macunaíma

Por favor, perdoem-me por ter nascido em Ipanema e por ser filha de um casal de brancos. Perdoem-me por detestar samba, frevo e axé e por não ter orgulho de ser brasileira.

Quando minha prima resolveu se apaixonar pelo filho do porteiro do prédio da minha avó, um moreninho [negro] que brincava de salada mista com a gente, ela foi #hashtag reprimida pela minha avó.

Naquela época, o preconceito não era velado. Era escancarado. Minha avó deixou as coisas claras:

_ Rosana, você pode brincar com o Edson. Não tem problema, querida. Ele é um menino muito educado. Mas, não é do nosso nível, entende?

Rosana era questionadora. Mas, mesmo que não fosse, naquele época, nós não tínhamos maturidade para entender o que seria uma pessoa do nosso nível.

Só começamos a entender essa merda quando Edson foi sendo naturalmente afastado. Óbvio. Ele não estudava na nossa escola, logo, ele não era convidado para as festinhas. No início, Rosana ficava revoltada. Ela queria que Edson fosse com a gente. Mas, com o tempo, ela substituiu o moreninho por um menino que minha avó chamava de príncipe, porque ele tinha os olhos azuis.

Me admira a fascinação do tupiniquim pelos olhos claros [risos]. Meu pai tem os olhos azuis e eu passei a infância inteira ouvindo tupiniquins me dizendo: _ Nossa! Você tem os olhos lindos. Imagine se fossem azuis, como o do seu pai!

Edson sofreu. Mas, com o tempo, ele também encontrou uma nova namorada. Uma moreninha do mesmo nível dele, é claro. Eu e Edson sempre fomos amigos. Foi ele quem me ensinou a jogar damas. Também foi ele quem me fez ler Macunaíma. Nós dois tínhamos que ler essa desgraça. Era um dos deveres de casa da minha escola e da dele.  Então, fazíamos o seguinte: Cada um lia uma página, em voz alta.

Eu, naquela época, não namorava ninguém. Era uma felizarda.

Edson seguiu seu caminho. Parece que casou-se com a moreninha. Acho que trabalha como professor de matemática e mora na zona norte do Rio.

Rosana casou-se com um “executivo” a Ambev e já morou em três países. É nutricionista mas não exerce a profissão. É uma dona de casa “primeira classe”. Sabe organizar festas e jantares como ninguém. Tem dois filhos: Maria Eduarda e Lucas. Ambos estudam na escola americana. Também tem uma Golden Retriever que se chama Princesa.

 

One thought on “macunaíma”

  1. Adorei a crônica, muito realista. Esse é o Brasil de verdade. Antigamente os racistas não se escondiam, agora o politicamente correto fez o racismo ficar velado e muitas vezes sou obrigado a conviver e interagir com esse escárnio da sociedade. Prefiro a pessoa ser sincera e dizer que não gosta de negros, aí saio de perto.

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