In memoriam

O homem tem uma estranha necessidade de se tornal imortal. 
Acredito que Tom Jobim, se pudesse escolher, não gostaria de ser nome de aeroporto e Ayrton Senna não gostaria de ser uma avenida. Em São Paulo, Paulo Autran também virou uma tosca passagem subterrânea que leva ao aeroporto de Congonhas. Os bons pontos já estão tomados por generais [na Zona Sul] e tenentes [na Zona Norte]. Hierarquia é com eles.
 Se eu descobrisse a cura do câncer ou fosse uma das melhores e mais reconhecidas compositoras do país, me sentiria uma palhaça ao saber que meu nome havia virado uma rua ou um espaço público sem o menor charme. Talvez até me sentisse mais privilegiada se me tornasse o nome de um drinque.
 Em Paris, o túnel da Ponte de l’Alma, por exemplo, não passou a se chamar Diana ou Lady Di, depois da morte da princesa.

Entendo a necessidade dos que ficam em homenagear pessoas ilustres que se foram, só acho que isso é feito sem o menor glamour. Parece uma brincadeira de péssimo gosto.
Eu não sei e não pretendo pesquisar como se dá [burocratimente falando] um nome à uma praça, por exemplo.

No Brasil, especificamente, acho que essa fascinação vem da necessidade de tornar-se parte da história. Como se ser nome de rua fosse um luxo, privilégio aristocrático. Eu adoraria morar em um edifício chamado Juruna ou Aracy de Almeida. Mas, os brasileiros se detestam tanto que acham mais bacana morar numa rua chamada Soren Kierkegaard, mesmo não tendo a menor idéia de quem foi o filósofo dinamarquês.

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