sem pressa

bolinha

Ao todo, foram quase nove horas de trabalho. Trabalho árduo, sem trégua. A empreitada que trouxe ao mundo Danilo, hoje com um ano e dois meses, foi longa. A mãe, a enfermeira obstetra Laetitia Plaisant, resolveu que seu primeiro filho nasceria em casa – sem médico, sem bisturi, sem luzes brancas, sem cheiro de éter. E assim foi, com a ajuda do marido, da parteira Heloisa Lessa, que tem 15 anos de experiência no assunto, e algumas bacias de água.  Durante as horas intermináveis em que Danilo teimava em continuar no conforto do útero, Laetitia administrava sua dor. Não conseguia se deitar.  As únicas posições em que encontrava algum alívio eram de cócoras ou sentada. Cada vez que tentava se recostar na cama, punha-se correndo de joelhos,  instintivamente. Depois que o bebê, enfim, deu o ar de sua graça, o mistério foi solucionado: o cordão umbilical de Laetitia era muito mais curto do que o normal. “Acocorada ou sentada, portanto encolhida sobre mim mesma, eu, por instinto, diminuía a distância entre o ponto em que o cordão se ligava à placenta e o umbiguinho do Dani. A natureza é sábia”, lembra.

A cena acima parece coisa do tempo da vovó. E, de fato, é: coisa do tempo das nossas avós, bisavós, tataravós… Só que deveria ser, também, coisa do nosso tempo, segundo os defensores do parto natural, aquele em que simplesmente nós seguimos as regras e o relógio da natureza. Sem pressa, sem controle. “O parto deveria ser um evento médico somente nas situações de risco. Para que cada vez menos se recorra à intervenção cirúrgica, a mulher deve tomar posse de seu parto, saber que seu corpo é perfeito para gerar e dar à luz uma criança”, diz Ana Cristina Duarte, que há quatro anos trabalha como “doula”, uma espécie de enfermeira especializada em acompanhar a mãe nos últimos meses da gestação e no momento do parto. Olhando para as estatísticas, parece mesmo que a mulher brasileira esqueceu como é que se fazia antigamente. Nos hospitais privados país afora, a taxa de cesarianas chega a 80%, sendo que a porcentagem recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) é de 15%. A desproporção entre cesariana e parto normal causa ainda mais arrepios se os números forem comparados a outros países, como o Japão, onde apenas 5% dos partos são cirúrgicos, a Inglaterra, onde as cesarianas ficam em apenas 8%, e os Estados Unidos, onde a taxa é de 25%.

Por que parir virou sinônimo de bisturi? A explicação é simples: os médicos apostam na cesariana para controlar o tempo – e a conta bancária. Mesmo sendo considerada mais arriscada, a cesárea é a preferida de boa parte dos obstetras por ser bem mais rápida do que o parto normal ou natural – e com o mesmo custo. “O trabalho do parto vaginal pode demorar oito, nove, dez horas. Já a cesárea leva uma hora. E o médico recebe o mesmo valor pelos dois”, afirmou Thomas Gollop, professor da USP e médico no hospital Albert Einstein em reportagem publicada pelo jornal Folha de São Paulo. Se por um lado o médico tem pressa, nós não somos vítimas da correria alheia. Somos parceiras de corrida, já que também embarcamos na onda do controle do tempo. Fomos criadas para acreditar que o médico é sinônimo de segurança e conforto. E parto natural é coisa de quem diz não aos avanços e comodidades da medicina moderna, de quem se permite sentir dor em pleno século 21. E mais: marcando a data do nascimento podemos nos dar ao luxo de escolher o signo da criança, marcar as férias do marido, fazer depilação e etc. “Existe um tempo de conceber. Existe um tempo de parir.  Por que atropelar esse tempo e procurar passá-lo de olhos bem fechados? Por que não usufruir a fantástica transformação que ele (e só ele) proporciona?  Medo da dor?  Bobagem. Se a dor fosse lá essas coisas a humanidade não teria chegado até aqui”, argumenta Laetitia.

Os defensores do parto normal resolveram botar a boca no trombone e levantar a bandeira do parto natural por um motivo muito legítimo: parir naturalmente é bem mais saudável do que encarar o bisturi, tanto para a mãe quanto para o bebê. O risco de morte da criança é de duas a 15 vezes maior em cesáreas do que em partos vaginais, além das complicações comuns em procedimentos cirúrgicos como acidentes durante a anestesia, infecções, embolias, hemorragias e tromboses. De acordo com professor e perinatologista americano, Marsden Wagner, presidente da Conferência Internacional sobre Humanização do Parto, realizada no fim do ano passado no Rio de Janeiro, o parto vaginal é um processo físico e hormonal, e serve para terminar o amadurecimento do bebê, principalmente seus sistemas respiratório, imunológico e nervoso. Ao passar pela bacia da mãe, o bebê tem seu tórax comprimido, o que ajuda a expelir a água por ventura depositada em seus pulmões, facilitando-lhe a respiração e diminuindo o risco de problemas respiratórios. “A mulher deve ter o controle de seu parto e não estar sob o controle de um médico, anestesiada e impotente. O protagonista não é o médico. É a mãe”, afirma Wagner, que durante 15 anos militou pela saúde materno-infantil nas fileiras da ONU. “A natureza é a melhor obstetra do mundo. Já participei de 114 partos naturais feitos em casa e em apenas um deles a gestante foi transportada para um hospital por não suportar a dor”, completa a “doula” Ana Cristina.

Além de parir naturalmente, o ideal é parir seguindo a cartilha do que os médicos estão chamando de parto humanizado. O que é isso? Coisa que sua avó, com certeza, sabia muito bem. Alguns dos principais hospitais do país já oferecem hoje, à mãe, a opção do parto natural em ambientes que em nada lembram uma sala cirúrgica. Cheiros, música, iluminação aconchegante, tudo para que o nascimento seja memorável. Mas, para que a experiência seja a mais espetacular possível, é necessário que o obstetra esteja em sintonia com os sinais dos tempos: os que indicam que, para viver e morrer bem é necessário nascer bem. E, ao contrário do que parece ser a norma, sem pressa.

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