chuva de arroz

Se eu tivesse que me casar numa igreja católica, minha primeira providência seria encontrar um padre que realizasse a cerimônia na língua do pê ou em latim, para que eu não entendesse nada, incluindo as piadas ousadas que os padres fazem para descontrair os noivos e a platéia. A instituição é falida, mas muita gente ainda aposta nela. Estamos em 2017 e filmes como “os homens são de marte e é pra lá que eu vou”, uma comédia que retrata a maratona de uma solteirona em busca de um marido, ainda fazem sucesso.

Hollywood incentiva. O resto do mundo também. Todo mundo quer casar. E isso me assusta! Agora, as mulheres resolveram se casar com elas mesmas, o que é patético. Tudo para viver o ritual de princesa. Vestir-se de noiva e etc. Mas, essa bizarria merece outro texto. Aqui, estamos abordando os casamentos comuns.

A mulher anuncia que foi pedida em casamento com orgulho, como se tivesse sido premiada. O casamento, para a noiva, é uma espécie de vitória. Tanto é que no fim do evento, a retardada joga o buquê para as convidadas, que se debatem para agarrar ‘a sorte’. Reza a lenda [não suporto essa expressão], que quem pegar o buquê será a próxima a vestir-se de noiva e levar alguma vítima pro altar. Sim, o noivo é visto como um cara que foi fisgado pela noiva. É uma palhaçada.

Depois do sermão do padre, os noivos, infelizmente, também têm o direito de agarrar o infeliz do microfone para fazer recíprocas declarações de amor. Preparam versos e coisas do tipo. Neste momento, a plateia se emociona, chora e ri. Porque assim como nos filmes, é comum que um ou outro resolva fazer uma piada sobre algum detalhe do parceiro. É _ na minha opinião _ a parte mais constrangedora da cerimônia. É a hora em que meu corpo começa a clamar por exit.

Se o casamento for sessão da tarde, o discurso é brando. “Fulano saiu de uma festa, bêbado, e entrou no carro de um desconhecido, pensando que era o dele”. Se o casamento for espanhol, a noiva pode resolver contar_ tranquilamente_ e em detalhes quais foram as reações do marido quando ela resolveu dar-lhe uma dedada.
Os noivos suam diante dos holofotes, colocam suas respectivas alianças e saem da igreja, caminhando lentamente, ao som de alguma música popular que tenha a ver com a história do casal e deixe os convidados bem impressionados com a ‘criatividade’ deles!

pausa:
Para o brasileiro, toda música instrumental é música clássica.

As músicas ‘clássicas’ [Kenny G ou Richard Clayderman] fazem parte do durante. Depois, entra a trilha sonora de festa de casamento: que vai de Frank Sinatra até Mr. Catra.

Depois dos cumprimentos e dos 350 “Vocês estão lindos! A cerimônia foi emocionante! Parabéns!”, o casal segue para a festa, onde rolam as havaianas para os convidados e outros brindes personalizados, como canecas com as iniciais do casal, imãs de geladeira com foto do casal e outras bizarrias.

O jantar sofisticado [seja o servido na mesa ou o imperdoável self service] acompanha o desfile dos noivos, de mesa em mesa. Tudo isso, obviamente, com fotógrafo e cinegrafista registrando todos os momentos da festa à fantasia. Todos bebem, todos dançam, todos suam. Me sinto deslocada, como a Wednesday, da Família Addams. Normalmente, as pessoas bebem para entrar no clima. Eu bebo para sobreviver. E as pessoas batem palmas quando os mais velhos, acima dos 70, resolvem levantar e participar. Tem sempre um empolgado que não perde a oportunidade de dizer: _ Veja! Tia Leda. Tem mais energia que todos nós. Está se divertindo. Nem parece que acabou de fazer 18 cirurgias. Ela é danada!

No meio disso tudo, no telão, as fotos dos noivos. Essa é a hora de fumar um cigarro. Porque os convidados emitem sons diante das fotos. É constrangimento grau 10. É pros fortes.

Cerimônias me deixam constrangida e eu não tenho nada contra quem as valoriza. Já escapei de muitas. Quem me conhece sabe que eu não curto. Principalmente as padronizadas. Bom, toda cerimônia normalmente segue um padrão.
As roupas previstas, os sorrisos são previstos, as conversas previstas. Já assisti muitos casamentos do lado de fora da igreja, contando os minutos para ir para a festa, onde acaba o drama e as pessoas começam a soltar a franga. Já saí à francesa e já saí à mexicana, com a maquiagem borrada, esbarrando onde não deveria esbarrar, beijando quem não deveria beijar e falando o que não deveria falar.

Se a presença do convidado é considerada uma forma de prestigiar os recém-casados, eu_ definitivamente_ deixo a desejar.

Um comentário sobre “chuva de arroz”

  1. Eu imagine direitinho vc com escrevendo com cara de tédio e relembrando vários momentos.. O que eu espero é ser um desses que tu vai beijar quem não deveria.
    Parabéns pelo desabafo! rs

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *