salamanca

Resolvemos viajar para a Europa, em busca das mochileiras que nunca fomos. Primeira parada: Madri, Espanha. O objetivo inicial era fazer um curso de espanhol, uma espécie de intensivo, antes de explorar os outros países. No aeroporto, carregando as tais mochilas conceituais, pegamos um ônibus para Salamanca, onde nos hospedaríamos num apartamento e frequentaríamos o tal curso. Chegamos em Salamanca e nos deparamos com um time de crianças com síndrome de down circulando pelas ruas. _ Bia! _ O que? _ Por que é que a gente tem que achar essas crianças bonitas? _ Cala a boca!

Era um grupo de crianças especiais conhecendo a cidade. Coisa comum no primeiro mundo. Rumamos para o apartamento, já sentindo muito a falta das nossas malas com rodinhas. Fomos avisadas, no Brasil, de que ‘estaríamos dividindo’, no gerúndio, o tal apartamento com mais duas estudantes da escola de línguas. Abrimos a porta, depois de subir cinco lances de escada e nos deparamos com um alemão, um holandês, muitos cinzeiros cheios e cerca de 45 latas de cerveja vazias espalhadas pelos poucos móveis que habitavam aquela sala. O alemão estava nos esperando de roupão. Disse que sabia que duas brasileiras estavam chegando e parecia animado. O holandês estava bêbado, de bochechas rosadas, e não falava coisa com coisa.

O cansaço era tamanho que despejamos nossas mochilas no quarto que nos foi reservado e resolvemos deixar ‘aquela situação’ para ser resolvida na manhã seguinte. Os meninos eram novos, no máximo 30 anos. Bia, no nosso humilde quartinho, começou a apresentar sintomas de pânico. Eu, apesar da vontade de correr para um hotel de no mínimo meia estrela, não demonstrei preocupação para não tranformar nossas próximas horas num bicho de sete cabeças. “Bia, mete logo um Frontal debaixo dessa língua e faça a respiração da meditação. Hoje, não temos como mudar a situação”. O que me incomodou mesmo foi a bagunça. Começamos a faxina. Histeria pura. Recolhemos as latas e limpamos os cinzeiros como duas camareiras possuídas.

Satisfeito, o alemão nos convidou para dar uma pequena volta pela cidade que acolhe a universidade mais antiga da Espanha. Fomos até uma praça repleta de bares. Lá nos sentamos e: ‘pónganos una[s] caña[s]’. Conversamos sobre o curso, questionamos o fato de estarmos num apartamento com meninos e não com meninas e ficamos merecidamente bêbadas. Nossas mocinhas elegantes não estavam suportando aquele ‘descolamento’ todo. Bia sofria mais. Eu, mais acostumada com ciladas e boicotes, já estava quase preparada para fazer uma lista de tarefas para manter aquele albergue limpo. Em comida, não se falava. Pelo visto, a dieta dos meninos era líquida.

Quando Bia anunciou que estava exausta e precisava dormir, eu e o alemão [não consigo lembrar o nome do cara] nos levantamos prontamente. Ele pagou a conta e, no caminho de volta, paramos numa loja para comprar mais mantimentos, ou seja, mais cerveja, mais cigarro. Duas águas e quatro latas de coca-cola para o dia seguinte.

Chegamos ao habitáculo munidos, para a alegria do holandês. Na cozinha, que parecia ter sido conservada pelo personagem principal de ‘Adeus, Lenin’, bebemos, fumamos, rimos de tudo, inclusive do fato do holandês não frequentar a escola e passar o dia circulando por bares da cidade, e fomos para a cama, tropeçando. Na madrugada, o holandês entrou no estágio bêbado que chora e veio pro pé da minha cama, em busca de um ouvido, um ombro ou qualquer coisa que o confortasse. Levantei, ainda tonta e de boca seca. Fiz um cafuné no rapaz. Mais cerveja. Mais cigarro. Quanto sofrimento para aprender a falar um idioma, pensei. Em que momento compramos essa idéia?, continuei pensando. Na certa estávamos tentando buscar uma finalidade para a viagem.

Até que o teto começou a ficar preto e eu apaguei.

Acordei com Bia me cutucando e dizendo [em voz baixa]: ‘Levanta da cama do menino’ ! Vamos sumir antes que eles acordem!’. Numa ressaca que me trazia de volta a imagem das crianças nas ruas de Salamanca, me levantei, tomei a coca-cola, peguei minha puta mochila e desci a escadaria.

_ Bia, e agora? _ Ni puta idea. _ Você, para variar, acordou com um homem. _ Não, eu não dei para ele! Fiz papel de mãe! _ Esse holandês está completamente perdido.
_ Foda-se! Vamos para Ibiza?

_ Uia!

 

 

 

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