gincana

Que tipo de transtorno sofre a mãe que põe um filho no mundo por imposição da sociedade? Eu desconfio muito dessa gente que pratica um dos esportes mais radicais do mundo sem muito pensar. O tal desejo de ser mãe e procriar mais parece uma etapa de uma gincana ou de uma cartilha ultrapassada.

A única espécie que deveria entrar em extinção, a espécie humana, faz de tudo para garantir espaço na Terra. Acredita que pôr um filho no mundo é mesmo um feito. Acredita em contos de fadas, séries de TV e até em novelas. Terceiriza a educação dos filhos e tem orgulho disso. Porque a mulher moderna tem filhos, trabalha e ainda encontra tempo para fazer pilates e cozinhar cantando.

Nina e Bento frequentam excelentes escolas e não perdem uma aula de natação, balé, judô, capoeira, inglês, ioga, futebol, culinária for kids e arvorismo. Também frequentam psicólogos, fonoaudiólogos e nutricionistas, se estiverem acima do peso, gagos ou apresentando alterações não esperadas.

As mães se declaram estressadíssimas. Como se a sofrida gincana tivesse sido imposta e não criada por elas mesmas.

Coloca as crianças na cadeirinha da NASA, afivela o cinto, chega na escola, torce para encontrar uma boa vaga, tira as crianças da cadeirinha da NASA e entrega para a professora.

Vai pro salão de beleza, pinta as unhas de azul Giovanna Antonelli, depila o buço, cobre os fios brancos, faz uma progressiva, entra no carro, busca as crianças na escola, corre para casa, entrega as crianças para a babá e abre um vinho chileno, para relaxar.

Dá uma checada no jantar, um risoto de funghi que a cozinheira deixou mais ou menos organizado mas que é ela quem vai preparar. Toma um banho e se prepara para esperar o marido, já que uma vida sexual saudável, de acordo com o terapeuta do casal, também deve fazer parte da maratona. #socorro. “É muito importante que vocês não deixem que a rotina faça com que vocês esqueçam de namorar.” [ palavras do terapeuta ]

O marido chega, exausto. Os dois bebem duas garrafas de vinho e desistem de trepar.

Ouço conversas que me deixam assustada. Deus me livre ser vítima de um dia a dia que mais parece um treinamento do BOPE.

Me mantenho calada. Cada vez menos entrosada.

Penso:

1 – Gente, como serão essas não trepadas programadas?

2 – Essa insanidade toda é almejada e aplaudida pela sociedade. Preciso mentir no meu curriculum vitae. O mundo corporativo é Ohio. Preciso inventar ao menos um ex-marido e um filho chamado Lucas.

Chamo um taxi.

_ Senhora, qual o destino?

_ O primeiro poste, por gentileza.

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