olfatos sagrados

De acordo com Marcelo Martins, gerente de Marketing Fine Fragrances & Personal Care da International Flavors & Fragrances (IFF), a entrada das grandes marcas importadas no mercado brasileiro fez com que os nossos consumidores tivessem acesso a perfumes de prestígio mundial. Para competir com esses gigantes, a indústria brasileira teve de aumentar os investimentos e melhorar a qualidade de seus produtos tendo como referência as fragrâncias francesas, italianas e americanas. “Hoje conseguimos perceber uma sensível melhora no design dos frascos, na comunicação dos produtos e na qualidade das fragrâncias produzidas aqui no Brasil”, diz Marcelo Martins.

Exemplo é o consagrado Perfume do Brasil, da Natura, um dos lançamentos marcantes da perfumaria nacional. Com design inovador e matéria-prima essencialmente brasileira, ele é considerado um marco na história da perfumaria fina nacional e internacional. Ainda hoje, os grandes lançamentos feitos no eixo Paris-Nova York-Milão são os mais importantes mundialmente. A indústria de perfumes brasileira, porém, já virou referência internacional em relação ao uso de matérias-primas exóticas e singulares como o breu branco, o cumaru e a pitanga.

Nossos perfumistas também passaram a ser considerados do mesmo quilate dos estrangeiros. Na IFF, por exemplo, maior casa de perfumaria do mundo, os perfumistas trabalham de forma integrada e utilizam as mesmas “técnicas” e matérias-primas, independentemente do país em que os projetos estão sendo desenvolvidos. Tem brasileiro criando fragrâncias na Itália e italianos criando perfumes no Brasil.

Nem sempre foi assim. Os perfumes, antes, eram constituídos basicamente por uma mistura quase artesanal de essências naturais. Na primeira metade do século XX, as matérias-primas sintéticas conquistaram espaço no mundo da perfumaria em função da facilidade de produção e baixo custo. O processo de extração das matérias-primas naturais – como flores, ervas, raízes, especiarias, madeiras e sementes – era complexo e, conseqüentemente, mais caro. Além disso, dependia de variáveis externas (condições climáticas, temperatura, plantio, colheita) e dificultava o estabelecimento de um padrão de qualidade do produto. O predomínio das essências sintéticas voltaria a ceder espaço às matérias-primas naturais porque elas enobrecem o perfume e carregam beleza e emoção em estado natural.

Mais do que o valor, o que permitiu o retorno ao uso intensivo de essências naturais pela indústria de cosméticos foi sua capacidade de estabelecer normas rígidas de produção e extração nas regiões em que são produzidas. Um bom exemplo disso é o breu branco, o elemento ativo do Perfume do Brasil, da Natura. O breu branco é extraído de Reserva Extrativista na Amazônia de acordo com as regras estabelecidas pela própria empresa para evitar oscilações na qualidade do produto. Para isso, a Natura montou uma equipe de profissionais – biólogos, ambientalistas, perfumistas, engenheiros – que monitora freqüentemente todo o caminho percorrido pelo breu branco e a qualidade de cada etapa do processo.

De acordo com Napoleão Bastos Júnior, perfumista que tem no currículo a assinatura de duas criações para O Boticário – o Malbec  e o Carpe Diem – e uma para a multinacional Unilever – o desodorante Rexona –, a súbita revalorização de ingredientes naturais nos perfumes deve ser atribuída à indústria cosmética inglesa The Body Shop. Fundada na década de 70 por Anita Roddick, ela incorporou aloe vera, óleo de jojoba e manteiga de cacau aos seus produtos. Em uma de suas linhas, The Body Shop utiliza como ingrediente um ativo brasileiro: a castanha-do-pará. De certo modo, pode-se dizer que ao inovar, trazendo de volta às suas essências ingredientes ativos naturais, Anita Roddick obrigou a indústria de perfumes a voltar às suas origens no século XV, quando praticamente não se empregava qualquer elemento sintético.

A história da perfumaria é esclarecedora. Não é raro ouvir que ela é coisa dos egípcios. Em março, arqueólogos anunciaram ter descoberto uma fábrica de essências criada em Chipre há quatro mil anos. Entre os perfumes da época de Cleópatra e os que compramos hoje em farmácias e lojas de cosméticos existem, entretanto, imensas diferenças tanto de consistência como de uso. Talvez a única semelhança entre eles é que tanto no passado como hoje foram feitos para exalar cheiros.

Na Antiguidade, o uso de perfumes se restringia a cerimônias religiosas. A composição básica empregava material oleoso – elementos retirados de gordura animal, raízes ou resinas – aos quais se juntavam essências – de flores, como rosas e jasmins, ou de temperos, como açafrão e canela. A fragrância era liberada pela queima lenta do resultado final da mistura, prática que deu ao mundo a palavra incenso. Duas inovações tecnológicas ocorridas no fim da Idade Média e no início da Renascença botaram a indústria de perfume de pernas para o ar. Foi só então que o perfume passou a ter outros usos: primeiro, perfumar roupas; depois, corpos.

Uma delas foi o alambique, que facilitou a destilação de matérias-primas das essências em água fervendo. A outra foi a descoberta do álcool etílico. O primeiro permitiu ampliar a escala de produção. O segundo, a criação de um produto que não deixava o usuário inteiramente melado. Das suas origens, além da necessidade de exalar essências, a moderna indústria de perfumes herdou também o nome. Perfume vem de per fume, do termo latino que significava “para fumegar”. Os perfumistas do início da era moderna da indústria tinham fama pessoal e assinavam suas criações. O mais famoso deles, que, aliás, constituiu uma dinastia de perfumistas ao longo de todo o século XIX, foi François Guerlain, que abriu uma fabriqueta em Paris em 1828.

Sua filha, Aimé, é considerada a criadora do primeiro grande perfume francês, o Jicky, de 1889, por sinal pioneiro na mistura de essências naturais e sintéticas para produzir fragrância. A assinatura individual nos frascos foi gradualmente desaparecendo no início do século XX, quando as casas de alta costura da França e da Itália se envolveram nesse ramo de negócios e perceberam que suas marcas eram capazes de atrair mais a atenção dos consumidores do que o nome dos criadores das essências. Hoje, o anonimato dos perfumistas virou padrão na indústria.

Chega a ser uma injustiça. Entre os fabricantes de cosméticos, os perfumistas têm status de artistas. Não raro, o trabalho deles é comparado à composição de uma música. Talvez seja até mais do que isso. “Precisamos levar em conta não apenas as milhares de essências que carregamos ‘arquivadas’ em nossos olfatos, mas também tendências de moda, comportamento, hábitos alimentares e até a temperatura nos mercados em que serão comercializados”, lembra Bastos Júnior. Tudo isso influi nos efeitos de um perfume, cujo processo de criação, hoje em dia, começa nas áreas de marketing e comercial dos fabricantes. Eles definem o público alvo, pesquisam seus hábitos e repassam essas informações aos perfumistas das casas de design de fragrâncias como a Givaudan.

De posse delas, os perfumistas trabalham principalmente com a memória que têm das essências que aprenderam a distinguir com seus narizes. Não basta apenas ser artista e descobrir uma fragrância genial. Eles são obrigados a processar questões técnicas, como custo de produção, consistência e até a capacidade do produto final de produzir reações alérgicas nas pessoas. Uma vez desenhada a fórmula, ela é repassada aos químicos para a produção em laboratório. Vencida esta etapa, a fragrância é aspergida em pedaços de papéis e volta ao perfumista, para enfrentar o teste final de seu nariz. Se ele não gosta do que cheira, faz pequenas adaptações – modera um elemento, exagera no outro – até encontrar o ponto que considera ideal.

Embora seus nomes não apareçam nos frascos, os perfumistas ainda são considerados artistas no mercado da perfumaria fina. Têm talento especial para compor fragrâncias como se fossem músicas. Bastos Junior diz que é fundamental que a fragrância atenda às necessidades do público, levando em conta até os hábitos alimentares. “Podemos dizer que um perfume não é uma criação isolada e, sim, um participante da sociedade para o qual foi desenvolvido. A fragrância é reflexo de uma realidade que envolve tendências, anseios e desejos”, afirma Therry Bessard.

Para criar o Malbec e o Carpe Diem, Bastos Júnior levou em consideração cerca de seiscentos elementos químicos naturais e sintéticos. Seu nome raramente é associado a ambos, mas ele não se importa. Acha o que faz um privilégio. No caso da criação do Malbec, por exemplo, teve uma oportunidade única. O projeto reuniu duas grandes artes. A perfumaria e a criação artesanal de vinhos. A fragrância é rica em contrastes. Pela primeira vez no mundo, um perfume foi fabricado tendo como base o álcool vínico [obtido pela destilação de vinho]. “Foi um processo riquíssimo em termos organolépticos (propriedade demonstrada por uma substância que impressiona um ou mais sentidoso”, afirma.

Apesar de todo o ritual de treinamento do olfato, Bastos Júnior diz que perfume é emoção. “Somente explorando territórios emocionais é possível fazer um bom perfume. Não existe perfume sem arte, onde o prazer é intangível”, insiste. No caso, o alerta também vale para quem o passa pelo corpo. Todo perfume que toca a sua pele, vira o “seu” perfume. Ele estabelece uma relação química como seu corpo e reage ao modo de vida que você leva. As pessoas que comem carne cheiram diferente das vegetarianas; as crianças, dos adultos; os fumantes, dos não-fumantes. Além dos hábitos, da alimentação e da idade, fatores hereditários, étnicos, saúde física e emocional e até o uso de medicamentos podem alterar os odores liberados pelo nosso corpo. Nem do clima nosso cheirinho escapa.

A CK One, da Calvin Klein, foi avaliado em diversas condições climáticas – em ambientes mais frios e secos ou mais úmidos e quentes. Nos primeiros, liberava uma fragrância de frescor. No calor, o cheiro ficava mais forte e suave. A temperatura, aliás, é um das principais condições do odor de uma pessoa. Cheiros, antes de serem sentidos, precisam ser exalados. Quando está mais frio, o produto que sai do contato entre você e seu perfume consome-se mais devagar, como se estivesse sendo liberado em câmera lenta. Se o termômetro sobe, o processo se acelera. É o caso das mulheres que usam perfumes como Angel – extremamente adocicados- no verão carioca. Bom senso não vem na bula, infelizmente. Diante de tantas variáveis, o que conta mesmo na hora de se perfumar é o prazer que a fragrância dá a quem a usa.

ps: como é chato escrever reportagens sérias.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *