50 tons de bege

Lá estava eu, com 45 anos na cara, numa casa enorme, ao lado de um ‘empresário de sucesso’. Quando percebi o tamanho da pica, já era tarde demais.
Ele chegou por onde chegam quase todos. Começou a ler os meus textos e ficou curioso. Quis conhecer a autora. Numa conversa completamente despretensiosa, eu disse que tinha vontade de conhecer um homem que soubesse me administrar, já que eu não consigo fazer isso.

Bastou.
O morador do Jardim Botânico me confundiu com sadomasoquistas, leitoras de 50 tons de cinza e levou o que eu disse ao pé da letra. Ele deu todas as pistas através de mensagens via WhatsApp. Eu não quis perceber nenhuma.

Nos encontramos na porta da casa dele. Ele vinha do aeroporto, estava chegando de Brasília. Eu vinha da minha casa, de banho tomado, cabelo escovado, calça jeans, camiseta e botas.

Assim que entramos, ele me levou para uma sala de TV enorme, onde os sofás eram todos verdes. Sem me dar um beijo na boca, começou e me despir com certa pressa e brutalidade.
Tudo certo. Eu já estava me sentindo uma puta. Alguns homens viram bicho quando estão diante do que vão comer. Ficam completamente cegos.

Querem meter. Nada além disso. São aqueles que quando chupam uma buceta, chupam por obrigação.

O homem que come_ em compensação_ não pula essa etapa, de forma alguma.
Muito pelo contrário. É ali que ele encontra o que ele quer. Primeiro, ele mata a sede. Depois, a fome.

Meu galã de sites de relacionamento, infelizmente, era um predador barato. E, para piorar as coisas, além de narrar a foda, era agressivo.
Em 10 minutos, no máximo, satisfez suas vontades. Tipo do sujeito que está acostumado a ter seus desejos saciados num estalar de dedos.
Atualmente, um cara bonito, rico e solteiro come quem ele quiser no Rio de Janeiro.

Pensei:
Estou sozinha, na casa de um desconhecido, um colecionador de obras de arte. Tenho um metro e sessenta e dois, peso 50 quilos e preciso pensar rápido para evitar uma catástrofe.

Bom, voltando à sala de TV.
Depois de me deixar nua, ele me sentou num sofá. Ficou em pé na minha frente, tirou o cinto, foi desabotoando a calça e, segurando o meu pescoço, com força, disse:
_ Chupa o meu pau!
_ Chupo! E chupo bem para ver se você goza logo! Mas, o dominador tirou o pau da minha boca quando estava quase lá.
_ Vire de costas, empine essa bunda e me diga que você é minha putinha.
_ Viro! Sou sua putinha [e nessas horas, a gente tem que dizer isso, gemendo]
_ Você veio até aqui para aprender como se obedece um homem, não veio?
_ É claro, meu mestre!

Como boa atriz, simulei orgasmos. Fiz o possível para que aquele filme de terror terminasse rápido. Percebi que se eu dissesse um não ou um “pare”, ele aumentaria a carga.
Além de segurar meu pescoço com força, provavelmente, me daria umas porradas.

Estava pronta para escrever 50 tons de bege.
Uma besta do sexo masculino leu esse texto e me disse [via inbox] que sentiu falta de mais detalhes sobre o que aconteceu durante o ato. Não entendeu que esta merda não é um conto erótico. Era um sexagenário louco para tocar uma punheta.

Há quem pense que eu sou uma mulher que curte esse tipo de aventura. Não! Eu sou café com leite. E foi difícil esquecer aquela noite.

Terminado o ato, o galã do Jardim Botânico, já satisfeito, vira para mim e diz:

_ Você é muito gostosa mas eu não curto mulheres que fumam!
_ Como?
_ Você é fumante e eu não gosto de mulheres que fumam.
_ Nossa! Que comentário indelicado.

Fiquei perplexa. Não soube o que responder. Que grandissíssimo filho da puta.

_ Você pode chamar um táxi?
_ Posso sim. Conheço um que sempre me dá 30% de desconto.

_ Não! Esqueça. Eu chamo um Uber.
_ Beleza! Quer uma água?
_ Não, obrigada. Eu quero que você me leve até a porta. Vou esperar o Uber na rua. Apesar do orgasmo ter sido simulado, estou morrendo de vontade de fumar um cigarro.

PS: O cara precisava me levar até a porta porque quando chegamos, ele entrou primeiro para prender dois cães de guarda. Quando entramos na casa, ele apertou um botão e abriu as portas do canil. Para fugir dali, eu teria que passar pelos dois rotwaillers que não me foram apresentados na chegada.

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