teje presa

Entrei no avião. Ao meu lado, uma mãe e duas crianças. Um menino de quatro e uma menina de quase dois, ainda de fraldas. A mães não estava cansada, estava exausta, despenteada, com olheiras. Tentei ser agradável. Disse para ela que eu era tia de dois e que sabia [imaginava] o que ela estava passando. Ela me disse que estava vindo de Recife e que não aguentava mais tourear a dupla. Perguntei, com toda a cerimônia do mundo, se ela queria que eu segurasse a mais nova. Ela disse que não.
_ Imagine, não se preocupe. Falta pouco. Em 40 minutos, no máximo, estaremos em São Paulo.
Fiquei quieta. Afinal, hoje em dia, aproximar-se do bebê alheio é crime.
Acontece que a pequena Lara não parava quieta. A fralda dela estava pesada. Meu lado tia estava pronto para:
_ Pelo amor de Deus, deixa eu trocar a fralda dessa criança?
Bom, nos primeiros 15 minutos de voo, o menino adormeceu e a mãe também. Lara continuava acesa, conversando, rindo e achando o mundo lindo. Como toda criança da idade dela, Lara era puro LSD. Ela sorria para mim como se estivesse diante de um teletubbie. E dançava como um teletubbie.

Uma senhora, sentada na fileira de trás, diz: _ A menina está agitada. Dê um pouquinho de água com açúcar pra ela! _ Deus! Não repita isso! Açúcar, hoje em dia, é considerado veneno. Posso ser processada por isso. Não existe mais açúcar no mundo! Só adoçante. As crianças modernas não podem consumir nem sal, nem açúcar, nem adoçante, nem porra nenhuma.
O mundo delas não tem tempero. Eu, quando faço miojo para os meus sobrinhos, jogo o saquinho de veneno, enquanto a água está fervendo, escondido da minha cunhada e do meu irmão. Nem Coca-Coca eu posso tomar na frente deles. Meu irmão acha o rótulo atrativo demais. Em compensação, em festas infantis, eles comem nuggets. 

Num dado momento, Lara se deitou nas minhas pernas e colocou as dela pra cima. Ou seja, resolveu ver o mundo de ponta-cabeça. Os pés de Lara estavam no meu peito. A cabeça dela, entre os meus joelhos. Os braços abertos. Ela repousava.
Olhei pro lado e vi a sacola de fraldas. Não resisti. Estiquei o braço, peguei uma fralda e, tranquilamente, substituí a molhada por uma seca, consciente de que eu poderia ser presa. 


Quando a mãe acordou, de cara, pensei em não falar nada.
Mas, não tive coragem. Respirei fundo e disse:
_ Olha, enquanto você dormia, eu troquei a fralda dela. Desculpe-me. Por favor. Temos aqui, ao nosso redor, várias testemunhas. Foi apenas uma troca de fraldas. Nem sequer lenço umedecido ou hipoglós eu pensei em passar. Aliás, minto. Pensei. Teria passado se estivesse fácil. Por favor, me perdoe. Foi instintivo.
Ela me olhou, ainda exausta, e disse:
_ Qual é o seu nome?
_ Silvia.
_ Santa Silvia, relaxe, não sou maluca. Aliás, sou. Tive dois filhos. Quando aterrissarmos, vamos tomar um chope, por favor?
_ É permitido por lei?
_ O que?
_ Consumir álcool com um bebê no colo?

 

4 comentários sobre “teje presa”

  1. Sabe tudo sobre bebês! Fraldas, lenços umedecidos, hipoglós. Sal, açúcar, coca-cola. E o mais importante, um chope

  2. Eu ia passar a viagem no banheiro , crianças em avião é a visão do inferno pq não tem pra onde correr … então banheiro , cigarro e torcendo pro piloto acelerar ….
    criança do meu lado no avião eu surto , ou desço ou arrumo uma coca cola pra ela e derramo um vidro de Rivotril dentro do copo.
    Toma neném , que a Kuka vem pegar !!! Santo Rivotril !!!

  3. Sim… tempos bicudos em que se deve pensar antes de fazer o bem ou ajudar alguém…

    Parabéns pela iniciativa… e pelo sucesso dela.

    E, um brinde aos muitos chopes das pessoas sensatas.

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