romero brito

Os felizes são donos de um nada que é tudo pra eles.
Os cumpridores de metas seguem uma cartilha e parecem estar sempre invejavelmente satisfeitos com a vida. Eles trepam e fazem bebês com nomes da moda. Adoram apreciar bons vinhos, fazer viagens internacionais e _ reformas na casa _ sempre. São, em teoria, contra o uso de drogas. Quando recebem amigos, por motivos que eu não entendo, eles obrigam os convidados a fazer um tour pela casa.

[ burlando uma regra de etiqueta básica ].

Sempre achei isso esquisito. Chegar na casa de alguém e ser obrigada a visitar todos os cômodos. Ouvir a dona da casa explicando as explicações do arquiteto. Feng shui, e porta-retratos pra todo lado. E o visitante é obrigado a mostrar-se impressionado. Adquirem obras de arte simplesmente porque é importante ter uma obra de arte em casa. O último arquiteto deixou claro que Vik Muniz ‘não dá mais’ e _ sem pestanejar_ eles obedecem. Não questiono Vik Muniz. Questiono quem cai no conto.

Enfim, os felizes são meio inconsistentes. Até para escolher um cardápio, eles precisam de ajuda. Porque ninguém escolhe o que gosta. A maioria escolhe o que vai impressionar os convidados.

Violência_na cabeça dos felizes_é ter o carro roubado ou alguma joia levada pela babá ou pela secretária, como costumam chamar a empregada doméstica.
Normalmente, ficam muito surpresos e indignados quando a criadagem não se mostra agradecida pela oportunidade de trabalho e pelos bons tratos oferecidos. Uma joia roubada ou coisa parecida.

É difícil absorver o que é desigualdade social.
Rejeitam entender o que passa pela cabeça de quem está do outro lado do cenário, muitas vezes, ainda trabalhando como escravo e sonhando com a desgraça da TV de 600 polegadas ou com um smartphone do tamanho de um caderno.
Ninguém consegue se colocar no lugar do outro, por um dia.
Os felizes acreditam que fazem parte de uma cidade cenográfica. Para eles, o Rio de Janeiro sempre foi e continuará sendo lindo.
Só enxergam o que querem ver.
Os felizes são tristes.

 

 

 

 

2 comentários em “romero brito”

  1. Sou vaidoso, Silvia. Sou tanto como Lúcifer foi ao se comparar a Deus.

    Minhas conquistas, quero que todos saibam, pois apensar de ter o que preciso e seja o suficiente (Renato Russo mesmo o diz), ainda me convenço de que não é o bastante, porque meu vizinho, aparentemente tem mais do que eu, e isso é intolerável.

    Vejo o que minhas janelas mostram, se não gostar, fecho a cortina.

    Me ensine a praticar a verdade e a enxergar as coisas como elas são, e então seremos mais tristes do que pensamos que não somos.

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