estava acontecendo, e por certo estava acontecendo alguma coisa. Naquela espécie de hall sanitário, começamos a nos beijar nada cenicamente. Silvia tinha um gosto de menta com Marlboro Vermelho delicioso, e seu corpo parecia encaixar-se no meu perfeitamente. Senti que explodiria de tesão, porque ela inspira tesão. Olhos, ombros, cabelos despenteados e pele macia. Com as mãos por dentro das calças um do outro ― Ela usava calça jeans e camiseta preta, com um sapato marrom italiano de onde se espera sair a Sofia Loren ― pude sentir que era, no mínimo, o máximo.

― Vamos embora daqui ― eu disse.

― Não, se acalme.

Com alguma dificuldade, nos desvencilhamos e subimos as escadas, mantendo aquela distância segura típica de quem não pode ser visto saindo do banheiro com outra pessoa. De volta à mesa, Silvia soube disfarçar, embora trocássemos olhares furtivos quando possível. Acho que não obtive tanto sucesso ao tentar esconder o sorriso, a não ser enquanto assistia a novas investidas do Antonio Banderas do Vidigal para cima dela.

Não posso confirmar o que aconteceu no restante da noite, passei o tempo esperando que ela quisesse ir ao banheiro de novo, o que não aconteceu. Sei que deu meia-noite e cantamos “parabéns pra você” para Shakespeare. Era aniversário dele e Silvia fez cara de quem estava achando aquilo ridículo. Lá pelas tantas era hora de deixar o restaurante, com aquela cara de quem comeu a entrada, mas não o prato principal. Até que, antes da saída, ela teve de descer as escadas da ‘felicidade’ novamente. Resolvi segui-la.

Pela fresta da porta, observei que ela estava sozinha no banheiro e entrei.

― Não acredito que você teve coragem de descer até aqui!

― Lá em cima não tem banheiro [risos]

De novo nos beijamos, e telepaticamente ficou claro que ambos queríamos mais. Entramos em uma das cabines como autômatos, desabotoei a calça e abri a camisa, Silvia já estava praticamente nua.

Não fizemos amor, o termo técnico para aquilo é trepar. Ou talvez tenhamos até fodido. Lá pelas tantas lembrei que havia duas camisinhas no bolso de trás da calça, mas não tive coragem de interromper as coisas, e que isso não sirva de exemplo. Silvia estava de costas para mim, com as mãos apoiadas na parede, quando não aguentei mais e explodi em suas costas esguias e bundinha bem desenhadas.

― Queria que você tivesse gozado na minha boca.

― Queria que você tivesse dito isso há treze segundos.

As primeiras pessoas que leram este relato quiseram saber o porquê do rodinho. Se esse for o seu caso, pergunte a Silvia Pilz. Uma de suas principais qualidades é que ela realmente existe. Como existe.

Por Eduardo, no mínimo, ousado.

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