renúncia

janio

Não querer também é poder.

De repente, abro os olhos e acordo numa versão cultural. Com uma tremenda sede de beber de uma fonte desconhecida. É numa dessas que eu compro um livro que eu sei que eu não vou ler e vou parar no Jardim Botânico, na esperança de que um varal de orquídeas mude minha vida. Minha alma é um manicômio. Opiniões desencontradas, atitudes disparatadas e crenças inversas. A nítida sensação de que nunca vou aprender a existir. Eu ando, tropeço, me dou rasteiras, me levanto, e ainda durmo, mesmo que no ponto. Desatinada, numa dessas manhãs insanas, me matriculei num curso, na PUC, pra aprender a escrever roteiros. No primeiro dia de aula, a professora passou 80% do tempo explicando quem ela teria sido se não fosse o que é. No segundo dia de aula, eu não fui. Quando o discurso começa com “naquele tempo”, eu entro no que eu chamaria de pânico por identificação. É como se meu fracasso estivesse estampado na minha frente. E, por não gostar do que vejo, peço a conta. No pátio da PUC, com vergonha de ter desistido de um curso que nem comecei, coisa que faço com maestria singular, circulei entre os pilotis e estudantes tendo a certeza de que eu não estava certa de nada. Era meu dever voltar pra sala e dar à professora a chance de me surpreender. Era meu dever tentar. Era meu direito partir. Eu entro com a mesma incerteza que saio. Abro e fecho portas com pinta de quem sabe exatamente o que está fazendo. Fujo e finjo. Engano a torcida. Faço parecer que as renúncias não me custam caro. Já não fiz curso de pintura, de fotografia, de história da arte e até de astrologia. Um pouco de tudo e tudo de nada.

 

8 comentários sobre “renúncia”

  1. Reconheço o sentir aquém e além das palavras. Identifico-me. E é nesse estado que entendo que tal qual a ostra transmuta a dor em pérola, assim são paridos os textos luminosos e obscuros a partir do que nos dói.
    Parabéns, Sílvia!
    Marcos Gatti
    (https://www.linkedin.com/in/marcos-gatti/)
    p.s.: Como nos ensina Suzuki, “renúncia não é desistir das coisas do mundo; é simplesmente aceitar o fato de que um dia elas se vão…” 🙂

  2. Como a Natureza de um suspiro um furacão.
    De uma piscadela;
    Abre-se fenda em pele e por jeito tectônico.
    De volta a junção.
    Tudo por Ela.

    Em palavra se dói e se cura.
    Talvez remédio, talvez veneno.
    Viver em tempos em que tudo jamais dura.
    E em carinho encontrar somente mero feno.

    Sempre em movimento, sempre em desconforto, sempre em desalento,
    Pois guerreiro sem guerra
    É lobo sem garra,
    É cão em amarra,
    É vida em desgraça.

    https://www.youtube.com/watch?v=7gphiFVVtUI

  3. É extremamente difícil traduzir em palavras os labirintos que a alma percorre. Você consegue. Parabéns, Sílvia.

  4. Me identifico em algumas partes. Eu acho que tb tem uma coisa de nao querer entrar em contato com algo dentro de voce, ai dá aquele “ruim” e é melhor cair fora, com outro “ruim”… Agora, primeira aula ter que ficar ouvindo a pessoa narrar a propria vida, é desperdício de dindin.

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