Passaporte da alegria

O casal começa com o discurso de que as outras crianças da escola do Tom e da Maria Antônia já foram para a Disney e que eles não podem deixar de oferecer esta experiência para os seus pimpolhos. A Disney é uma espécie de epidemia. A mãe quer ir para comprar a Disney inteira e o pai tem que ir para poder pagar as contas e os pecados cometidos. Supondo que Tom tem 2 anos e Maria Antônia tem 4, talvez eles não estejam assim tão interessados em ir para a Disney. São os pais que começam o processo. Todo nouveau riche que se preze precisa passar pelos Estados Unidos da América e marcar hora para fazer uma foto com o Mickey. É uma espécie de histeria coletiva. Muitas vezes, a criança é só um acessório, uma desculpa para a realização do sonho do consumidor descontrolado que adora viajar para comprar todos os pares de tênis que vê pela frente. E todos voltam dizendo que as crianças aproveitaram demais. Impressionante como essa gente gosta de rodar o mundo sem sair do lugar. De deturpar completamente a referência de diversão e viagem das crianças. Viagem é ver meus sobrinhos, por exemplo, acreditarem que as estações do ano sejam pessoas e que uma dá espaço para a outra entrar.
Eles ainda não precisam de um Mardi Gras para se divertir. Eles estão descobrindo o mundo. Percebendo as coisas mais simples. Se encantando mais com filas de formigas do que com as de gente. A sede de consumo competitivo entre mães e pais [coisa do tipo quantas vezes você já levou seu filho à Disney] é digna de pena. As coleções de brinquedos beiram a ignorância e me causam certo constrangimento.
Passaporte, passagens, bilhetes de entrada para os parques e o mais importante: a lista de outlets de Orlando, onde passarão a maior parte do tempo. A mãe desvairada incita a criança a desejar aquele mundo de fantasias sem se dar conta de que talvez seja meio complicado para eles entender que ele tem que gostar do Mickey. Faz o filho adorar personagens e princesas que a mídia joga como sardinhas e as mães focas consomem sem moderação.
Isso me lembra um episódio real. Numa dessas, um amigo chamado Luiz foi com seu filho – André,
de 5 anos – para a Disney. André se divertiu assistindo Shamu dar piruetas e quando Luiz resolveu perguntar-lhe se ele sabia onde estava a resposta foi: “Em Santos, pai”. Era a referência que ele tinha. Simples assim.
Experimentem Paquetá. Dizem que está um barato e não sai tão caro. Se bem que a onda turística hoje é levar a família para andar de balão na Turquia. E ter o passaporte carimbado no estrangeiro é o que faz a alegria.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *