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Era uma vez eu, numa festa junina, no Retiro dos Artistas. Era uma vez, nessa mesma festa, um ator italiano que fazia papel de padre numa novela da época. Era uma vez eu e ele sentados num sofá, completamente calados. Estávamos numa parte isolada da casa [área restrita às personalidades que fariam presença na festa]. Eu não sabia quem era o cara. A multidão clamava por um padre. Eu, alienada, demorei algum tempo para entender que era ele o tal padre.

Perguntei:

_ Quem é esse padre? Ele riu e disse: _ Sou eu. Fiquei sem graça e tentei me explicar. _ Olha, eu não assisto novelas porque não gosto. Não suporto papo de intelectual que crucifica televisão. Sou alienada. Não leio Dostoyevsky no horário nobre da Globo.

Ele me interrompeu: _Você realmente nunca me viu na novela? _ Não! Para a minha surpresa, ele respirou aliviado e disse que não estava lá muito satisfeito com a sua atuação ou com o rumo que o personagem tinha tomado.

Começamos a conversar sobre outras coisas, entre as quais a dificuldade dele em atuar em outra língua. Muito simpático e gentil, ele me pergunta o que é que eu estava fazendo ali. Expliquei que estava ajudando uma amiga que produzia e promovia a tal festa junina. Na verdade, eu não estava fazendo nada.

Ele me pediu para dar uma volta pela casa, para conhecer o andar de cima da sede do Retiro dos Artistas. Subi as escadas e comecei a mostrar os cômodos que nem eu conhecia. Num deles, encontramos pufes, muitos pufes com cheiro de abandono. Fazia frio. Sem dar uma palavra, sem cerimônia alguma, o padre me deu um beijo que levou cerca de 40 minutos para terminar.

Virei uma boneca de pano nas mãos de um homem delicadamente bruto. Ajoelhei, rezei, engoli a hóstia e não me confessei. Ali mesmo, no meio daqueles pufes, eu pequei, sem usar camisinha [ como manda a Igreja Católica ].

Desci as escadas com as pernas deliciosamente bambas, sentindo aquela água benta italiana escorrendo devagar entre as minhas pernas. Ele foi fazer o papel dele, aparecer na janela e dar adeus para a massa de fãs da novela. Eu fui pro banheiro, arrastada pela minha amiga, que me encostou na parede e disse:

– Você deu pro cara?

– Você me trouxe até aqui achando que eu fosse participar da quadrilha?

 

 

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