para quem sofre antes do acidente

_ Você teve uma crise de ansiedade! Procure um especialista, um psiquiatra. O tratamento é ‘simples’.

Indignada e relutante, você se recusa a crer que não está no comando do que acontece com seu corpo e questiona o diagnóstico do médico. Além de paranóica, você é arrogante, e custa a acreditar que é vítima de qualquer coisa que você não possa controlar.
Mesmo assim, não custa checar. Você liga para um psiquiatra, indicado por alguém, e marca uma consulta. Talvez a primeira da sua vida. Já que até bem pouco tempo, psiquiatra, na sua santa ignorância, era privilégio dos esquizofrênicos.

Ao chegar, você fica meio sem graça mas mantém a coluna ereta e um sorriso no rosto. Normalmente, faz uma lista de tudo que você sabe fazer e faz bem, tentando deixar a fragilidade desesperadora para o final da conversa. Afinal, você quer que o psiquiatra a considere uma pessoa normal. Enfim, você é ridícula.
Por fim, chegamos ao terrível:

_ O que te trouxe aqui? Como posso te ajudar?

É hora de contar para o desconhecido que você está sentindo medo, e que esse medo afeta seu corpo e assusta até quem está ao seu redor. Que você já largou o carro no trânsito e saiu andando em busca de alguém que te levasse a um hospital, que você já subiu 22 andares de escada porque sentiu falta de ar ao se imaginar presa dentro do elevador, entre outros episódios comuns e conhecidos somente pelos que sentem o mesmo que você.

Depois de fazer inúmeras perguntas simples ele te diz:

_ Você está com sintomas da síndrome do pânico ou transtorno da ansiedade generalizada.

Ele não fecha o diagnóstico e começa a explicar o que é tudo isso.

Só falta fazer uma lista de famosos que sofrem do mesmo mal para que você se sinta quase especial por fazer parte desse grupo crescente.

Suas mãos começam a suar e você respira fundo, paga a consulta, pega as receitas e vai para casa tentando assimilar aquilo tudo. Para na farmácia e compra o Zoloft e o famoso Xanax, conhecido no Brasil como Frontal. Pelo que disse o psiquiatra, o Frontal é uma aspirina, vai te dar um alívio imediato. Mas, quem vai te ‘curar’ das crises de ansiedade e pânico é o Zoloft, que você ainda não sabe, mas está prestes a se tornar mais importante que seu marido [aquele que vai questionar toda a medicação e achar que uma taça de vinho e uma noite de sexo resolveriam todos os seus problemas].

Você começa a pensar nas suas amigas que tomam Rivotril como se fosse um relaxante muscular e conseguem manter a linha. Começa a sentir inveja de gente que leva a vida na valsa e mata a ansiedade com três chopes, enquanto você, precisa de dez, no mínimo.

Para completar, o médico diz que você não pode mais ingerir bebida alcoólica e ainda diz que você deve fazer terapia e exercícios físicos.

Nos primeiros 15 dias, nada além de letargia. O Zoloft só começa a fazer efeito quando, por exemplo, você perde a data de matrícula do seu filho na escola e não arranca os cabelos por causa disso. Vai até a escola, explica que acabou perdendo o prazo por isso ou por aquilo e consegue resolver o problema sem fazer disso um drama. E, com o tempo, você vai se tornando conveniente e tão ou mais agradável do que um cão castrado. Continua questionando uma série de coisas, mas não abre mais a boca com tanta facilidade.

Como a droga é prescrita por um médico, você acredita que está se tratando e que milhares de pessoas angustiadas deveriam fazer o mesmo. Você começa a tomar menos atitudes e iniciativas, o que é uma bênção para quem convive com você. O medicamento te deixa educadíssima.
O pedalinho começa a se tornar mais interessante que a montanha-russa, e a libido se mantém em estado de coma.

Aos poucos, o mundo vai ficando monocromático, porque cor-de-rosa, convenhamos, seria exigir demais da indústria farmacêutica.

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