tempo

Eu não sei exatamente a razão dessa loucura mas tenho a impressão de que estamos sempre em busca de distração, de coisas que nos deixem absolutamente exaustos e distantes do que somos. Ninguém mais parece ter concentração para nada além da execução das tarefas diárias. Ficar quieto parece ser sempre a última opção. Quase um crime. Só é bem aceito se for chamado de meditação, já que meditação tem um propósito.

Não sou – nunca fui – uma daquelas pessoas que se sente mal – como se não estivesse em dia com o aluguel – se o dia estiver bonito e eu não estiver ‘aproveitando’. Explico: Aproveitar um dia é, na concepção da maioria, circular, não parar. É montar uma série, como as que se montam em academias, cumprir todas as etapas e torcer para que aquela sensação de missão cumprida te jogue na cama, no término do dia. Mais ou menos como o gordo quando come um pudim inteiro e passa o dia seguinte na academia, deixando na aula de spinning suas calorias.

Aproveitar – do verbo sacrificar-se – significa participar de atividades que fazem com que as horas passem mais depressa. Estamos tão felizes que nos programamos para que o tempo voe e a gente não corra o risco de parar para se perceber ou perceber o outro. Poucos aprofundam conversas. Poucos questionam as regras e muitos seguem o enterro sem saber quem é o defunto.

Basta participar de um jantar. As pessoas se atropelam. Um não consegue deixar o outro falar. Todos só falam deles mesmos, o tempo inteiro.

Pouquíssimos percebem que os frenéticos estão frágeis. Quase em coma emocional. O colapso é geral. Os robôs estão dando pau.

 

 

2 comentários sobre “tempo”

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