nirvana

_ Oi, cachorrinho
_ Oi
_ Vejo que você perdeu uma patinha!
_ Perdi sim. Fui atropelado. A senhora pode parar de usar o diminutivo e de falar comigo como se eu fosse um bebê?
_ Posso. Desculpe-me. Não sabia que você já era um mocinho.
_ Caralho!
_ Calma, rapaz. Seja mais educado.
_ Desculpe-me. Você tem razão. É que eu sou um cão de rua e, de repente, me trouxeram para essa feira de adoção. Estou apavorado. Não tenho como fugir daqui. Todos me olham como se eu fosse um pobre infeliz e eu estou vendo a hora em que uma dessas pessoas vai me pegar e me levar pra dentro de um apartamento. Moça, eu acho que eu te conheço de algum lugar!
_ Pode ser. Me responda uma coisa. Você não quer ter um lar?
_ Não, de jeito nenhum. Eu não quero ter uma coleira, um passeador de cães, um adestrador, enfim, uma rotina. Eu sou boêmio. Eu curto música. Os humanos são cheios de regras, são carentes demais e insistem em nos tratar como bebês… Enfim, estou muito angustiado, não quero viver entre paredes.
Olhe para cara da senhora que está ali, do outro lado. Aquela de vestido azul, sandália rasteira, calcanhares de fora. Ela deve assistir Ana Maria Braga, Fátima Bernardes, todas as novelas, programas do GNT, meu Deus.. que desespero…
_ Calma! Respire fundo.
_ Posso te levar e te deixar livre. Portões abertos. Seu nome será Keith Richards. Só nós dois saberemos disso. Jamais falarei com você como se estivesse falando com um bebê. Eu prometo. Aliás, eu vou tocar Nirvana para você!
O que você acha?
_ Bom demais para ser verdade!
_ Keith, meu nome é Cássia.
_ Sim! Cássia Eller! Caralho!
_ Olha o palavreado. Ainda não estamos em casa!
_ Você vai me obrigar a tomar banho?
_ Vou. Você está fedendo pra cacete.
_ Aceito. Você merece todo meu respeito.

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