retiro-me

As três descrentes e carentes. Eu, Claudia e Renata. Um retiro de ioga pela frente. A viagem de carro foi curta. Porém longa o suficiente para sacarmos que o retiro – 3 dias – seria surpreendente e mais que o suficiente.

Para começar, fomos as primeiras a chegar na pousada. Eu e Claudia optamos por quartos individuais. Renata estava num outro canto e dividiria o quarto com mais seis pessoas desconhecidas.
Conversa entre eu e Claudia, nos nossos chalés construidos para gnomos.
_ Claudia, não vou ter coragem de deixar a Renata sozinha, lá. Esse pessoal que vai chegar deve ser aquele tipo que acha Baygon um crime ambiental. Gente que passa 3 horas contemplando uma joaninha e acha que porque pratica ioga precisa se fantasiar de hippie. Vai por mim!
Claudia teve uma crise de riso e disse:
_ Silvia, ela optou por ficar lá. Você pode sugerir. Se ela se sentir à vontade, ela sobe e dorme no seu quarto. Vamos ao restaurante. São 11 horas. O povo só chega no fim do dia. Relaxe!
_ Claudia, eu faço [ aliás, não faço, pratico ] ioga justamente porque não sei relaxar.
Bom, peguei meu Baygon e coloquei num saco plástico, junto com meu Marlboro vermelho e isqueiro. Passamos pelo albergue da Renata, que ficava no caminho do restaurante. Antes mesmo de receber o convite, Renata já saiu, de mochila, dizendo: _ Pilz, posso dormir no seu quarto? _ Estávamos falando sobre isso, Renata. Você dorme comigo!

Ela: _ Esse quarto tem cheiro de mofo e as duas meninas que estão lá falam devagar e têm pelos debaixo do braço [ risos ].

_ Puta que me pariu! Relaxe!
Sentamos no restaurante.
Perguntamos para a moça que tipo de cerveja eles ofereciam.
Resposta:
_ Vocês estão no retiro. Não podem beber nada alcoólico.
Claudia deu uma franzida de testa, Renata respirou fundo e eu me lembrei de uma coisa maravilhosa. Os dois chalés individuais, o meu e o da Claudia, não pertenciam ao templo ou qualquer coisa assim. Eram administrados por outra pessoa.
Quando chegamos, assim que entrei no meu quarto, abri o frigobar para colocar minhas duas latas de coca-cola para gelar. Levei coca-cola, já imaginando que eles não fossem oferecer refrigerantes.
Me deparei com 9 latas de cerveja. Se tem no meu, deve ter no frigobar da Claudia. Bingo. Temos cerveja para a tarde inteira. E lá ficamos as três, isoladas, esperando o grupo que só chegou por voltas das 18.
Conforme o tempo foi passando, as três foram perdendo a censura e abrindo o jogo. Ou seja, ocidentalizamos a porra toda. Cerveja, cigarro, lágrimas mexicanas. Quando os mestres e os discípulos chegaram, eu me escondi no meu quarto. Lampejo de lucidez.
Não existe a menor chance de eu praticar ioga [ me irritam os que dizem iôga ] depois de beber cerveja. Vou tomar um banho e ficar por aqui mesmo. Claudia fez o mesmo. Renata estava ótima. Chorou tudo que tinha para chorar contando detalhes íntimos da vida dela para duas pessoas, eu e Claudia, que ela havia acabado de conhecer. Foi para a cerimônia de abertura leve e disse que voltava para que fossemos jantar juntas, as três.
No paralelo – que fique claro – um dos participantes do evento, dias antes, me chamou num canto e disse:

_ Silvia, minha esposa vai pro retiro comigo. Ela é muito “ligada”. Estou te dizendo isso para que você não me entenda mal se eu não olhar na sua cara. Ela tem ciúmes de você.

_ Como? Por que?

Fiquei perplexa. Não entendi porra nenhuma. Estava com aquele comentário entalado na garganta. Quando contei pra Claudia, ela chorava de rir.

_ Claudia, foi patético. Não teve graça.
_ Silvia, achei um motivo para me divertir. Vou rolar de rir com as reações dele. Eu te conheço. Sua transparência é insustentável. Você não tem idéia do quanto…
_ Claudia, eu estou muito puta. Eu deveria ter mandado o cara à merda, na hora. Não mandei. Estava louca para te contar, desde o momento em que entramos no carro. Vamos tentar nos concentrar. Pelo que eu entendi, são duas salas, dois instrutores. Ou seja, dá para eu passar 48 horas sem cruzar com ele. Por favor, cale a boca e vamos evitar o assunto. Tudo que eu não preciso, neste puto momento, é perder a classe que eu nunca tive.
_ Pilz, você esqueceu que faremos as refeições juntos?
_ É verdade. Vai rolar aquela coisa de elogiar a comida porque é tudo orgânico e feito com muito amor pela dona Chica que está aqui há anos, que teve 17 filhos e todo mundo acha isso super bonito.
Eu não aguento o peso do pacote. O pacote é o comportamento que se espera de quem pratica a ioga. Anel no dedo do pé, roupas ‘puxadas’ no estilo hippie, cabelos longos, papo astrologia, papo cristais, incenso, todo mundo falando baixinho como se todo mundo fosse equi-li-bra-di-nho…
Não sei exatamente quem eles pensam que estão enganando.
Surge Renata, com um sorriso no rosto, pronta pata tomar mais 10 cervejas e diz:
“E aí, meninas… Prontas para o jantar? Já fiquei sabendo que mais tarde tem uma cerimônia qualquer! Levantem-se. Vamos lá! Claudia, faça cara de séria e peça pro moço que nos deu as chaves repor o frigobar dos dois quartos.”
Detalhe: Os quartos não tinham números. Eram nomes. Eu jamais vou me lembrar qual era o nome do meu quarto. Krishna, Shiva, Sai Baba ou coisa parecida.
Bom, fomos andando até o refeitório da humildade. É mais ou menos assim. Não basta a comida ser simples. O prato tem que ser azul Duralex, a toalha tem que ser de plástico, os talheres precisam parecer gastos, como os de restaurantes que servem comida por quilo. Enfim, todo o cenário é uma “demonstração” de desapego.
Quando começamos a nos servir, demos de cara com o equivocado e sua esposa “ligada”. Rolou aquela tradicional apresentação.
De repente, num tom acima do normal, forçando uma naturalidade, ele olha para mim e grita:
E aí, Pilz… você está gostando?
Respondi: Não [ com um sorriso no rosto ]
Claudia caiu na gargalhada. Eu continuei sorrindo.
Depois disso, algum fanático resolveu dizer para a Claudia que ela tinha que participar da cerimônia do fogo, porque era um momento mágico, inesquecível, transformador…
Com uma classe incrível, olhar super sereno, Duralex azul na mão, ela vira e diz:
_ Eu não ‘tenho que’ nada. Aliás, ninguém ‘tem que’ nada. Pronto! A frase virou o nosso mantra.
A comida era comum. Os alegres não se aguentam e precisam abrir a boca. “Gente, ninguém pode deixar de provar a torta de manga. Nunca comi nada igual”. Tudo precisa ser excelente, extraordinário, fascinante.
Entendam. Nada contra as pessoas elogiarem a comida em qualquer parte do mundo. É o tom que faz com que o elogio se transforme num sorriso montado, aqueles que todos fazem, juntos, especialmente para fotografia.
Outro detalhe muito interessante. Os participantes falavam da natureza como se nós fossemos todos moradores de uma cidade de concreto. Como se ninguém nunca tivesse visto uma borboleta.
Nossa Senhora do Constrangimento sempre presente.
E a tal da paz. Onde é que eu encontro a minha? Antes que alguém entrasse com o discurso “a paz está dentro de você”, resolvi conversar com um dos mestres. Perguntei se eu estava muito distante da tal paz que preenche o lugar quase sempre ocupado por uma eterna sensação de angústia. Ele me disse o seguinte:
_ Silvia, o mundo não andaria para frente se não existissem os angustiados, os inconformados. Estamos todos em busca de respostas. Você traz perguntas. É seu dever.
Aliviada, chamei as meninas e disse: Vamos para o nosso camarote? Cerveja gelada e papo forte.
Amanhã, às 06:30, não ‘temos que’ nada!

ps: Editei o texto. Pulei a parte do ritual dos Hare Krishna. Dançamos ao redor de um homem cercado de legumes e frutas e ainda fomos obrigadas a jogar arroz na cabeça do cara.

2 comentários sobre “retiro-me”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *