preencha a ficha

Eu e Elise conversamos durante horas sem o tradicional interrogatório. A conversa era o aqui e o agora. Uma falava das coisas que estava com vontade de comer. A outra dizia que o ela queria mesmo era poder beber. Se fossemos americanas, com certeza, antes de nos afinarmos, uma das duas já teria partido para o preenchimento da ficha.

Explico: Preenchimento de ficha é o que toda pessoa rasa faz quando se depara com outra e sente-se na obrigação ou tem necessidade de falar. É o prenúncio de uma conversa chata. Não parece uma conversa. Parece uma pesquisa, entrevista ou coisa parecida.


Com o que você trabalha? Você é casada? Tem filhos? Você estudou em que universidade? Nasceu em que parte do país? Onde você mora?O fato é que pro raso, o que vale são os dados. Ele pega um dos ganchos para começar a falar o óbvio e iniciar um papo de elevador. Não sei exatamente o motivo mas a espécie adora coincidências.

Não perdem a oportunidade de soltar um “Gente, como esse mundo é pequeno!


Uma vez, uma depiladora me fez um questionário. _ Casada? _ Sim. Tem filhos? _ Sim. Namorado? _ Sim. Namorada? _ Ainda não. Tem cachorro? _ Sim, quatro. Doa roupa para os pobres? _ Sim. 

Depois do interrogatório, percebi que ela estava satisfeita. Todas as minhas respostas  fizeram com que ela tivesse a certeza de que eu era uma mulher completa.  Perguntei:

_ Você é feliz? 
Ela sorriu e disse que sim. Eu sorri e disse:  Eu não.

_ Desesperada, ela disse: Será que a senhora “pegou” depressão?

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