tarja preta

A consulta estava marcada para 15:30h. Cheguei no horário e encontrei o psiquiatra e um paciente na recepção. A secretária estava atrasada e o médico não tinha como abrir a porta do consultório. Eu e o outro paciente – provavelmente tão sedado quanto eu – não estávamos incomodados. Já o psiquiatra, parecia agitado. De repente – com a mesma naturalidade de quem vai tomar um café expresso enquanto espera a secretária chegar – ele decide arrombar a porta. E arromba.

O outro paciente não se importou. Eu fiquei completamente encantada. Ele não usou as mãos para ligar para um chaveiro nem para mandar mensagens frenéticas via WhatsApp para a secretária. Ele usou as mãos para arrombar a porta. Deus, há quanto tempo eu não encontro um homem desse naipe? Socorro ! Primeira consulta e eu me apaixono pelo cara antes mesmo de ouvir o velho e bom “o que eu posso fazer para te ajudar?”
Entrei na sala, me sentei e disse que eu sofria de transtorno de ansiedade generalizada.

– Você está medicada?
– Sim, estou comendo Frontal como se fosse confete. Estou mal medicada.

Ele se virou e pegou um livro. Abriu em uma página, não me mostrou o que estava lendo e me perguntou se eu já tinha tido crises de pânico. Naquele momento, pensei: Esse cara está meio afoito.

_ Sim, eu já tive crises de pânico.

Ele parecia apressado e aflito, eu acabei saindo de lá mais rápido que os representantes de laboratórios.

Aquilo não foi uma consulta. Foi um episódio inexplicável. Eles costumam fazer mais perguntas e se aprofundar mais em cada caso. Hoje, tudo me parece meio mecânico.

Pronto! Da súbita paixão, meu cérebro chamou a razão. Comecei a pirar:
A medicina atual está concebida para que a gente permaneça dependente da indústria farmacêutica pro resto da vida.

E, da razão – em segundos – voltei para a emoção:

Esse cara é bonito, charmoso para cacete, tem um corpo bonito e um sorriso lindo. Deve ser super assediado e com certeza prefere gastar seu tempo livre levando loiras felizes para comer em restaurantes japoneses. Eu jamais seria o tipo de mulher que ele pudesse considerar atraente. Minha autoestima – como de costume – sempre beirando algum precipício.

Ele me prescreveu fluoexetina. E disse que eu deveria diminuir a quantidade de confetes gra-da-ti-va-men-te. Não disse nada sobre a crise de pânico.

_ Não beba e procure fazer exercícios físicos. Te vejo em três semanas, combinado?

_ Combinado!

_ Qualquer coisa, me ligue. Eu não atendo. Faz parte do tratamento. Você precisa aprender a lidar com a não satisfação imediata dos seus desejos!

_ Oh! Really?

 

Depois de três semanas, na sala de espera.

Não consegui fazer exercícios físicos, não consegui administrar a redução gradativa dos confetes. Mas, comecei a tomar a fluoxetina.
A fluoxetina leva um tempo para começar a fazer efeito. Eu já estava começando, só começando a perceber que existia uma Fátima Bernardes dentro de mim e já estava quase dando bom dia para desconhecidos.
Cortei o cabelo e fiz um clareamento nos dentes.
Estava discretamente vestida.
Detesto decotes e roupas insinuantes quando a intenção é seduzir.

É como uma carta fechada e uma carta aberta numa mesa de jogo. Qual delas vai te despertar mais curiosidade?
Depende do jogo, depende da carta. Péssima comparação. Estou nervosa. Vamos em frente.

Chegou a minha vez.

_ Boa tarde, Silvia Pilz!

_ Oi! Boa tarde!

_ Eu li seus textos ou boa parte deles.

_ É mesmo? [ que merda, pensei ]

_ Gostei muito. Muito mesmo. E gostaria de te fazer uma pergunta.

_ Os contos são baseados em histórias vividas por você ou são fictícios?

_ Olha, eu fiz umas anotações sobre minhas oscilações de humor nas últimas três semanas e deixei no carro. Você se incomoda se eu for até lá buscar?

_ Não. Eu te espero, polemista. [ que merda II ]

_ Fui e não voltei.

_ Ele ligou e eu não atendi. Todo leitor precisa aprender a lidar com a não satisfação imediata dos seus desejos!

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