Silvia Pilz

janio

Não querer também é poder.

De repente, abro os olhos e acordo numa versão cultural. Com uma tremenda sede de beber de uma fonte desconhecida. É numa dessas que eu compro um livro que eu sei que eu não vou ler e vou parar no Jardim Botânico, na esperança de que um varal de orquídeas mude minha vida. Minha alma é um manicômio. Opiniões desencontradas, atitudes disparatadas e crenças inversas. A nítida sensação de que nunca vou aprender a existir. Eu ando, tropeço, me dou rasteiras, me levanto, e ainda durmo, mesmo que no ponto. Desatinada, numa dessas manhãs insanas, me matriculei num curso, na PUC, pra aprender a escrever roteiros. No primeiro dia de aula, a professora passou 80% do tempo explicando quem ela teria sido se não fosse o que é. No segundo dia de aula, eu não fui. Quando o discurso começa com “naquele tempo”, eu entro no que eu chamaria de pânico por identificação. É como se meu fracasso estivesse estampado na minha frente. E, por não gostar do que vejo, peço a conta. No pátio da PUC, com vergonha de ter desistido de um curso que nem comecei, coisa que faço com maestria singular, circulei entre os pilotis e estudantes tendo a certeza de que eu não estava certa de nada. Era meu dever voltar pra sala e dar à professora a chance de me surpreender. Era meu dever tentar. Era meu direito partir. Eu entro com a mesma incerteza que saio. Abro e fecho portas com pinta de quem sabe exatamente o que está fazendo. Fujo e finjo. Engano a torcida. Faço parecer que as renúncias não me custam caro. Já não fiz curso de pintura, de fotografia, de história da arte e até de astrologia. Um pouco de tudo e tudo de nada.

Quem diria. Quantas renúncias eu contaria.

5 Comentários

  • Comentário por Paula — 20 de junho de 2010 @ 12:29

    Gata, amei o texto e achei sensacional vc lembrar do Jânio!!! Lembra da frase dele: “Intimidade demais provoca duas coisas que odeio: filhos e aborrecimentos”. A-DO-RO (rs). Isso aqui tá cada vez melhor. Tô amando essa sua nova fase.

  • Comentário por Izabela — 20 de junho de 2010 @ 21:16

    Amei. Até parece que sou eu. E isso é angustiante porque dá uma sensação, uma certeza de que não sou original. As vezes me acho um grande plágio. Claro, o afeto é subjetivo, é único e intransferível. Mas quando é colocado em palavras é como uma roupa com um determinado número. Amei! Lindo texto!

    Genial: “Não querer tb é poder”

  • Comentário por Dleani — 13 de janeiro de 2012 @ 10:02

    Não fazer também é querer… (Pensando em você. Como sempre).
    Genial o texto. Aliás, só podia ser genial mesmo. As fadas são geniais…

  • Comentário por rcardo gama — 13 de janeiro de 2012 @ 10:07

    Demais. Essa é voce ou esse sou seu…beijo.

  • Comentário por Bruna — 13 de janeiro de 2012 @ 11:45

    Sempre sensacional! Parabéns!

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