romero brito

Os felizes são donos de um nada que é tudo pra eles.
Como retardados funcionais, eles seguem uma cartilha e parecem estar sempre invejavelmente satisfeitos com a vida. Eles trepam e fazem bebês com nomes da moda. Não usam drogas ilícitas, adoram apreciar bons vinhos, fazer viagens internacionais e reformas na casa.

Quando recebem amigos, por motivos que eu não entendo, eles obrigam os amigos a fazer um tour pela casa.

Sempre achei isso esquisito. Chegar na casa de alguém e ser obrigada a visitar todos os cômodos. Ouvir a dona da casa explicando as explicações do arquiteto. Feng shui, e porta-retratos pra todo lado. E o visitante é obrigado a mostrar-se impressionado. Adquirem obras de arte simplesmente porque é importante ter uma obra de arte em casa. O último arquiteto deixou claro que Romero Brito não dá e _ sem entender_ eles entenderam.

Enfim, os felizes doam roupas e brinquedos velhos para orfanatos e organizações não governamentais. São engajados. “Sabe, todo ano, com a Bia e com o Gael, eu escolho os brinquedos que eles não usam mais e explico: Vamos doar esses brinquedos para crianças que não têm condições de ter a quantidade de brinquedos [ 756 ] que vocês têm.
Bia e Gael têm 6 e 4 anos e não entendem picas. Não importa.
O importante é que a mãe acredita que eles estejam entendendo.

Violência_na cabeça dos felizes_é ter o carro roubado ou alguma joia levada pela babá ou pela secretária, como costumam chamar a empregada doméstica.
Normalmente, ficam muito surpresos e indignados quando a criadagem não se mostra agradecida pela oportunidade de trabalho e pelos bons tratos oferecidos. “Eu ajudei essa desgraçada a montar a casa dela! Estou decepcionada, #magoada.”

Os felizes não absorvem o que é desigualdade social.
Rejeitam entender o que passa pela cabeça de quem está do outro lado do cenário, muitas vezes, ainda trabalhando como escravo e sonhando com a desgraça da TV de 1200 polegadas e com um smartphone do tamanho de um caderno.
Ninguém consegue se colocar no lugar do outro, por um dia.
Os felizes acreditam que fazem parte de uma cidade cenográfica. Para eles, o Rio de Janeiro sempre foi e continuará sendo lindo.
Só enxergam o que querem ver.
O Programa Criança Esperança e os 250 programas de culinária do GNT.
Os felizes são tristes.

 

 

 

 

2 comentários sobre “romero brito”

  1. Sou vaidoso, Silvia. Sou tanto como Lúcifer foi ao se comparar a Deus.

    Minhas conquistas, quero que todos saibam, pois apensar de ter o que preciso e seja o suficiente (Renato Russo mesmo o diz), ainda me convenço de que não é o bastante, porque meu vizinho, aparentemente tem mais do que eu, e isso é intolerável.

    Vejo o que minhas janelas mostram, se não gostar, fecho a cortina.

    Me ensine a praticar a verdade e a enxergar as coisas como elas são, e então seremos mais tristes do que pensamos que não somos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *