misericórdia

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Acordei em um quarto de hotel, depois de uma noite intensa. Na boca, aquele gosto de socorro misturado com ressaca. Sem saber ao certo se a noite tinha sido boa ou ruim, fiquei quieta e imóvel, por alguns segundos. Não tive coragem de olhar pro lado.

Nessas horas, sempre penso no meu pai e em todos os cuidados que ele teve comigo! Penso nas vezes em que ele me levou e me buscou em festinhas para que eu não pegasse carona com os caras que eu já ‘namorava’ e ele nem imaginava. Bate a culpa forte que sempre foi mais fraca que os meus impulsos calculados.

Misericórdia. Meus olhos devem estar mais vermelhos que batom de puta, meus cabelos devem estar completamente despenteados, a cortina está aberta, estou de calcinha e não vejo nenhuma camisinha. Alguém está respirando muito fundo ao meu lado. Alguém dorme um sono tranquilo enquanto eu sinto vontade de sair desse quarto rastejando ou de quatro. Ainda sem ter coragem de me virar na cama para olhar quem estava ao meu lado, vejo meus óculos espatifados no chão. Desesperada, exclamo: “Puta que me pariu! Eu jurei que isso não iria mais acontecer!”

E quem dormia acorda e diz: “Calma, dorme mais um pouquinho”.

Olhei pro lado e me deparei com um desconhecido interessante. Sorria e se divertia ao me ver desancorada, andando de um lado pro outro, tentando encontrar minha bolsa. Toda mulher precisa agarrar sua bolsa quando se sente vulnerável. Precisa checar todos os itens, verificar se não perdeu nada, incluindo a pinça. Precisa pegar o puto telefone, ver as chamadas não atendidas. Agarrar a necessaire, ir até o banheiro e _ ao menos_ escovar os dentes.

A naturalidade dele foi me deixando mais à vontade. Mesmo sem óculos, reconheci! Meu chefe! Misericórdia!
Ele não parecia se importar com meu comportamento caótico. Lentamente, depois de lavar o rosto, escovar os dentes e tomar água, comecei a me lembrar dos beijos na calçada e da caminhada até o hotel.

Não sabia nem em que andar eu estava. Perguntei, angustiada:

_ A gente é…. é….
_ Não. A gente quase.

_ E agora? _ Don’t panic! You can call your coach, later.

[ risos ]

_ Não tem graça. _ Tem sim. Você me falou barbaridades. Me disse que odeia trabalho em equipe e que me acha prolixo. Foi divertido. Agora, volta pra cama, volta. Obedeça seu chefe.

[ risos ]

_ Abuso de poder! Me encanta!

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