louco é quem perdeu tudo, exceto a razão

Já foi normal duas pessoas se digladiarem até a morte para entreter a multidão. Também já foi normal queimar mulheres na fogueira por bruxaria e fazer pessoas trabalharem sem remuneração com direito a castigos físicos só pela cor da pele. Era normal também humanos se alimentarem de sua própria espécie e se casarem sem amor. Já foi normal passar 40 horas da semana fazendo algo que se detesta, mentir para ganhar dinheiro e devastar florestas inteiras em busca de um suposto desenvolvimento. Opa, estes últimos ainda são normais!

Afinal, ser normal – e achar normais coisas que não deveriam ser – pode ser uma doença?

A doença de ser normal, chamada de normose, segundo alguns psicólogos é um conjunto de hábitos considerados normais pelo consenso social que, na realidade, são patogênicos em graus distintos e nos levam à infelicidade e perda do sentido da vida. A reportagem é longa. Segundo os psicólogos citados, a normose ocorre quando o contexto social que nos envolve caracteriza-se por um desequilíbrio crônico e predominante, onde louco é quem perdeu tudo, exceto a razão.

Para a filósofa Dulce Magalhães, que escreve sobre mudanças de paradigmas, o normótico acredita que geração de renda e falta de tempo para si ou para a família são indissociáveis.

“As pessoas consideram que trabalhar muitas horas, colocando em risco sua saúde e relações pessoais é normal”, diz ela. “Mas isso tem um custo pessoal e social altos demais, que acabam levando a problemas de saúde [ansiedade, na certa] e de comportamento [ataques de fúria ]”.

Dulce acha que a cura para a normose está em mudarmos padrões, abandonando o modelo de escassez, que hoje rege o mundo, e abraçando o da abundância. Ela explica:

“Desde a infância, aprendemos que o que vem fácil vai fácil e que, se a vida não for difícil, não é digna. Quantos de nós chegamos em casa reclamando para mostrarmos, a nós mesmos e aos outros, que trabalhamos muito e tivemos um dia duro, como se isso fosse algum tipo de mérito?”.

Fonte: trechos de reportagem de Carolina Bergier, publicada na revista “Super Interessante”.

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