rabanete é o cacete

Em função da divulgação de centenas de estudos sobre alimentos que matam ou fazem milagres, muitos descrevem os benefícios de cada item do prato enquanto comem. É deselegante. É chato.

O prazer de comer com prazer vem sendo substituído pelo comer corretamente, de forma consciente. Ninguém mais tem o direito de ser inconsequente. O prato, agora, vem com bula.

Dietistas canadenses, University of Alberta, entendem que comida e prazer devem estar inteiramente dissociados.

“Você deve optar por comer sempre o que você não gosta para que o momento se torne quase uma espécie de tortura necessária”, diz George Becker, um dos fundadores do que ele chama de método de redirecionamento de prazeres. De acordo com os dietistas, se você não gosta de arroz integral – por exemplo – você deve comer porções diárias, até que seu corpo se acostume e passe a aceitá-lo como nutriente. Evitar comer o que você gosta é uma forma de exercitar o autocontrole. Súbitos desejos, mesmo os de pão de queijo, são sinais do corpo, em busca de reforço ou conforto. Mas se a regra é exercitar o autocontrole de George Becker.

O medo de engordar e de envelhecer faz com que as pessoas se agarrem a hábitos insanos ou saudáveis, como se não envelhecer fosse realmente possível. Alucinados, começam a engolir resultados de qualquer estudo.
Basta uma pesquisa importada e a coisa começa a ferver.

“Li uma reportagem que diz que os rabanete são ricos em antioxidantes e outros compostos que ajudam na prevenção do câncer”, diz a moça sentada na mesa ao lado. “Vou te emprestar “The pH Miracle” do Dr Robert O. Young”, diz a amiga da moça.
Chato almoçar cercada por detentoras de dietas balanceadas personalizadas. Todas fantasiadas de bem-estar. Ninguém fala de prazer, de sabor, ninguém mete a cara num petit gâteau. E, quando metem, já descrevem como vão queimar as calorias ingeridas.

Chega a ser constrangedor perceber o quanto as pessoas estão cada dia mais condicionadas. A capacidade de manipulação da mídia é louvável. O público está cada vez mais informado.

Quanto mais informação, menos conexão instintiva com o corpo.
O hábito alimentar saudável – no formato ditadura – é sempre muito bem elaborado e empacotado pelos americanos. De Los Angeles, onde residem os que nós – os índios – associamos a modelos de sucesso, beleza e felicidade, são disparados os mísseis que atingem nossas celebrities e, consequentemente, o povo.

Os ricos cada dia mais magros, desfilando em feiras orgânicas. Já os pobres, cada dia mais gordos, continuam lotando as praças de alimentação de todos os shoppings da cidade.
Na memória genética deles, ainda está impressa a fome, a miséria e não há moda que substitua o prazer da fartura. É pedir muito querer que façam regimes ou dietas alimentares que os tornem mais saudáveis ou mais parecidos com a Grazi.
No Leblon não tem ninguém gordo. Em Santa Cruz não tem ninguém magro nem se sentindo culpado.

ps: George Becker não existe. Não acredite em tudo que você lê na internet.

Um comentário sobre “rabanete é o cacete”

  1. Muito boa colocação! Momentos gostosos e tão estimados de reencontrar amigos ou a família ao redor da mesa, saboreando uma deliciosa comidinha, rindo e jogando conversa, deram lugar a uma culpa absurda para alguns. Comer é quase um pecado.
    Claro que atentar para.uma alimentação saudável.é importante, mas não pode levar à neurose..

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