al dente

A mulher desconhece o cara, o cara desconhece a mulher. Ele se interessa por ela e ela por ele. A grande maioria dos homens acaba convidando a mulher pra jantar. Faz parte do roteiro, do cerimonioso ritual que antecede o coito. Antes de chegar ao primeiro cenário [o restaurante] a mulher pensa na calcinha, se depila, passa horas escolhendo a roupa que vai vestir e tirar e vestir de novo, conversa com as amigas, escolhe o sapato alto, o perfume, faz as contas pra ter certeza de que não está ovulando naquele período [ porque sabe que não vai usar camisinha] e vai.

O casal senta no restaurante. Normalmente, conversam sobre seus grandes e pequenos feitos e defeitos. A mulher inevitavelmente mexe as mãos, mexe nos cabelos e cruza e descruza as pernas algumas vezes. Enquanto isso, escolhem um prato e um vinho, que além de acompanhar o prato e realçar sabores, deixa o casal mais relaxado. Tenho aversão ao papo dos bebedores de vinho. Nada é mais brochante que um quase sommelier. E, eles se multiplicaram nos últimos anos. Me lembro do Renato Machado no programa do Claude Troisgros, estudando os vinhos que combinavam com os pratos e das histórias chatíssimas que ele gentilmente contava.

Eu corro dos caras que valorizam o vinhozinho e o consideram afrodisíaco. Até porque o excesso de álcool faz com que muitos homens tenham uma ereção “al dente”, um pouco sacrificada, eu diria. Eles me lembram filmes americanos ruins, onde o vinho parece ser o único descontraído da cena. Eles me lembram as mulheres assustadoras daquele filme de terror, o Sex and the City I ou II.

Também me parece assustadora a idéia de ir pra cama com um cara sem antes ver os pés dele. Sendo assim, meu primeiro encontro perfeito [dos sonhos] seria regado a água mineral ou steinhaeger, num ambiente em que as pessoas fossem obrigadas a usar havaianas ou andar descalças. Num lugar descontraído, iluminado pela luz do dia. Sem maquiagem, sem talheres, sem script e talvez até com a cara borrada de protetor solar.

Me perdi no meu primeiro encontro  perfeito. Esqueci o casal sensacional na mesa do restaurante. Bom, o prato chega e sem o menor constrangimento, ambos começam a mastigar e falar sobre o que mastigam. Por incrível que pareça, isso é considerado apropriado e romântico. A mastigação é uma coisa íntima demais e meio grotesca. Apesar de praticá-la em público,  todos os dias, eu questiono esse nosso hábito quando associado ao sexo. Em um jantar romântico, a única coisa que  eu não sinto é fome. Enfim, depois de triturarem alimentos juntos e conversarem amenidades – com os dentes ainda preenchidos por pedacinhos do que comeram – vão fazer o que fariam melhor de barriga vazia, com muita fome e sede de saliva: Sexo. Sem dúvida, uma inversão de valores.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *