descalcitude

Cada vez mais encarceradas e confinadas em escolas seguras, casas de festas seguras ou parques cercados de seguranças, as crianças do Rio, infelizmente, não sabem o que é brincar na rua. É um perigo aqui, é um perigo ali.

Talvez, as mais simples saibam. Tenho uma amiga que vive numa comunidade. As filhas dela são assustadoramente mais independentes do que as crianças abastadas que me cercam. As meninas sabem ir até a padaria comprar um pão, sabem lidar com o mundo em que vivem, sabem atravessar ruas e são mais atentas e seguras, apesar de não estarem matriculadas em aulas de inglês nem terem dinheiro para ir conhecer o Mickey.

Já as mães de unhas de porcelana, que tratam seus filhos como pequenos vasos de cerâmica, poupam os pequenos de tudo.

A extrema proteção é a projeção do medo. O medo paralisa. As crianças, atualmente, andam, mas são paraplégicas do ponto de vista emocional.

A mãe não sabe quem foi Monet mas fica muito contente quando descobre que seu filho prodígio já conhece a história da vida de pintor impressionista inteira, como se isso fosse fazer grande diferença na vida de alguém que_ ainda_ está descobrindo o mundo de forma instintiva.

Neuróticas reprovam meu irmão porque ele deixa meu sobrinho andar descalço pela praça. Ele está_ literalmente_ aprendendo a usar os pés como um instrumento ou ferramenta. Ele está movimentando os cinco dedos de cada pé, sentindo a força da terra na planta dos pés. Ele olha por onde pisa. Já pisou na lama, na grama, em caco de vidro e em merda de cachorro. Acontece. O contato da criança com o mundo real é inevitável. Portanto, descalcitude-se!

Dica: Jogue fora aquele maldito frasco miniatura de gel que você carrega na bolsa para esfregar nas mãos. É patético.

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