macunaíma

Por favor, perdoem-me por ter nascido em Ipanema e por ser filha de um casal de brancos.

Eu nunca namorei um negro.
E você?

Quando minha prima resolveu se apaixonar pelo filho do porteiro do prédio da minha avó, um moreninho [negro] que brincava de salada mista com a gente, ela foi #hashtag reprimida pela minha avó. Naquela época, o preconceito não era velado. Era escancarado. Minha avó deixou as coisas claras:

_ Rosana, você pode brincar com o Edson. Não tem problema, querida. Ele é um menino muito educado. Mas, não é do nosso nível, entende?

Rosana era questionadora. Mas, mesmo que não fosse, naquele época, nós não tínhamos maturidade para entender o que seria uma pessoa do nosso nível. Só começamos a entender essa merda quando Edson foi sendo naturalmente afastado. Óbvio. Ele não estudava na nossa escola, logo, ele não era convidado para as festinhas. No início, Rosana ficava revoltada. Ela queria que Edson fosse para as festas com a gente. Mas, com o tempo, ela substituiu o moreninho por um menino que minha avó chamava de príncipe.

Edson sofreu. Mas, com o tempo, ele também encontrou uma nova namorada. Uma moreninha do mesmo nível dele, é claro. Eu e Edson sempre fomos amigos. Foi ele quem me ensinou a jogar damas. Também foi ele quem me fez ler Macunaíma. Nós dois tínhamos que ler essa desgraça. Era um dos deveres de casa da minha escola e da dele. Nenhum dos dois conseguia. Então, fazíamos o seguinte: Cada um lia uma página, em voz alta.

Eu, naquela época, não namorava ninguém. Era uma felizarda.

 

 

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