olivetti

Era magrinha, usava os cabelos curtos [ o pai achava mais prático ] e não tinha as orelhas furadas [porque os pais achavam que isso era coisa de índio]. Já estava acostumada a ser confundida com meninos. Porém, o costume não diminuía a dor e o constrangimento de cada vez que isso acontecia. Ela era doce e toda vez que era confundia com um menino, respondia: ‘Eu não sou menino. Eu sou menina’.

O tempo passou e as orelhas foram furadas, sem a autorização dos pais, aos oito anos de idade. A madrinha a levou até a farmácia. Lá, ela escolheu um par de brinquinhos [duas estrelinhas] e sentou-se num banco, toda sorridente, esperando o moço furar suas orelhas com aquelas pistolas que existem até hoje. Que dia marcante. A alegria dos brinquinhos e o receio de chegar em casa e mostrar para o pai, as orelhas furadas. O pai não se incomodou. Sabia que em algum momento, isso aconteceria.
Dali pra frente, ela mudou. Tornou-se mais feminina, mais ousada.

Brincava com todo mundo mas não gostava de fazer parte de nenhum grupo. Detestava regras. Ela não suportava nada que lhe trouxesse a sensação de aprisionamento. Detestava sentir-se compromissada. Tinha medo. Um dia, conversando com a avó sobre trabalhos em grupo, disse: “Se eu fizer errado sozinha, eu erro. Se eu fizer errado, em grupo, o grupo erra”.

A avó tentou entender melhor e percebeu que a neta – com apenas oito anos – já não se percebia. Era aquele tipo de criança que se olhava no espelho e se percebia. A avó perguntou: ‘Você tem medo de ser reprovada pelos colegas de grupo ou pela professora?’. Para a surpresa da avó, ela responde: ‘Eu tenho medo de errar’. A avó olhou para cara dela e disse: Medo de errar? Que besteira. Só não erra quem não tenta, Silvia. Naquela época, ela não saberia explicar que tinha medo ser reprovada pelos outros.

Conversando com a mãe, a avó percebeu que a menina morria de vergonha de desfrutar da vaidade, como se fosse um crime, como se a feminilidade fosse vulgar. De onde ela tirou isso? A avó questionava, meio contrariada e, naturalmente, sempre culpando o genro, alegando que tal comportamento era coisa do pai, que tratava a menina como menino.

Aquela menina misturava delicadeza e coragem. Era difícil defini-la. Capaz de se defender, capaz de ofender e capaz de não conseguir dormir por não ter pedido desculpas para uma das amigas da escola que ficou chateada com ela durante um jogo de queimada. Lembro-me de um detalhe: Ela chorava quando ouvia música clássica. Ficava emocionada.
Quando ficou menstruada, aos 13, espantou-se. Estava na casa da avó, em São Paulo, esperando o pai que apareceria dentro de dois dias para leva-la de volta para casa, no Rio.

O lado B [ Juma Marruá ] veio à tona. Não queria calcinha e nem absorvente entre as pernas. Tudo apertava. Tudo incomodava. A menina chorava e dizia: “Quero ficar na banheira!”.

A avó, desesperada, ligou para o pai, já que a mãe estava fora do país, e pediu para que ele conversasse com a pequena fera. Brava, muito brava, ela disse: “Pai, eu não quero essa calcinha com algodão no meio das minhas pernas. Eu não quero nada no meio das pernas”, sempre muito dramática, aos prantos, como se estivesse carregando um rolo inteiro de papel higiênico dentro da calcinha. O avô – de canto – sempre dizia: “Essa vai dar um trabalho que Deus me livre e guarde”. Ele estava certo. Mas os problemas chegaram mais tarde, depois da Olivetti, [continue lendo. ela aparece daqui a pouquinho]

Voltando ao drama da menstruação: “Pai, quero usar aquele outro que a mamãe usa e que fica só um fio pendurado [no caso, ela queria um absorvente interno]. Naquela época, poucas meninas sabiam o que era um Ob. O pai autorizou a avó a comprar o absorvente interno [mini] e a menina ficou satisfeita, menos incomodada. Naquele tempo, o mundo ainda supervalorizava o hímen. O pai sabia que o absorvente interno tamanho mini não tiraria a virgindade dela.

E ele, por incrível que pareça, ele tampouco valorizava a porra da virgindade religiosa. Até porque, como ele mesmo dizia, a perda da virgindidade é bem mais ampla e complexa que o rompimento do hímen. No dia seguinte, o pai chegou, sorrindo, para buscar sua mocinha! E, trouxe um presente. Uma Olivetti!
Ela era louca por máquinas de escrever. Mas, sonhava em ser caixa de supermercado.
Brincou de secretária por muito tempo.
Depois, enlouqueceu e resolveu ser jornalista.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *