jogo de xadrez

 

Fico observando a preocupação dos pais com a educação formal dos filhos. Os valores que o pai, modelo ocidental, neurótico e coisa e tal, passa pro filho, como se fosse um manual. Quantas línguas a criança vai falar, que tipo de esportes vai praticar. Que livros vai ler e que instrumentos vai tocar. Percebo que a intenção dos pais é boa. Porém, tenho a sensação de que parecem estar preparando os filhos para uma espécie de guerra, onde eles terão de se destacar para sobreviver. Onde o outro – o amiguinho – pode ser visto como um futuro concorrente quando a criança for fazer uma prova para garantir sua vaga-mirim em empresas sólidas como a Apple, por exemplo.

Pais não querem que seus filhos sejam comuns ou medianos. Orgulham-se dos que vencem campeonatos de xadrez ou olimpíadas de matemática, dos que tocam instrumentos como violino e violoncelo. Pandeiro só vale se os pais forem alternativos.

Adoram dizer que a criança é muito inteligente e que poderia passar para a turma mais avançada ou próxima série. Desde cedo, a adoração pela pressa. “Mas, a Harvard psicóloga acha que isso pode não ser legal, sabe? Ele ainda não está maduro para acompanhar os mais velhos!”

Eu aprendi a jogar xadrez quando era pequena. Jogava com meu irmão e perdia quase todas as partidas. Ele conseguia se concentrar e calcular as jogadas. Eu só queria movimentar as peças. Sempre adorei o bispo porque ele era o único daquele tabuleiro que podia correr de um lado pro outro, sem obstáculos, como se estivesse patinando no gelo.

Eu não entendo nada de psicologia mas acredito que essa neurose seja uma espécie de projeção misturada com muita preocupação e ilusão de controle. A loucura começa – por exemplo – na supervalorização de um primeiro lugar em uma simples competição de natação, futebol ou qualquer outra atividade que a criança pratique. É um verdadeiro fascínio pela vitória, coisa que para a criança, pode não significar absolutamente nada.

Hoje, tenho consciência de que eu, quando nova, só me esforçava para ganhar as competições de natação para ver meu pai satisfeito. Por mim, jamais participaria daquilo. Pais e mães histéricos, gritando perto da borda da piscina, transformando confraternização em treinamento para as Olimpíadas.

Quando eu era escolhida para fechar revezamento, ficava literalmente desesperada. Ficava quietinha e fazia o meu papel[zinho]. Se eu dissesse: “Quero voltar para casa!” levaria comigo o peso da derrota, a decepção dos pais e dos amigos. Um trabalho árduo. Portanto, era melhor entrar na piscina e vencer a porra da prova.

O pai quer que o filho se destaque. Se o pequeno cidadão estiver em perfeito estado, ou seja, não tiver nenhum problema de saúde, ele tem uma lista de tarefas pela frente.
E o modelo de sucesso é assustador. Fica claro, desde cedo, que ter parece ser mais importante que tudo. O sucesso está diretamente relacionado aos bens conquistados. Aos carros e cargos. Famílias e fardos. Bolsas e sapatos, carrinhos e helicópteros. Não sou educadora. Sou uma observadora.
A gincana é barra pesada. Tudo com data e hora marcada.
Tropa de elite.

Só torço para não ver crianças tristes e frustradas, carregando uma mochila que não é delas. Que sejam felizes com ou sem medalhas. Que possam mostrar pro mundo – e para os pais – que o conceito de sucesso é complexo.

Uns serão artistas e outros talvez vivam como turistas. Uns vão deixar o cabelo crescer e outros estarão sempre vestindo a mesma camiseta polo do pai. Alguns serão médicos ou advogados. Outros serão cantores de churrascaria, pastores evangélicos, veterinários, cientistas visionários, acionistas da Coca-Cola ou psicanalistas.

O que importa é que se sintam amados e sejam felizes, dentro e fora do possível.

18 comentários sobre “jogo de xadrez”

  1. Adorei seu artigo, Silvia! Tenho 2 filhos e odeio ter que ir nas reuniões de pais. Tem um monte de pai/mãe neurótico(a) e frustrado(a) com a audácia de pedir para o filho repetir a lição já feita na escola! Afff. Não suporto isso! Vamos deixar nossas crianças brincarem e se divertirem!!!

  2. Excelente reflexão Sílvia ! Meu saudoso pai repetia várias vezes que a vida é ilusão. Nunca entendi o porquê dessa afirmação… mas também nunca perguntei. Hoje vejo 99% das pessoas correndo para todos os lados, competindo freneticamente, deixando de viver e de compartilhar suas experiências, deixando enfim de ser humanos pensantes. Ah e com relação ao Xadrez faz quatro anos que voltei a jogar regularmente. Quantas boas amizades novas, quanta melhora na minha qualidade de vida !

  3. Parabéns pela reflexão. Me faz pensar e avaliar se estou acertando mais ou errando mais na preparação do meu filho para o mundo. Diante da sua exposição posso me sentir aliviado, de estar, creio que no caminho mais acertado. Quero que meu filho seja feliz, tudo mais ele conquista, como e quando ele quiser.

  4. Acredito que devemos mudar falamos muito em na minha época era assim tão bom.
    E esquecemos que nossas crianças só são crianças que querem se divertir e ser feliz.

  5. Excelente matéria.
    Minha filha este ano iniciou o ensino médio em uma escola com um padrão mais elevado que o habitual.
    Tenho sentido o desespero dos pais e o afã dos professores em igualar todo o grupo ( +/_ 34 alunos ) ao melhor da classe.
    Coisa impossível de acontecer porquê cada 1 é único e especial sob alguns aspéctos.
    Faço apenas três recomendações à minha filha : Divirta-se, faça bons amigos, dedique-se aos estudos da melhor forma possível mas sem esquecer que aos 15 anos você deve acima de tudo viver, pois é uma das melhores épocas da vida.

  6. Bem, essas crianças se tornarão os pais que ficam sobre o filho, insistindo que a vida é uma competição, e que só os melhores vencem. já que ele aprendeu assim, bem e se aprendeu assim então é o correto. Claro que ainda não conheci uma forma mais fácil de levar a vida.

    Talvez seja preocupação, mas acredito que muito mais vaidade, por mais que morra dizendo que não. A vaidade que ele é o melhor em tudo até de ter o melhor filho.

  7. Melhor texto da minha vida, refleti sobre o quanto estou exagerando na cobrança em relação ao meu filho, e esqueço que ele é criança. Errar vamos errar, mas descobrimos e começamos de novo. Vou recomeçar.

  8. Sou pai, logo educador; para mim é o maior desafio de minha vida e a unica certeza que temos (minha esposa e eu) é que vamos errar muito na educação dos nossos pequenos. Menos ansiedade e mais contemplação naquilo que realmente é essencial a eles?: o brincar…

  9. Silvia, você é f***.
    Deixa a Manada se arrebentar com suas ilusões de controle e vaidade, enquanto eu curto o eclipse da lua com meus filhos.

  10. Ler esse artigo neste momento foi quase sincronicidade…eu só decepcionava meu pai quando não queria cantar com ele…e quando cantava, o olho dele brilhava e era tão bom. Para contentar minha mãe, é só me arrumar um pouco melhor (ela era etilista e morre quando a filha ogra sai de jeans e coturno…)
    Hoje, mãe de dois, fico tentando não cometer este erro, mas no fundo fico me perguntando, e se eu não os preparar direito? E se ficar faltado a direção?
    É a parte mais difícil….
    Obrigada pela provocação.

  11. Como não gostar do que você escreve?
    Acho que você já descobriu o segredo do texto:
    […] “mas acredito que essa neurose seja uma espécie de projeção misturada com muita preocupação e ilusão de controle”

    Abraços,

  12. Seu texto é sempre bom de ler e só por isso já vale a leitura. Além disso, incita à reflexão de modo fácil, o que não é fácil. Claro que se a vida fosse um manual de instrução facilitaria muito as coisas, seria mais fácil tomar decisões se pudéssemos sempre prever os resultados. Educar não é fácil e tomar decisões pelas crianças é uma das coisas mais duras para um adulto porque nunca se poderá voltar atrás no caso das coisas saírem ruim. Eu mesmo queria pra mim uma vida que pudesse ser tão simples e prazerosa quanto viver e deixar viver mas não é assim que funciona e é por isso que reproduzimos nas crianças situações onde elas são testadas e estressadas para quando acabarem as brincadeiras estarem minimamente prontas para se auto defenderem e sustentarem porque o amiguinho cresceu e vai competir pelo pão na mesa e o teto na cabeça. C’est la …

  13. Acho que ando na contramão. Fico perdendo tempo ensinando para minha filha o importante trabalho das minhocas e das formigas. Não garante o futuro, mas ela fica fascinada!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *