jogo de xadrez

 

Fico observando a preocupação dos pais com a educação formal dos filhos. Os valores que o pai, modelo ocidental, neurótico e coisa e tal, passa pro filho, como se fosse um manual. Quantas línguas a criança vai falar, que tipo de esportes vai praticar. Que livros vai ler e que instrumentos vai tocar. Percebo que a intenção dos pais é boa. Porém, tenho a sensação de que parecem estar preparando os filhos para uma espécie de guerra, onde eles terão de se destacar para sobreviver. Onde o outro – o amiguinho – pode ser visto como um futuro concorrente quando a criança for fazer uma prova para garantir sua vaga-mirim em empresas sólidas como a Apple, por exemplo.

Pais não querem que seus filhos sejam comuns ou medianos. Orgulham-se dos que vencem campeonatos de xadrez ou olimpíadas de matemática, dos que tocam instrumentos como violino e violoncelo. Pandeiro só vale se os pais forem alternativos.

Adoram dizer que a criança é muito inteligente e que poderia passar para a turma mais avançada ou próxima série. Desde cedo, a adoração pela pressa. “Mas, a psicóloga acha que isso pode não ser legal, sabe?”

Eu aprendi a jogar xadrez quando era pequena. Jogava com meu irmão e perdia quase todas as partidas. Ele conseguia se concentrar e calcular as jogadas. Eu só queria movimentar as peças. Sempre adorei o bispo porque ele era o único daquele tabuleiro que podia correr de um lado pro outro, sem obstáculos, como se estivesse patinando no gelo.

Eu não entendo nada de psicologia mas acredito que essa neurose seja uma espécie de projeção misturada com muita preocupação e ilusão de controle. A loucura começa – por exemplo – na supervalorização de um primeiro lugar em uma simples competição de natação, futebol ou qualquer outra atividade que a criança pratique. É um verdadeiro fascínio pela vitória, coisa que para a criança pode não ter representado nada.

Hoje, tenho consciência de que eu, quando nova, só me esforçava para ganhar as competições de natação para ver meu pai satisfeito. Por mim, jamais participaria daquilo. Pais e mães histéricos, gritando perto da borda da piscina, transformando confraternização em treinamento para as Olimpíadas.

Eu, quando era escolhida para fechar revezamento, ficava literalmente desesperada. Ficava quietinha e fazia o meu papel[zinho]. Se eu dissesse: “Quero voltar para casa!” levaria comigo o peso da derrota, a decepção dos pais e dos amigos. Um trabalho árduo. Portanto, era melhor entrar na piscina e vencer a porra da prova.

O pai quer que o filho se destaque. Se o pequeno cidadão estiver em perfeito estado, ou seja, não tiver nenhum problema de saúde, ele tem uma lista de tarefas pela frente.
E o modelo de sucesso é assustador. Fica claro, desde cedo, que ter parece ser mais importante que tudo. O sucesso está diretamente relacionado aos bens conquistados. Aos carros e cargos. Famílias e fardos. Bolsas e sapatos, carrinhos e helicópteros. Não sou educadora. Sou uma observadora.
A gincana é barra pesada. Tudo com data e hora marcada.
Tropa de elite.

Só torço para não ver crianças tristes e frustradas, carregando uma mochila que não é delas. Que sejam felizes com ou sem medalhas. Que possam mostrar pro mundo – e para os pais – que o conceito de sucesso é complexo.

Uns serão artistas e outros talvez vivam como turistas. Uns vão deixar o cabelo crescer e outros estarão sempre vestindo a mesma camiseta polo do pai. Alguns serão médicos ou advogados. Outros serão cantores de churrascaria, pastores evangélicos, veterinários, cientistas visionários, acionistas da Coca-Cola ou psicanalistas.

O que importa é que se sintam amados e sejam felizes, dentro e fora do possível.

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