Silvia Pilz

puta

Postado em: entrevistas, playboy, sexo

“Pra começo de conversa, não sou garota de programa. Sou puta. Ninguém me paga para passear de pedalinho ou para fazer papel de mocinha em festas de família. Esse tipo de coisa, faço por amor e por amigos, de graça. E, como todo mundo sabe muito bem o que uma prostituta faz, só te cedo parte do meu tempo se você quiser conversar sobre outras coisas.”

jeans

 

Foi assim que a minha conversa com Fabi [que não me revelou sua idade nem sobrenome] começou, quando a encontrei na porta de um supermercado em Botafogo, bairro onde ela vive há mais de nove anos, sozinha, num apartamento pequeno e aconchegante, que ela chama de ninho sagrado e de sala de trabalho.

Não a encontrei por acaso. Um amigo [cliente dela] me deu o número do celular de Fabi e disse que achava que o papo me renderia um bom texto. Efeito Bruna Surfistinha. As pessoas saem do cinema acreditando que a vida de toda puta, protituta ou garota de programa pode render uma boa história. E, pode mesmo.

Já que não estávamos ali para brincar de descrever fodas caras ou sem preço nem para dissecar traumas de infância, nos sentamos no sofá da sala, abrimos um vinho tinto e começamos a bater papo. Por algum motivo, talvez pela segurança transmitida no primeiro parágrafo da conversa, percebi que Fabi era uma mulher diferente, surpreendente. Desconfiada e sem muitas expectativas, como milhões de outras mulheres e homens que habitam este planeta.

 Fiz perguntas e ela me trouxe respostas.

 Você tem arrependimentos?

Vários. Invejo essa gente que bate a mão no peito e diz que não se arrepende de nada que tenha feito. Imaturidade e autoestima oscilante já me fizeram marcar diversos gols contra [risos].

O que te faz sentir orgulho de você?

Não ser esperta, não estar sempre em estado de alerta. Sabe, a maioria dos espertos  [entre aspas ] tem certezas. E, para mim, quem tem muitas certezas não é certo da cabeça, não enxerga o novo. O prazer do esperto é conhecer o velho, de cabo a rabo.

Um sonho de consumo?

Um apartamento no Arpoador, um disco voador.

Sexo bom

Não pode ser malhação, não pode ter sequencia. Tem gente que faz sexo para relaxar. Sexo bom é beijo na boca, coração disparado e falta de ar. É interessante. Quando corro na praia, sinto tudo isso e um alívio [quase um orgasmo] ao final dos oito quilômetros. Comparo porque acho natural que as pessoas confundam sexo com descarga de energia. Quando, na verdade, o interessante seria sentir-se recarregado e não aliviado. Acho que não estou sabendo me explicar [deixa pra lá].

O prazer da profissão

Não é dinheiro fácil. É dinheiro rápido. E ninguém mente aqui. Os homens mentem em casa. Aqui, eles metem.

Vícios

Recorto fotos de revistas, onde quer que eu esteja. Tenho um mural, um mosaico de colagens, aqui, na parede da cozinha. Fora isso, corro na praia, todos os dias. Bebo e fumo com moderação. Não uso drogas fortes pra não ter perigo de eu tirar meus pés do chão [gargalhadas].

Você torce por algum time?

Torço sempre pros goleiros. Se dependesse de mim, futebol seria um eterno zero a zero.

O que você abomina?

Leis. Se há lei, não há ordem. Se o homem precisa de leis para não se portar como um primata, a lei é um atestado de falência. A religião também. Antes de Deus, o medo. É ele, o medo, quem comanda esse espetáculo. E mais: Todo mundo se prostitui. Vejo muita gente passando por cima de tudo [inclusive dos tais valores] por causa de dinheiro. Eu vendo meu corpo. E tem gente vendendo a alma e sendo aplaudido pela família e pela nação inteira.

O que você adora?

Arte e amnésia alcoolica. São duas coisas que me ajudam a não entender nada, entendendo tudo. E, se você observar com calma, você consegue ver arte em tudo e em todos [e ela segue a conversa, me perguntando se eu quero mais uma taça de vinho]. Adoro cinema e gosto de passear pelo centro da cidade. Eu me entorpeço de arte. Depois, bebo para esquecer, para pensar que aquilo tudo não passa de um sonho. E bebo para esquecer que a minha alma mora dentro do meu corpo e que é ele quem paga o preço que eu cobro para vendê-lo.

Um filme?

Todos os da Sofia Coppola e do Almodovar

Bebidas e comidas

Vinhos e sucos. Como tudo, menos estrogonofe. Acho estrogonofe um prato decadente[risos]. É coisa de pobre, não é não?

Um amigo

Meu cachorro. Um vira-lata que eu chamo de Pessoa. Ele mora com o porteiro. Eu terceirizei porque não dava para mantê-lo aqui dentro. Então, eu e o Souza [risos] dividimos as tarefas e as despesas para manter Pessoa saudável.

Fonte de inspiração

Crianças desobedientes. Outra coisa que me inspira são as mulheres ’certinhas’. Cada vez que esbarro com uma delas numa fila de supermercado e bato cinco minutos de papo careta, volto para casa louca para transar [risos]. A prostituição tem seu lado libertador, acredite. A puta é no machismo, o feminismo.

Ídolos

Não tenho.

Medos

Da morte lenta, da decadência. Medo de envelhecer e perder o nada que eu penso que tenho.

Inveja

Dos golfinhos e das mulheres que se satisfazem vestindo Prada.

Fabi foi criada em Copacabana e estudou em escolas particulares. Aos quinze foi com a mãe e a irmã mais nova para a Disney. Seu pai era funcionário público, fiscal da receita federal. Era viciado em jogo. Segundo Fabi, ele ganhou e perdeu muito dinheiro. “Passei minha adolescência dentro de um cassino. Era divertido antes de se tornar doloroso. Eu só comecei a enxergar o fundo do poço quando começou a faltar dinheiro e meu pai me usou como moeda de troca, para que não fosse preciso vender o apartamento em que vivíamos”, conta. “O mesmo pai que um dia me fez acreditar que eu merecia encontrar um príncipe me vendeu barato e me deixou uma carga pesada nas costas. Na época cheguei a acreditar que, se eu não chupasse aquele velho infeliz [o cara pra quem meu pai devia], seria eu a responsável pelo fracasso da família e etc.”, diz ela com cara de quem já está começando a achar o papo enfadonho.

“Minha mãe sempre foi permissiva e fazia de conta que não via”, explica, com ar de deboche, dizendo que talvez tenha sido essa a saída que a mãe encontrara para não se atirar do sexto andar. “Meu pai se prostituía, era do tipo de fiscal que recebia propina. Eu acabei me prostituindo. Minha carteira de clientes, no início, eram os amigos de papai”, diz, rindo das ironias da vida, meio amarga, meio triste.

Fabi diz que já teve vontade de estudar pedagogia e trabalhar com crianças. “Sempre que passo perto de escolas, um pedacinho morto dentro de mim reage. Mas me falta coragem para recomeçar. Sou fraca e acomodada.”  A irmã mais nova de Fabi é casada, tem dois filhos, mora na zona norte do Rio e toca uma loja de materiais de construção com seu marido.

2 Comentários

  • Comentário por Six — 15 de setembro de 2011 @ 14:34

    Que história deprimente. Deu vontade… [rs]

  • Comentário por Mara — 18 de setembro de 2011 @ 16:34

    Muito poderia ser dito sobre o pai, a mãe, a filha, a família. Julgar os outros é esquecer que todos somos pecadores. Entretanto, nao concordar com o que levou, independente de bela, essa filha à prostituição, significa dizer que abominamos o pecado. Quero registrar que o cair é do homem, mas o levantar é de Deus e que JESUS CRISTO pagou a divida que nos condenava ao pecado. Entendendo o pecado, nesse caso, não apenas sobre o comportamento do pai, da atitude (ou falta)da mãe, mas da prostituição da criação de Deus, templo da morada do Pai (corpo, alma e espirito) de Silva Pilz. Somente Ele pode escrever uma nova estoria para quem crer que Ele é o autor da vida. Cabe dizer ainda que Ele perdoa todas as nossas transgressões cometidas contra seus princípios, estatutos etc (uma vida sem os limites de Deus leva a um mundo onde todos podem infringir o bem comum – HARMONIA, PAZ, RESPEITO, TOLERÂNCIA etc e o bem individual (gerando TRAUMAS, ANGUSTIAS, SOLIDÃO etc). As vezes, quando se percebe, já esta se vivendo o destino, mas Cristo `e o caminho que muda a vida e da um novo destino para nós.

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