kennedy

Kênia Adriane parecia ser uma mulher feliz. Daquelas que não precisa visitar Paris para descobrir que o mundo é um quarteirão. Pelo que percebi, naquela época, cuidava muito bem de seus filhos e era tarada pelo marido. O nome de chacrete não era artístico. E ela não achou graça no dia em que eu disse isso.

Kênia era uma mulher marcante. Exalava autenticidade. Bonita com ou sem maquiagem. Era elegante tomando um cálice de vinho ou uma dose de cachaça. Kênia era uma Kennedy. Os olhos castanhos e brilhantes, um formato de rosto marcante. Reparei que não usava acessórios.
Nada de brincos, anéis ou colares. Os cabelos eram pintados. Kênia estava ruiva naquele ano.

Conheci a figura no meu segundo dia naquela cidade. Deixei a pensão onde estava hospedada e fui procurar um barzinho para tomar um cerveja gelada. Não sabia por onde começar a escrever uma matéria sobre a menor cidade do país, Serra da Saudade, em Minas Gerais.

Quando entrei no boteco, Kênia Adriane estava sentada no balcão, conversando com o dono do bar. Sentei-me ao lado dela, fechei os olhos e – por alguns segundos – me deixei levar pelo prazer da brisa que aquele ventilador antigo soprava.
Kênia me olhou – sorrindo – perguntou meu nome e já pediu para que Seu Jacinto providenciasse uma cerveja gelada para a visitante.

Seu Jacinto me serviu e ainda disse: _ Se a senhora quiser fumar, não há necessidade de sair do bar. Pode fumar aqui mesmo, sentada. Pensei: A menor cidade do país é um paraíso.

Kênia vestia um longo tomara que caia, estampado. Como detesto estampas, costumo reparar em todas. Aquela me agradava e eu descobri porque. Eram três cores frias. Fundo bege [ acho que bege, atualmente, tem outro nome ] estampado por discretas tulipas bem pequenas em dois tons de azul: O marinho e o menos marinho.

Começamos a conversar e não foi difícil perceber que aquela pequena cidade daria um conto, ilustrado por pessoas como Kênia e Seu Jacinto, um viúvo muito distinto. O nome Kênia me intrigava. Peguei o telefone e pesquisei. Kenia, sem acento, significa ‘esperta’ e o nome é de origem inglesa.
Além da origem, o site descrevia a personalidade do nome.

Li em voz alta:

Independente, decidida e com um magnetismo invejável. É uma pessoa de muito poder. Mas não sente necessidade de viver anunciando suas qualidades. Prefere a discrição, observando tudo e tomando suas próprias conclusões. Preocupa-se muito pouco com a opinião alheia. Esbanja sensualidade e sabe como explora-la.

Kenia gargalhava. Eu também. Já estávamos meio bêbadas. Ela resolveu recitar um conto erótico, escrito por ela.

“No fim do dia, quando ele chegava em casa, o casal praticava um ritual. No quarto, Adriane se ajoelhava e desabotoava a calça do marido. Devagar, suas mãos tocavam o que ela adorava lamber e chupar incessantemente. Adriane sabia como fazer o marido morrer de prazer. Depois dele, era a vez dela. Sentava-se na cama, abria as pernas, inclinava o corpo para trás e esperava, já descontrolada, a língua do marido invadir seu território sem pedir licença.”

Quando terminou de interpretar seu texto, olhou para mim e disse:
_ Gostou? Tenho outros.
Eu, ainda meio impressionada, respondi: _ Gostei, gostei muito.

Quem trabalha encaixando letras reconhece – de cara – um texto montado por quem tem talento. Ali estava eu, tomando cerveja com uma escritora que vira para mim e diz:

_ Você conhece os textos da Silvia Pilz?

_ Conheço. Já enjoei.

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *