gandhi

Claudio tem 51 anos, um filho do primeiro casamento e uma filha do segundo. Também tem um cachorro, chamado Gandhi, que passa dois finais de semana do mês em sua casa alugada, na Gávea. É o que hoje em dia se chama de guarda compartilhada. Como a vida é cheia de surpresas incrivelmente previsíveis, Claudio se apaixonou por uma trainee de 27 anos, da empresa onde trabalha e decidiu casar-se pela terceira vez.

Desta vez, não na Candelária, como da primeira, nem na casa de campo do sogro, como na segunda. Priscila – a noiva – optou por um casamento havaiano, na praia da Ferradura, em Búzios, onde o casal passou bons momentos juntos quando ainda eram apenas namorados. Claudio está apaixonado, feliz e abobado.
Claudio não fez vasectomia e – claro – Priscila já começa a fazer planos. Ela não abre mão do roteiro da mulher ‘plena’ e quer ter ao menos um filho para chamar de seu. Em tempos de tanta conversa sobre sustentabilidade e prática do desapego, Priscila deveria se contentar em satisfazer seus instintos maternais com os dois filhos herdados dos dois casamentos de Claudio. Mas Priscila quer ter um filho só dela. Ela sempre sonhou ser mãe e se recusa a optar pelo ‘reaproveitamento’ ou terceirização de filhos.

Priscila foi criada por um par de retardados que insiste em ver seu umbigo crescer.
Claudio já foi fotografado em maternidades duas vezes, tem dois álbuns de casamento, duas pensões para pagar e dois filhos para levar e buscar em tudo quanto é lugar. No entanto, para fortalecer seus instintos mais primitivos, Claudio faz um terceiro filho.

Priscila é uma gestante feliz e quer passar por todas as etapas de promoção e divulgação desse momento mágico, especialmente nas redes sociais, onde já postou seu primeiro ultrassom #amorincondicional. Os filhos do primeiro e do segundo casamento de Claudio sofrem uma branda lavagem cerebral para aceitar e vibrar com a chegada do irmãozinho. O mais velho tem 13 anos. A mais nova, sete. Priscila [muito simpática] exige que ambos participem das fotos de seu álbum de gestante. Contrariadas, em respeito ao pai, as crianças participam. Claudio é parabenizado pelos amigos, no trabalho, mesmo que esteja financeiramente quebrado. O chefe vai ser padrinho do casamento e Priscila_ naturalmente_ vai se afastar do trabalho.

Ele não se sente nem mais nem menos responsável. Claudio está feliz. Ele segue o manual. Espantosamente, não pira e não passa mal. Os quatro embarcam para Miami na semana que vem, para fazer o enxoval do bebê que está por vir e para se divertir.

ps: Gandhi, o cão, que tem noção do ridículo, ficará hospedado na casa da segunda mulher de Claudio e, segundo o veterinário, não está se alimentando bem porque está tendo uma crise de sócio-constrangimento.

9 comentários sobre “gandhi”

  1. Tão real, quanto trágico, porém, mágico! Alice no país das maravilhas. Também fiquei com dó do Gandhi, dá pra perceber que em breve terá depressão. Oh céus oh vida oh azar.

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