estrogonofe

Em qualquer empresa grande – no job description dos diretores – existe o item ‘aproximação dos funcionários que estão abaixo de você’. Isso envolve tentar decorar os nomes das esposas e filhos, fazer de conta que você realmente se importa com a família deles, falar_ com naturalidade _ sobre assuntos como terapia, educação dos filhos e viagens pitorescas para Campos do Jordão, Cabo Frio, Disney, Nova Iorque e os cacetes.

Vale almoçar com eles _ uma vez por semana _ no refeitório da empresa, e, uma vez por mês, escolher alguns e convida-los para jantar na sua casa. O gerente se sente prestigiado e rende mais no trabalho. A partir do momento que os gerentes escolhidos [ e suas esposas ] “entram” na casa do chefe, uma relação de proximidade de instala.
Alguns [ os sem noção ] chegam a pensar em chamar o diretor para ser padrinho do filho que está por vir.

“Puta que me pariu, como dizer não?” [ Calma, diretor. Declare-se judeu, sempre.]

A mulher do diretor já tem seu script pronto. Durante o jantar, ela vai falar das crianças, da escola, e da relação das crianças com os smartphones.

“Pois é, diz uma das moças. Eu tento evitar mas também não posso deixar meu filho alienado”. Neste momento, todas se identificam e repetem variadas teorias sobre o tema. Quanto ao filho alienado, fica simples entender que a mãe está dominado pelo filho, coisa muito comum nessa geração em que os filhos vivem em bolhas ilusórias, onde não há perigo.

Bom, o assunto aqui não é pedagogia de botequim. Voltemos para o jantar.

A minha presença é importantíssima. Faz parte do meu trabalho. Não posso demonstrar minhas vontades ou falar o que me vem à cabeça, assim, sem medir consequências. Tampouco posso olhar para a mulher que está sentada ao meu lado e dizer: _ Por que carregar tanto no perfume, querida? Isso altera o olfato, interfere no paladar. Mas, a escolha do perfume é indispensável. Pronto! Se bem colocado, este assunto pode render uma boa discussão.

O cardápio é sempre exótico. Normalmente, alguma receita de algum chef famoso ou inspirados em #brasilidade, #sustentabilidade e etc. Aqui, nos deparamos com duas possibilidades:

Possibilidade 1 – A empregada – Nilza – que trabalha para o casal, há 12 anos, desde o nascimento de Luquinha, é uma cozinheira de mão cheia. A anfitriã diz: “Eu não vivo sem a Nilza. Dispenso o Marcos mas não deixo a Nilza sair de casa, de jeito nenhum”. [risos e mais risos ]. O anfitrião ouve, chega perto da esposa, com um sorriso de “não te como faz seis meses” e solta a frase pronta: “Trabalho o dia inteiro e ainda tenho que ouvir isso, Monica?”. Todos acham tudo super funny e se identificam. Eu, como convidado, já estou fumando um cigarro na varanda, tomando uma Heineken.

Possibilidade 2 – Monica, inspirada em programas de culinária do GNT e nos filmes de Hollywood em que a mulher, elegantemente, veste um avental, e para deixar o cenário perfeito, uma taça de vinho branco na mão. Ela adora cozinhar e receber visitas. Brincar de ser Rita Lobo. No entanto, a criadagem continua em cena. Nilza é o Batista do Claude Troisgros. As esposas dos gerentes ficam ao redor, interessadas na receita. Ficam encantadas com a cozinha toda equipada, com a batedeira vermelha, “puxada” no vintage. E as relações entre empregada e empregadora mudou bastante. [ Nilza não é negra. Monica é ].

Normalmente, o som é discreto. O volume depende da disposição dos cômodos. Nenhum convidado deve ouvir _ por exemplo _ o som do quarto da sogra de Marcos, que não dispensa a novela e não se sente à vontade em participar do evento. Na verdade, ela é dispensada do jantar. Os mais velhos, normalmente ficam isolados ou são montados – colar e brinco – e aparecem somente para cumprimentar o pessoal e ouvir os que são obrigados a ouvir sempre: “Nossa, como a senhora está bem”. O casal revela a idade da senhora. Os convidados ficam es-pan-ta-dos. Monica ou Marcos dizem que ela é lúcida, ouve bem e tem até Instagram. Alguém solta a porra da frase pronta: _ Ela está melhor que a gente!

Pronto! Começa o papo do como envelhecer bem. Momento perfeito para outro cigarro. E penso: Poderíamos jogar Imagem e Ação. Seria bem mais pitoresco.

Enfim, Um começa a dizer que parece mais jovem que o outro e essa chatice vai tomar pelo menos uns 15 minutos de conversa. Eu perco a paciência. Sugiro, num discurso simpático, que o grupo converse sobre outras coisas, como cinema, filmes que marcaram suas vidas, enfim, até peteca era melhor do que aquele papo. Cinema é um bom papo. É arte e ninguém tem a obrigação de gostar de nada. As pessoas podem ser sinceras e acabam se sentindo mais à vontade para falar o que pensam da vida.

Observação: É uma falta de etiqueta, num jantar, um convidado fazer uma avaliação sobre os nutrientes e os alimentos assassinos ali presentes.

Bom, quando termino de fumar e volto para mesa o assunto é “Nós estamos tentando melhorar a alimentação lá em casa”. Cortamos refrigerantes, substituímos o arroz comum pelo integral, usamos quinoa nas saladas. Foi a Bel, outra convidada, que nos indicou a Marisa, nutricionista. Ela é ótima porque ela faz o cardápio de acordo com aquilo que a gente gosta de comer, sabe?”. Sei! [ cara de cu ].

E eu, calado, penso: Olha o que o mundo fez com a cabeça dessa gente. Precisam de uma nutricionista para compor uma dieta balanceada. Aliás, se tem uma coisa que eu não suporto é mulher escrava de balança.
É chegada a hora.

Monica serve o cordeiro recheado com qualquer coisa que eu ouvi e não entendi, risoto de aspargos e uma salada de rúcula com manga. Acreditem. Existe um site que diz quais os pratos adequados para ocasiões. Achei que fosse bobagem. Não é. Atualmente, por exemplo, servir um estrogonofe, é considerado primitivo.

Pensei: Se Monica tivesse optado por um tradicional estrogonofe de filé mignon com batata palha, ela não imagina o sucesso que faria. Mas, essa sou eu. Tenho certo prazer em inverter as regras do jogo, para mostrar para as pessoas perceberem que apesar do jantar ser corporativo, eu gosto de estar perto de gente que me surpreenda.

O estrogonofe representa simplicidade, um dos mais importantes e, às vezes, subestimado conceitos da vida. Digamos que o estrogonofe com charme seria um prato acolhedor e uma viagem no tempo. Afinal, ele já esteve em alta!

O cordeiro é considerado sofisticado. A porra do pato também. Eu não como nenhum dos dois e me satisfaço com a rúcula e risoto de aspargos.

Para proporcionar um orgasmo coletivo, chamo Nilza e peço um ovo frito. Pronto! Acabo de me tornar o cara mais bacana da face da terra.

“Ele é simples!”

E o ovo frito entra pra história.

Ah!
Eu não sou esposa nem gerente. Sou o vice-presidente.

25 comentários em “estrogonofe”

  1. Puta texto legal, Silvia!!! Não sou a vice-presidente, nem fumo… e tô aqui pensando em como fugir do déjà vu…

  2. Cômico se não fosse trágico. Infelizmente vejo a sociedade cada vez mais perdendo a essência e vivendo de aparências. Tenho pena dessa gente.

  3. Devoro seus textos com aquela inveja básica de quem escreve com lucidez, eloquência, e síntese. O de hoje remete quase como uma descrição das cenas de refeição em familia do nazista fodastico da serie o Homem do Castelo Alto. Se por um lado tomamos a Normandia por outro nossos corações foram tomados.

  4. Silvia,
    Uauuuu…que texto ótimo. Lembrei me da parte da obra de Cury (O Vendedor de Sonhos), onde em uma apresentação ao público, o protagonista, e a maioria corporativistas na plateia, ele fala da sociedade que está adoecendo, está doente, e ‘somos traidores de si mesmos…’ Parabéns por seus textos!!!

  5. Sendo repetitivo.. PQP! Massa demais o conto.

    “dos preços de tudo que vale a pena comprar “lá fora”; “Enquanto todos degustam vinhos, eu bebo uma Heineken.; “Algum retardado certamente solta um: _ Ela está melhor que a gente!”; “Acabo de me tornar o cara mais bacana da face da terra. E o ovo frito entra pra história.”
    Foda, foda!

  6. Sim, temos muito disso. Faz parte do script. Ser autêntico muitas vezes quer dizer ser chato. Então…

  7. Hahaha amei! Reconheci muitos conhecidos nesses personagens. Com certeza, sou o VP que queria estar comendo pipoca e vendo Netflix, mas tenho que ouvir assuntos vazios.

  8. Caí na sua pagina por recomendação de um cara, cujo nome não lembro agora (nem vou lembrar depois). Só sei q gostaria de agradece-lo, e agradecer-te, pq textos assim vomitam a realidade q está entalada e tememos revelar. A-do-rei.

  9. Hoje vi um cara passando com um livro de Orwell, tomara que seja somente coincidência hahaha. Pirei no texto, parabens!

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