Derby

_ Dani, quanto mais se fala em diversidade e valorização de diferenças, mais padronizadas as coisas parecem estar. Liberdade em cativeiro. Todos andando em círculos, como ficam os bichos quando aprisionados. Um adestramento coletivo assustador. São surdos e mudos que não conseguem parar de falar nem por um minuto [ via whatsApp ].
Todos fazem terapia e atividade física. Todos são espiritualizados e usam drogas lícitas ou ilícitas. Ninguém mais ouve ninguém. Ninguém mais percebe ninguém.
Todos dirigem sozinhos, para o mesmo lugar.
Um tapete de carros de quatro ou cinco lugares. Carros enormes. Todos com uma pessoa dentro, o motorista, segue seu percurso reclamando do trânsito, sempre. Todos passivos, apesar de irritadíssimos.
Pessoas fazem discursos em redes sociais. Todos precisam expressar suas opiniões e listar suas realizações. É um implorando a aprovação do outro. A maioria segue com o rolo compressor e tenta fazer o possível para ser feliz, seguindo os padrões da sociedade!

_ Silvia, cale a boca. Vamos dar uma volta?

_ Vamos.

Encontramos três amigos que nos convidaram para tomar um café.
Um deles me perguntou:

_ Tudo bem?
_ Não, tudo uma merda! Dormi mal, estou desnorteada, desempregada e sem vontade de fazer quase nada. Além disso, sou fumante e, às vezes, não poder sentar numa mesa e fumar dignamente me incomoda demais. Fumar em pé, na calçada, longe dos que podem se incomodar com a fumaça, é chato. Tolerar os olhares de reprovação, mais chato ainda. Fumar tornou-se um hábito deselegante, coisa de gente ignorante. Foda-se. Na área de serviço ou na porta dos fundos, tem sempre alguém interessante queimando um Derby. Vou até lá e já volto.

Dani diz: Ela, hoje, acordou inspirada [ risos ]
Volto para mesa. Sento. Uma das meninas pergunta:

_ Fumou?

_ Sim, fumei. E o assunto girava em torno do cigarro. Ricardo, que abandonou o vício há 2 anos e tornou-se aquele tipo de ex-fumante insuportável, resolveu fazer um discurso.

_ Sil, você deveria começar a trabalhar a sua cabeça para tentar parar de fumar!
_ Ricardo, eu não quero parar de fumar! E você deveria respeitar isso. Eu deveria muitas coisas. Eu deveria me alimentar melhor e deveria ler mais, eu deveria refazer o meu currículo. Por favor, me deixe fumar em paz. Minha vida afetiva está uma catástrofe . Meu Marlboro, no momento, me preenche.
_ Já explorou essa relação entre o cigarro e o sexo, na sua análise?
_ Ricardo, com que tipo de gente você está convivendo? Que tipo de pergunta cretina é essa? Nós não estamos gravando nenhum programa do GNT, estamos?
Se estivermos, faço questão de dizer que não faço mais ioga mas continuo abraçando porteiros, garçons e manobristas. E, se estivermos ao vivo, sugiro conversarmos sobre aquela dieta que é baseada no tipo sanguíneo. Os retardados adoram esse tipo de papo.

Dani, meu irmão, permanece rindo. Levanta, pede uma água e diz:
_ Silvia, vamos embora. Eu sou calmo mas não sou palhaço. Aliás, acenda um cigarro, agora, dentro desse estabelecimento!

 

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