o primeiro, a gente nunca esquece

Eu sempre detestei sutiã. Porém, não tenho a menor condição de dizer que ele não faz parte da minha vida. Fez e faz. A  falta dele sempre foi um dilema, um obstáculo na hora de escolher roupas, motivo de brigas com quem achava que eu repudiava o sutiã para provocar os homens. Enfim, até no divã, os sutiãs que eu não tive já foram parar. Na adolescência, por razões quase óbvias. Mamilos não são mamilos. São armas. Mamilos podem disparar mísseis [duplo sentido].

Depois que o infeliz do Washington Olivetto criou “o primeiro sutiã, a gente nunca esquece”, o produto da Valisère virou um sonho de consumo, uma obrigação entre as meninas que se deparavam com seus primeiros raios de mulher.

Coco Chanel já dizia que os espartilhos deixavam as mulheres menos inteligentes, por respirarem com dificuldade. Mas, naquele tempo, eu não fazia idéia de quem era essa moça. E, quando recusava sutiãs, achava que este meu desconforto era herança indígena. Até minha sexualidade já foi questionada por causa da minha aversão ao sustentador de mamas. Nas sessões de psicanálise, normalmente, o sutiã acaba indo parar no colo do pai. Ele simplesmente nunca me obrigou a usar nada que me incomodasse, incluindo batons, laçarotes e salto alto. Porém, até mesmo ele questionava a falta do sutiã quando fiquei mocinha. Achava que mesmo que minha intenção não fosse provocar os homens, eu deveria ceder e usar aquele apertador de costelas. E eu pensava: _ Nossa! que gente louca. São só peitos.

Naquela época eu não via lindas mulheres desfilando, sem sutiã, em Paris. Eu estava aqui, presa em terra brasilis. E a solução que encontrei foi usar camisas escuras e cachecol, coisa que faço até hoje. Não curvei meu ombro para frente. Minha postura continuou decente.

Toda mulher descobre no peito, uma arma. E, toda mulher acaba ‘atirando’, mesmo sem entender ao certo qual a razão deste fascínio dos homens pelos seios femininos.

Mal sabia eu que até mesmo a invenção desta algema peitoral – o sutiã – começou com um gesto de rebeldia. A história diz que a jovem nova-iorquina revoltou-se contra o espartilho que não só a apertava como sobrava no vestido de noite que acabara de comprar e fez uma espécie de porta-seios tendo como material dois lenços, uma fita cor-de-rosa e um cordão.

A invenção tinha o objetivo de acomodar o seio, possibilitando moldá-lo, diminui-lo, escondê-lo ou exibi-lo. Transformou a coadjuvante roupa de baixo em protagonista do figurino da mulher. Antes escondido, hoje é usado até como roupa de cima.

Independente da minha história com sutiãs, fica claro que carregar peitos sempre foi uma questão complicada. Parece que a mulher nunca soube exatamente o que fazer com aquele par de seios que, até hoje, mata a fome de bebês de todas as idades. Nada me impediu de evitar o uso do sutiã. Nem mesmo a possibilidade de encantar um príncipe exibindo meu parzinho de seios com rendinhas em volta me fazia crer que alguém pudesse achar um sutiã mais sensual que a ausência dele.

Ainda hoje, só dou o braço a torcer em casos extremos, como uma blusa social branca, por exemplo. Mesmo assim, livro-me do infeliz assim que saio de cena. Desenvolvi técnicas. Sei tirar um sutiã dirigindo, sem me despir e sem que quase ninguém perceba.

ps:

Quando esse texto foi publicado na revista Domingo, do Globo, Washington Olivetto leu, gostou e me mandou um biquíni de presente. No cartão, ele dizia o seguinte: Pensei em mandar só a parte de baixo, mas achei que seria indelicado.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *