novo pobre

Smartphone, TV de 50 polegadas, vinhos diversos [porque o vinho é o novo uísque 12 anos]. Os novos pobres não se contentam mais com produtos populares. A euforia consumista anda fazendo as pessoas gastarem tudo o que recebem com o que desejam e não com o que precisam.

O comportamento do brasileiro é o do desvairado. A impressão é que todos estão levando a sério esse papo de viver o presente e não se apegar ao que passou ou ao que virá. O que importa é o momento presente. As prestações pertencem ao futuro, e o futuro sabe Deus a quem pertence. De certa forma, aproveitam cada dia como se fosse o último, o que é invejável.

A indústria tira proveito dessa histeria coletiva e faz com que as pessoas adquiram ou se sintam obrigadas a adquirir o que as tornaria mais felizes e saudáveis. E lá vem o novo pobre, com 16 frascos com cápsulas diversas. O medo de envelhecer é uma máquina de fazer dinheiro.

A medicina preventiva [que me dá calafrios] é um excelente exemplo. Atualmente, com a facilidade dos planos de saúde, fazer exames virou um hábito de consumo sofisticado. Bombardeados pelo glamour e pelos equipamentos sofisticados dos hospitais mais decentes, eles enchem a boca para dizer que vão fazer uma ressonância magnética ou coisa parecida. Há certo prazer em frequentar emergências de hospitais particulares [porque o plano cobre].

Para eles, ter um bebê nascido na Perinatal, por exemplo, com direito a foto no site da maternidade, é motivo de orgulho. O carro também é sinônimo de status. O novo pobre mora mal, paga aluguel, mas não anda em qualquer carro e não dispensa o insulfilme. O tamanho da TV, normalmente, é inversamente proporcional ao salário.

Economizam para comprar um tênis de marca para os filhos ou bolsas e óculos que façam a nova pobre acreditar que ela será mais respeitada se estiver “carregando” marcas sofisticadas. A aparência é o que importa e supera a qualidade da alimentação, dos estudos e de tudo que realmente faria diferença na vida das crianças que eles [sem culpa] trazem ao mundo.

Até empréstimo em banco fazem para que a festa de um ano do aniversário do filho seja um sucesso. Frequentam restaurantes da moda, mesmo que a comida seja exótica e não lhes apeteça, e usam novelas e revistas de celebridades como referência de comportamento.

É a síndrome do Facebook, ferramenta gratuita que acaba custando caro para muita gente, e torna-se palco de uma competição velada entre seus usuários. Site onde todos exalam felicidade e sucesso e acabam confundindo bastante uma porção de valores.

Os filhos dos novos pobres não são incentivados a valorizar o simples. Muito pelo contrário. O novo pobre se sente bem em dar ao filho aquilo que ele não teve. Tem certo fascínio por Nova York e Orlando, adora programas de milhas e quer que o filho fale inglês. Em viagens, fotos não podem faltar. Viajar só tem sentido se a experiência for compartilhada. Compra o que está na moda, sem pestanejar, e convive muito bem com prestações. Não questiona nada do que lhe é oferecido, principalmente se tiver desconto. A falta de autenticidade chega a torná-los autênticos.

Ouse dizer: Hoje, vamos sair sem câmeras e smartphones? Você será imediatamente hashtag reprovado, hashtag vaiado.

P.S. Toda vez que eu toco nesse assunto, alguém me pergunta se estou me referindo ao pobre de espírito. Não. A resposta é não. Até porque pobres de espírito todos somos. Egoístas e vaidosos por natureza.

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