onde os fracos não têm vez

“Pra começo de conversa, não sou garota de programa. Sou puta. E, como todo mundo sabe muito bem o que uma prostituta faz, só te cedo parte do meu tempo se você quiser conversar sobre outras coisas. Ninguém me paga para passear de pedalinho ou para fazer papel de mocinha em festas de família [risos].”

Foi assim que a minha conversa com Fabi [que não me revelou sua idade nem sobrenome] começou, quando a encontrei na porta de um supermercado em Botafogo, bairro onde ela vive há mais de nove anos, sozinha, num apartamento pequeno e exótico . Paredes com cores vibrantes. Portas amarelas. Um sofá de couro, belíssimo. Um tapete Patchwork, enorme. Uma estante com alguns objetos interessantes. Umas garrafas antigas, cumbucas sobrepostas que formavam um totem, nenhum porta-retrato.

Não a encontrei por acaso. Um amigo – cliente dela – me deu o número do celular de Fabi e disse que achava que o papo me renderia um bom texto. Efeito Bruna Surfistinha. As pessoas saem do cinema acreditando que a vida de toda puta, prostituta ou garota de programa pode render uma boa história. E rende, desde que seja bem contada.

Já que não estávamos ali para brincar de descrever a dignidade das putas nem para dissecar traumas de infância, nos sentamos no sofá da sala, abrimos um vinho tinto e começamos a bater papo. Por algum motivo, talvez pela segurança transmitida no primeiro parágrafo da conversa, percebi que Fabi era uma mulher diferente. Intrigante. Imponente. Era uma Zelda Fitzgerald.
Fiz perguntas e ela me trouxe respostas.

“Invejo essa gente que bate a mão no peito e diz que não se arrepende de nada que tenha feito. Já fiz tantos gols contra!” [ achei dispensável perguntar o que era um gol contra na cabeça dela ]

O que te faz sentir orgulho de você?
Estar viva. E vivo intensamente. Conheço muita gente que respira, anda, fala mas parece estar em coma induzido. Eu me atiro. As pessoas vivem com medo. É medo de ser assaltado, medo da solidão, medo de perder o emprego e o status, até de germes as pessoas têm medo. Olha! Não sei como essa gente consegue sobreviver.

_ O que é sexo?
Sexo é o antes do sexo. A expectativa, o beijo na boca, coração disparado e falta de ar. As pessoas confundem sexo com exercício. Quando, na verdade, é a plenitude do sexo. A fusão. A troca. Sexo é arte em movimento. “Os franceses sabem fazer isso”, diz ela, rindo e tirando um sarro do script dos filmes pornográficos americanos e brasileiros que seguem uma sequência, como se sexo fosse um circuito de academia.

_ O prazer da profissão
Não é dinheiro fácil. É dinheiro rápido. E ninguém mente aqui. Os homens mentem em casa. Aqui, eles metem. O prazer é ter o homem e seus desejos saciados. Fantasias não comedidas. Aqui, ninguém tem medo de ser julgado pelos desejos que sente. Aqui ninguém diz que vai se separar da esposa. Eles dizem que o casamento está morno. A monogamia é tragicômica, convenhamos.

_ Vícios
Bebo e fumo. Evito cocaína. Olha! Não chegue perto disso. É um perigo. Conselho de puta!

_ O que você abomina?
Leis. Se há lei, não há ordem. Se o homem precisa de leis para não se portar como um primata, a lei é um atestado de falência. A religião também. Todo mundo se prostitui. Vejo muita gente passando por cima de tudo, inclusive dos tais valores, por causa de dinheiro. Eu vendo meu corpo. Tem gente vendendo a alma e sendo aplaudido pela família e pela nação inteira.

_ O que você adora?
Adoro cinema e gosto de passear pelo centro da cidade. Eu me entorpeço de gente. Depois, bebo para esquecer que a minha alma mora dentro do meu corpo e que é ele quem paga o preço que eu cobro. É um processo complexo. A alma não se mantém intacta.

_ Um filme?
Onde os Fracos Não Têm Vez. Irmãos Cohen.

_ Fonte de inspiração
A prostituição tem seu lado libertador, acredite. A puta é, no machismo, o feminismo. A puta é quem muda os caminhos do mundo. Maria Madalena, irmãs Bolena! Igreja anglicana! [ gargalhadas que me lembraram Elis Regina. Ela já estava na terceira taça de vinho. Eu estava na primeira. ]

_ Desejo
De ser simples como as mulheres que se satisfazem através do consumo. Uma bolsa Cartier, um perfume Chanel. Os adereços. Os 150 sapatos. O cachorro, o carro novo. As ‘esposas’ dos meus clientes precisam de mais vida! Precisam experimentar mais. Sinto nelas um vazio tão vazio quanto o meu, só que inverso.

Fabi foi criada em Copacabana e estudou em escolas particulares. Aos quinze foi com a mãe e a irmã mais nova para a Disney. Seu pai era funcionário público, fiscal da receita federal. Era viciado em jogo. Segundo Fabi, ele ganhou e perdeu muito dinheiro. “Passei minha adolescência dentro de um cassino. Era divertido antes de se tornar doloroso.”

Eu só comecei a enxergar o fundo do poço quando começou a faltar dinheiro e meu pai me usou como moeda de troca, para que não fosse preciso vender o apartamento em que vivíamos”, conta.
“O mesmo pai que um dia me fez acreditar que eu merecia encontrar um príncipe me vendeu barato e me deixou uma carga pesada nas costas. Na época, cheguei a acreditar que se eu não chupasse aquele velho infeliz, o cara pra quem meu pai devia, seria eu a responsável pelo fracasso da família e etc.”, diz ela com cara de quem já está começando a achar o papo enfadonho.

“Minha mãe sempre foi permissiva e fazia de conta que não via”, explica, com ar de deboche, dizendo que talvez tenha sido essa a saída que a mãe encontrara para não se atirar do sexto andar. “Meu pai se prostituía, era do tipo de fiscal que recebia propina. Eu acabei me prostituindo. Minha carteira de clientes, no início, eram os amigos de papai”, diz, rindo das ironias da vida, meio amarga, meio triste.

Fabi diz que já teve vontade de estudar pedagogia e trabalhar com crianças. “Sempre que passo perto de escolas, um pedacinho morto dentro de mim reage. Mas me falta coragem para recomeçar.

A irmã mais nova de Fabi é casada, tem dois filhos, mora na zona norte do Rio e toca uma loja de materiais de construção com seu marido. Meu cunhado pensa que eu vendo Jequití, diz ela e ri.

Frase:

— Perdoar, sim; esquecer, nunca.
John Kennedy

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