carta do leitor

“Nazistas induziram a população à práticas odiosas, por meio de campanhas publicitarias, bem elaboradas, para que o próprio povo perseguisse outros pobres coitados. As peças estão à disposição para quem quiser vê-las. Disseminam o ódio pelo medo e pelo nojo do objeto escolhido. Em nenhuma delas há humor. Nazismo não combina com humor. Nazismo detesta o humor. Nazismo mata quem fizer graça dele. Nazistas odiaram obras como o Grande Ditador, de Chaplin. Nazistas queriam um modo asséptico, de beleza uniforme.
Escrevo tudo isso para afirmar que é um ataque à liberdade de expressão qualquer cerceamento a um escritor. Os melhores de todos os tempos, em todas as épocas, sempre incomodaram e vão incomodar, por dizer o que outros não queriam ouvir. É a função do artista captar o que está no ar, disponível para quem sentir, e transformar aquilo em matéria a ser saboreada pelo grande público.
Grandes artistas incomodam porque relatam com precisão, por meio de formas tantas vezes inusitadas, aquilo que está no coração e nas mentes das pessoas e elas evitam comentar.
Não haveria nazismo se as pessoas não estivessem naturalmente preparadas para odiar. O texto publicitário incitador é apenas o gatilho de algo já latente.
Seus textos me fazem rir e pensar, porque retratam situações comuns do cotidiano. Não há graça sem reconhecimento.
É lamentável saber que o Ministério Público a denunciou por nazismo e prática preconceituosa, sem atentar para o Princípio maior da Liberdade de Expressão, que somente veda o anonimato e o ataque pessoal, em termos.
Você não é nem jamais seria nazista. Isso é próprio de quem jamais soube o que foi o nazismo. A acusação de Nazista se encaixa bem na boca de gente que não tem o que dizer. É vaga demais. Cabe tudo. E não cabe nada. O difícil será fundamentar a acusação com dados objetivos. De subjetivo, atraente para o insconsciente de cada um, já bastam suas bem urdidas crônicas.
Acusá-la de nazismo é o mesmo que acusá-la de ser um porco-espinho disfarçado.
Não há o menor cabimento.
Pior foi saber que na denúncia ainda consta acusação de prática preconceituosa.
Preconceitos todos temos, e só os hipócritas, a maioria, nega o fato. Não é crime tê-los. E não há forma de combatê-los enquanto estes mesmos preconceitos ficarem em silêncio. A exposição e o debate extremamente necessários. A luz do sol é o melhor desinfetante para tudo o que não presta.
Só ditaduras impedem a Liberdade de Expressão, porque consideram uma ameaça ao poder. Com liberdade de expressão, a sociedade ‘pode’ impor ao governo o que deseja que ele faça, e os governos não gostam disso. Especialmente os ditatoriais.
Ao rir de um preconceito, ou mostrar o inusitado de uma situação, o autor não está apoiando ou condenando um fato. Muito menos incitando. Está apenas expondo, para que outros leiam e reflitam.
A propaganda, funciona bem porque suas mensagens, simples, curtas e diretas, incitam o publico a fazer o que querem que seja feito. E conseguem. Um texto literário não funciona assim. Cada um o interpreta de acordo com sua subjetividade, com suas idiossincrasias. Explica porque o número dos que gostaram é maior do que o número de insatisfeitos.
Seremos todos culpados? Há uma lei impondo um gosto comum a todos? Não creio, mas acho que existe esse desejo.
O Brasil já passou por duas longas ditaduras, e não tem desejo de viver as mesmas situações novamente. Tem uma hora que cansa.”

Alvaro Justta Júnior,  sobre o texto Preto no Branco.

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