Bebês de Rosemary

 

 
São nove meses de espera, e a mulher passa por uma série de alterações. O corpo sofre mudanças, o humor não é mais o mesmo, a pele fica com um brilho diferente, e tudo isso merece ser registrado. Se não for registrado e divulgado nas redes sociais, perde 80% da graça.
Pensando assim, milhares de casais resolvem fazer um álbum de fotos para não deixar a espera do bebê passar em branco e, não contentes com isso, divulgam as fotos para que familiares e amigos possam acompanhar o processo, mesmo que não estejam interessados. Comover-se diante de uma gestante é uma espécie de obrigação cultural.
 
Os casais mais animados chamam as futuras dindas e gente da família para participar dos ensaios fotográficos. E os fotógrafos não perdem tempo nem dinheiro. Os preparativos [o making of] estão incluídos no pacote da falsa descontração.
A criatividade dos profissionais é surpreendente. Na maioria dos ensaios, a mãe não deixa de fazer uma foto com os sapatinhos do bebê ao lado da barriga e não dispensa a clássica do porta-retratos: o pai por trás da futura mamãe com as mãos na barriga dela. Seja dentro de um estúdio ou ao ar livre, o ensaio é sempre cafona.
Gera alegria para uns e certo constrangimento para outros. É mais um produto gringo absorvido pela classe média brasileira.
 
O ensaio da gestante é só o começo. Mal sabe o bebê que o pior está por vir. As criações da fotógrafa australiana Anne Geddes – que só não está se contorcendo no túmulo porque ainda está viva – se tornaram fonte de inspiração para a Associação Brasileira de Fotógrafos de Recém-Nascidos. Anne fez fotos belíssimas. Fez arte. Conseguiu fotografar bebês dentro de vasos de plantas e folhas de repolho. Os que se inspiraram no trabalho dela fazem coisas terríveis.
 
Vale lembrar que alguns casais não se contentam com a divulgação das imagens nas redes sociais e transformam as fotos do ensaio em cartões e ímãs de geladeira que logo vão virar lembrancinhas.
 
Para deixar o casal feliz, curta todas as fotos no Facebook e, nos comentários, escreva coisas ‘originais’ como lindo ou linda.
 
Deus, não existe nada mais constrangedor que um bebê feio. No entanto, somos proibidos de pensar nisso. É uma regra da sociedade hipocritamente correta em que vivemos. Todo bebê é lindo. 

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