berimbau

Em mil novecentos e qualquer coisa, eu namorava um cara chamado Fernando. Nossa intenção era passar o ano novo em Búzios e _ por algum motivo _ ele foi antes, com uns amigos, e eu fiquei no Rio. O namoro já estava beirando o fracasso e eu deixei para pegar a estrada _ sozinha _ no dia 31, às três horas da tarde. Tudo que eu tinha era o endereço e o telefone da casa. Naquela época não havia telefone celular e orelhões ainda funcionavam, mesmo que muito mal.

Liguei avisando que estava saindo do Rio.
A estrada estava vazia. Cheguei por volta das 18:30h. Fernando estava devidamente embriagado numa casa do gênero quintal com galinhas, cães vira-latas, fogão de duas bocas, três mulheres de biquíni e canga e os tais amigos, que eu já conhecia bem até demais.

Fernando se aproximou:
_ Oi, meu amor! Você chegou!
_ A estrada estava vazia. Me dá uma cerveja gelada, por favor.
_ Já estamos “aquecendo os tamborins”!
_ Esquentando, Fernando!, disse eu, já rindo.
Por mais que o relacionamento estivesse meio morno, Fernando me ganhava com essas bobagens. Bêbado ou não, ele era minha melhor companhia. Até porque, eu também bebia.
Bom, Fernando me apresentou as meninas.

Eram do Mato Grosso. Inventei que precisava comprar um cigarro para que ele pudesse me explicar como havia ido parar naquele casebre.
_ Amor, eu não sei. Quando eu vi, eles já tinham escolhido.
_ Quem são essas mulheres gordas do Mato Grosso?
_ Não fale assim. São amigas do Zé. Uma delas joga cartas de tarô, amor!
_ É mesmo? Que interessante. Agora, é sério!
_ Você nem deu uma olhada na casa antes? Tem quantos chuveiros?
_ Só um, elétrico.
_ Beleza. Vou tomar banho de panela.
_ Banho de panela?
_ É. Você sabe exatamente como é. Já tomamos banho de panela na Ilha Grande, você lembra?
_ Temos um quarto só pra nós?
_ Não. As camas são separadas por cangas, entendeu?
_ Entendi. E quem está dormindo com quem?
_ Todo mundo já dormiu com todo mundo. Só quem dorme sozinho sou eu, disse o sacana, rindo.
_ Eu vou fingir que não ouvi isso.
_ Amor, eu volto bêbado e acordo com o Berimbau lambendo a minha cara.
_ Berimbau é um dos vira-latas?
_ É.
_ Puta que me pariu! Eles dormem dentro da casa?
_ Sim.
_ Entendi. Você, um estagiário de um escritório de advocacia renomado, descobriu-se um hippie?
_ É só por uns dias amor, relaxa.
_ Relaxo. Vamos voltar pro casebre e “aquecer” os meus tamborins o mais rápido possível. Elas usam Leite de Rosas? [ele deu um tapa na minha bunda e disse: “deixa de ser sacana”]
_ O Zé usa Azzaro! [ rimos juntos ]
Voltamos para o casebre e o grupo estava comendo um espaguete com pomarola.

Duas observações:
1 – Pomarola era o que tínhamos naquela época
2 – Cães comiam restos de comida

Voltando.
Eu e Fernando não comemos nada porque nossa intenção era aquecer meu tamborim até o momento em que eu começasse a acariciar Berimbau e dizer para ele _ in baby talking: ‘voxê pode dormir com a xente, tá belimbau!’

Alcançado esse nível alcoólico, banho de panela, vestidinho branco* e praia. O casebre tinha uma vantagem: Dava para ir andando até uma das praias de Búzios. Eu acho que era Ferradura. Sei que não era Geribá. E, naquela época, eu ainda fingia que achava os fogos de artifício lindos.
_ Olha que lindo!
_ Lindo! Realmente emocionante.

Porque é quase uma obrigação. Você não é um ser humano normal se não gostar de fogos e do Circo de Soleil.

*nunca usei vestidinho branco
Na praia, todos continuaram bebendo.
Cerveja, vodca e Catuaba. Pra quem não sabe, a Catuaba é uma planta medicinal muito utilizada para fazer remédios afrodisíacos. Hoje em dia, deve ser até utilizada em receitas consideradas ousadas pelos retardados dos chefs de cozinha do GNT.
Naquela época, essa informação, que eu me lembre, nos era dada pelos nossos parceiros de boteco, os locais.
Não importa.
Voltamos para casa, eu e Fernando, antes dos outros, que pretendiam pular ondas e bater muitos retratos. [ bater retrato dói no ouvido ]
Fernando nunca soube tocar violão mas sempre achou que sabia.
Logo, ao chegarmos na favela, ele sacou o violão e disse, já gargalhando:
_ Pega uma cerveja pra gente! Vou tocar Tigresa para você!
Deus! Como me diverti ao lado daquele puto.
Resolvi tomar um banho no chuveiro elétrico, vesti um camisão de Bali do Fernando. Mesmo bêbada, resolvi arrumar a cama, bater os lençóis, tirar a areia e etc. Achei que eu merecia dormir numa cama com os lençóis esticados, como se eu estivesse num hotel de meia estrela.
Ui!
Voam duas cartas de tarô que estavam entre o lençol de baixo e o colchão.
Berimbau estava ao meu lado.
Olhei para ele e disse:
_ Berimbau, eu estou muito louca ou estou vendo isso? E você sabe o que é o pior Berimbau? Isso não prova absolutamente nada. E eu nunca fui de provar nada para ninguém. Vamos pro carro Berimbau! Você vai pro Rio comigo! Estou muito bêbada para dirigir sozinha.
Saí daquela masure* sem falar uma palavra. Entreguei as cartas de tarô para o inocente, entrei no carro e, com as pernas tremendo, peguei a estrada.
Parei num boteco que estava em festa e _ aos prantos _ consegui descolar uma Coca-Cola gelada para mim e água para Berimbau, que estava adorando escutar Rolling Stones.
Estrada vazia.
Cheguei ao Rio e tive uma conversa com Berimbau.
Expliquei que não tinha condições de leva-lo para a minha casa mas que o deixaria na casa de duas amigas que o tratariam como rei.
Quem?
Andrea Penna Gubert Grasel e Vanessa Gubert Walter
Berimbau foi muito bem recebido mas teve seu nome trocado.
Passou a se chamar Booby, o cachorro mais feio da face da terra.
Fernando?
Parece que se casou com uma Miss do interior de São Paulo e por lá vive, até hoje. Nega _ até hoje _ ter “se deitado” com a taróloga do Mato Grosso.
No entanto, só voltou pro Rio no dia três.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *