“Folsom Prison Blues”

Ana tem 32 anos. É filha de Alice [56 anos, paisagista] e Rogério [58 anos, engenheiro da Petrobrás, concursado].
O casamento dos pais de Ana é estável. Eles vivem no Jardim Botânico, onde Ana nasceu e foi criada. Ana tem tem uma irmã mais velha, chamada Lia.
Lia tem 35 anos e vive em São Paulo. É professora numa dessas escolas de bacana, tipo Britânica, casada com um cidadão que trabalha numa empresa multinacional, mãe de um bebê chamado Francisco.
Apesar de serem completamente diferentes, as irmãs se dão muito bem e Ana conta com Lia sempre que esté em apuros. Por motivos óbvios, Ana é madrinha de Chico. E, por motivos ainda mais óbvios, Ana estava doidona no dia do batizado careta. O marido de Lia, Paulo, tem 42 anos e, por incrível que pareça, adora Ana e se preocupa demais com a cunhada. “Ela precisa de um rumo, precisa de metas, precisa de foco!”, diz ele, sempre que Lia desliga o telefone, após uma das longas conversas com a mãe, Alice. Sim, Alice, quando preocupada com Ana, liga para Lia. Ana não respeita muito a mãe. Perecebe-se que Ana só respeita quem respeita a autenticidade dela.

Daí o amor pela irmã, que apesar de ser completamente diferente dela, consegue ‘percebe-la’ e respeita seus pensamentos, sua forma de perceber os fatos. As duas cresceram juntas. Lia sabe traduzir Ana.
O pai não é carinhoso. É um pagador de contas. Adora almoçar com os amigos do trabalho e passa longas tardes com eles, tomando todas. Na cabeça de Ana, a mãe se apresenta como figura frágil, uma paisagista com cara de paisagem que a considera uma rebelde sem causa, uma menina mimada, que teve tudo e não soube aproveitar nada.
Ana já fez psicanálise, terapia cognitiva comportamental, mapa astral. Já frequentou reuniões dos Narcóticos Anônimos quando namorou um cara que a convenceu de que ela era uma adicta.
Ela tem uma tatuagem nas costas [filtro dos sonhos] e um coelho de Alice no país das maravilhas na batata da perna esquerda.
Tem a pele branca, os cabelos cacheados e os olhos cor de mel. Tem um olhar marcante, é autêntica na forma de se vestir. Fez faculdade de Economia, na PUC. Por que? Nem ela sabe explicar. No último período, ela largou a faculdade e resolveu fazer um curso de direção de arte. Em seis meses, já estava trabalhando numa agência de publicidade. Bebia todos os dias. Cheirava só às sextas.

Nadava no Fluminense quando era criança. Depois, se interessou por dança. Nunca conseguiu fazer uma coisa só por muito tempo. Até hipismo Ana chegou a fazer quando criança. Uma característica típica da personagem. Sempre que alcançava o OURO ou chegava perto disso, as coisas perdiam a graça. O mesmo acontecia em relação aos meninos e meninas. Por isso, Ana sempre teve relacionamentos intensos e curtos. Segundo sua melhor amiga, Karina, a mais careta do planeta, ela sempre foi brisa e tempestade. Por fora, um furacão. Por dentro, uma boboca que queria muito encontrar alguém que a convencesse de que viver fazia ou faria algum sentido.

Numa noite, depois de uma festa, Ana chegou em casa e passou alguns minutos olhando para uma foto dela com Chico.
Pegou uma caneta e uma folha de papel.

Chico,
Seja medíocre.
Com amor,
Tia Ana.

Deixou a carta em cima da cama.
Abriu a janela e suicidou-se. Atirou-se do décimo primeiro andar.
O suicídio é mal visto pela sociedade e reprovado por todas as religiões. Ana sempre cagou e andou para o que era bem visto ou mal visto e detestava religiões.
Encontra-se no Umbral, ao lado de Robin Williams, bebendo whisky e ouvindo Johnny Cash.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *