ménage à trois

Fui chamada pra ir à casa do novo namorado de uma amiga deslumbrada que estava numa fase divina, pelo que apontavam minhas narinas.

O cara morava na Vieira Souto, numa cobertura fria. Cheguei achando que encontraria o casal e mais alguns convidados. Me enganei. Ele abriu a porta, apresentou-se e me perguntou se eu queria beber alguma coisa.

Eu disse: ‘Não, por enquanto, não’. Minha amiga estava no banho e a intenção do rapaz, de sobrancelhas mal feitas [detalhe importantíssimo] era me ciceronear até que a retardada da Mari aparecesse. Me ofereceu pó. Não, obrigada. Isso é bom demais. Dá “poblema”!

Percebi que eu era a única convidada da festa. Num telão gigante, desses que sempre me apavoraram quase tanto quanto um caraoquê, rolava um show do Sting. A vista era espetacular e seria sedutora se eu não fosse carioca. O apartamento era impessoal, como um quarto de hotel. Sofá branco. Todos amam sofás brancos. E se tem uma coisa que eu não entendo é esse fascínio da maioria pela tal da cobertura. É o céu? Deve ser. Não me importa. Eu preciso de um teto, que é para eu nem pensar em voar.

Minha amiga demorava no banho e ele insistiu nas bebidas. Começou a me mostrar o que ele tinha no bar. Eu disse que preferia tomar uma cerveja. Muito educado, aquele ser magro, com uma calça jeans justa, uma camisa social branca e gel nos cabelos, virou pra mim e disse:

‘Não tenho cervejas aqui. Podemos ir até o posto comprar algumas’. Pensei que fôssemos esperar minha amiga sair do banho. Me enganei pela segunda vez. Ele pega a chave do carro e diz: ‘Vamos! Quando ela sair do banho, já estaremos de volta’. Descemos para a garagem. Ele me dá a chave do carro e diz, numa tentativa de aproximação, forjando uma intimidade que não existia: ‘Quero ver você dirigindo’. Fiquei sem graça, sem ação. Achei aquilo estranho, cafona, sertanejo, mas, não deixei de sorrir e dizer: ‘Vamos lá! Posso fumar? Adoro fumar enquanto dirijo’. Ele tirou um isqueiro do bolso.

O carro era um desses que faz brilhar os olhos de ‘gold diggers’. Não me lembro o modelo. Era uma coisa conversível, preta e pequena. Não conheço automóveis. Sofro quando chamo um Uber. Um Corolla modelo tal. _ Sei! Salve o pisca-alerta!

Voltando ao texto.

Para não parecer uma idiota, que era exatamente como eu estava me sentindo, sentei no banco do motorista e saí da garagem como uma lady. Ele, obviamente, começou a me dizer que eu estava dirigindo um carro assim e assado [descrições técnicas chatíssimas]. Chegamos ao posto em menos de cinco minutos. Compramos a cerveja e voltamos para o apartamento.

Quando chegamos, minha amiga já estava linda, leve e solta. Eu fiz de conta que estava achando tudo aquilo natural e agradável. Não era hora de puxar ela pro banheiro e perguntar: ‘Que porra é essa?’. Percebi que a onda dos dois era outra. Começamos a beber. Pensei: Pronto! Agora, fica mais fácil entender qualquer porra. _ Escuta, podemos ouvir outra coisa? Tem Fábio Jr.?

Mari me olhou com olhos arregalados. Ah! Mari. Tudo tem um preço. Quero ver como é que fica esse clima ao som de Caça e Caçador? E não me olhe torto que eu peço Oswaldo Montenegro, porque metade de mim está C, e a outra metade, está U.

O rapaz das sobrancelhas feitas já estava íntimo e fazia o possível para me agradar. Mari disse que eu estava brincando. Mesmo assim, com todo respeito, ele respondeu: _ Não tenho Fábio Jr. Mari não era Mari. Estava vivendo um personagem.

Os dois se sentaram no sofá e começaram a se beijar. Eu, meio sem graça, fui até a varanda fumar um cigarro. Olho pra trás. Vejo minha amiga de joelhos e o cara sentado no sofá. Na mesa de centro, uma bandeja de prata, recheada.

Eles estavam começando e a intenção era que eu entrasse no jogo. A cena era mais assustadora que tentadora. Eu precisava de algo mais pra sair daquela varanda e caminhar até o sofá. Aliás, eu só precisava  gostar de ménage à trois.

Passei pela sala, dei um bom tapa na bandeja de prata, um outro na bunda da Mari e fui até a cozinha. Achei a chave do carro, desci e voltei para casa, dirigindo aquela coisa conversível, preta e pequena.

Um comentário sobre “ménage à trois”

  1. Adoro os detalhes. Você me surpreende. Faz tempo que não leio coisas boas. A imprensa está uma merda. Por que será?

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