safari urbano

Existe no Rio um passeio clássico pelas favelas. As empresas que promovem os passeios utilizam jipes abertos como os que cruzam savanas africanas em safari. Os turistas ‘apreciam’ as construções, conversam sobre a arquitetura do local, interagem com os moradores, deslumbrados com a vista e encantados pelas crianças. Lógico! Os que estão ali são simpáticos e não oferecem perigo. Por isso, o turista chega perto, faz contato, consegue até olhar no olho da criança! E dá-lhe #selfie. 
 
“Os visitantes podem ver de perto o modo de vida e uma cultura diversificada. Nós mostramos a cultura e o desenvolvimento sustentável de uma comunidade”, diz o guia. Sustentável? É isso mesmo? Ou eu entendi errado?
 
Conheci um paulista que, na tentativa de bancar o despojado, me disse, durante o tour, que quando vinha ao Rio [não era sua primeira vez na cidade] costumava tomar cerveja em um boteco na Rocinha, com um tal de Seu Raimundo para ‘trocar ideias’.
 
“Sabe, pra gente que vive trancado em escritório, essa gente é um aprendizado”, disse a besta. Sacou o iPhone e começou a me mostrar algumas fotos [em preto e branco] feitas do rosto do tal Raimundo [cerca de 60 anos], sem dentes, magro e sorrindo.
 
Eu não esbocei reação. Fiquei com vergonha. Ele, empolgado, disse: “Isso é arte, Silvia. O Brasil é rico! Diversidade, miscigenação!”. Pensei: “Deus! Esse é o tipo de cara que vai para Salvador e volta com alguns berimbaus para decorar a casa.”
 
Mas, tudo certo. Eu estava ali, participando do passeio, justamente para entender melhor o que buscam os que decidem montar em um jipe para conhecer as favelas do Rio. De repente, uma menina de Fortaleza, grita: _ Será que vai ter tiroteio? [ excitada e feliz, completamente alienada ]. O guia respondeu:
_ Imagine! Estamos distantes do perigo! 
Pensei: É. Estamos na área Disney da favela.
Apesar de saber que aqueles jipes não incomodam em nada os habitantes da favela, eu me senti ridícula, me bateu um sentimento de invasão de privacidade. É como se o pobre fosse uma atração circense. Imaginei que de uma forma ou de outra as pessoas observassem aquilo tudo e questionassem seus ou nossos valores. Ledo engano.
As pessoas se comportam como se estivessem visitando um zoo. O grupo incorpora Sebastião Salgado e começa a fazer fotos e mais fotos. Alguns usam seus smartphones. Outros trazem equipamentos profissionais que fazem parte do figurino do personagem. Não são fotógrafos mas sentem prazer em parecer que são. Normalmente, antes da viagem, pedem para um amigo, um fotógrafo profissional, colocar aquela porra toda no automático.
 
Aliás, desde que Sebastião começou a retratar a pobreza, na época, embalado por nobres causas, o famigerado virou arte, mesmo que sem propósito. Os valores, os discursos do quanto nos distanciamos do que precisamos para ter o que queremos, o chocar-se com a desigualdade, tudo isso passa batido. Somos capitalistas desvairados, retardados. É bonito ter na parede de casa um quadro de um velho desdentado.
 
Depois desse tour, vai todo mundo para o restaurante da Roberta Sudbrack e o pobre vai ‘passear’ no Face, no Insta e de repente até enfeitar a parede da casa de algum bacana, fora do país ou num bairro nobre de São Paulo.

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