quem tem olho é rei

Ele me ligou e me convidou para convidá-lo para jantar. Marcamos uma hora e eu estava lá. Surgiu com um sorriso gostoso no rosto. Escolhi um restaurante chamado Lamas, que fica no Flamengo. Quem mora no Rio conhece. Não é aconchegante nem charmoso. É tradicional, tem mais de sei lá quantos anos. Me sinto bem em lugares por onde Philippe Starck nunca esteve.

Enfim, nos sentamos do lado de fora, em cima dos barris de chope, onde se pode fumar. Bebemos, fumamos e conversamos. Aquela carioquice toda estava deixando o moço metade à vontade, metade nervoso.

Ele, celebridade, está acostumado a frequentar restaurantes mais sofisticados e, como a maioria, acabou se acostumando a tomar caipirinhas de lichia em ambientes cronometrados e bater papos furados.

Ali, aos poucos, ele foi se soltando. Eu cruzava e descruzava minhas pernas, me equilibrando naquele barril e torcendo pra não ouvir, tão cedo, um previsível ‘vamos entrar, vamos jantar.’

Eu queria que aquela noite se estendesse, eu queria que ao menos ele me conhecesse, me percebesse sem que eu precisasse abrir a boca pra falar sobre as crônicas publicadas aqui. É uma merda conhecer um homem que já tenha lido algum conto, principalmente os eróticos. Ele cagou pro lance.

Eu estava cansada das perguntas repetitivas dos babacas que me cercam. Eu só queria uma boa conversa. Tudo o que consegui foi perceber que eu estava sendo minuciosamente observada. E isso foi me deixando cada vez mais atrapalhada. Meus cabelos, meus olhos, os botões do meu vestido, o meu jeito de fumar.

Tudo ali estava sendo filmado.

Deus! Como são fascinantes e perigosos os homens que sabem comer uma mulher só com os olhos.

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