champagne for all

Depois de uma crise de pânico, em Los Angeles, ainda em estado quase vegetativo, eu e Vanessa, minha amiga de infância, hoje cidadã da classe média americana e orgulhosa de seu green card, decidimos passar um final de semana num hotel de luxo, em Palm Springs.

Naquele puto momento, estávamos, as duas, acreditando que todo o nosso descontrole era fruto do fato de estarmos vivendo sem glamour. Eu por ter me submetido a um treinamento de ioga vergonhoso, cercada de americanos felizes e adoradores de uma seita. Ela, por estar descobrindo que viver naquele país, sem luxo, é um lixo.

Chegamos ao hotel como duas adolescentes deslumbradas, querendo aproveitar tudo que a ‘Disney’ oferecia. Vanessa, casada e mãe de dois filhos, estava satisfeita em poder vestir um roupão com as siglas do hotel e dormir numa cama de casal, sozinha. E, até passear de gôndola, naquele cenário montado, ela queria. Eu, solteira e cagada, estava disposta a fazer qualquer coisa para me divertir por 48 horas e esquecer as nove semanas de clausura sofridas no traumático treinamento de ioga.

Fomos para a piscina do hotel. As duas caminhando com uma postura impecável. Vanessa me olhava e dizia: ‘Desfile, e vamos conversando de nariz em pé, como se esse luxo todo fosse corriqueiro, afinal, fomos criadas pra isso’. _ Sim, fomos criadas para fazer um monte de coisas que esquecemos de fazer. Vanessa vestida de Paris Hilton e eu, segundo ela, sempre fazendo um estilo francesa blasé.

Escolhemos as espriguiçadeiras e nos deitamos. Do nosso lado, um americano inflável, do tipo sério, sozinho, lendo um livro [Good to Great, by Jim Collins]. Bonito e decente, segundo Vanessa. Era chamado pelo primeiro nome pelas garçonetes que nos rondavam. _ Ele não é pobre. Aliás, aqui não tem pobre. E ele não tira o olho de você, dizia Vanessa.

A preocupação dela vem do meu histórico. Sempre envolvida com músicos falidos. Com a autoestima dilacerada, achei que ela estava louca, delirando, que o cara estava concentrado no livro e não estava olhando para ninguém. Fora isso, nunca me senti atraída por americanos. Alguma coisa me impede de nadar no raso, coisa que eles fazem com maestria. O livro dispensa comentários.

Convidamos a tia da Vanessa, que vive em Palm Springs, tem 65 anos e se esqueceu em Woodstock, para passar o dia na piscina e respirar luxo. Ela veio, sentou-se e, por características próprias, figura impagável, começou a conversar com John. Continuei quieta. O cara puxou assunto. Eu disse que estava voltando pro Brasil na semana seguinte e que aquele era nosso último final de semana juntas. E, era mesmo. Depois da crise de pânico, não me encontrava em condições de permanecer nos Estados Unidos, sozinha. Aquele país não coleciona gente transtornada por acaso. A especialidade deles é meu ponto fraco. Cada vez que ouço um ‘Don’t give up’ ou um ‘You can do it’, desistir é a primeira coisa que eu faço.

Resolvi subir pro quarto e Vanessa me acompanhou, meio indignada por eu não ter dado papo pro bom partido. Poucos minutos depois, chega a tia, com um sorriso no rosto e um bilhete na mão. No bilhete, o número do quarto dele, o número do celular e um convite para nos encontrarmos em um dos bares do hotel, depois de um jantar de negócios que ele já tinha marcado. Pronto. Era tudo que a dupla de adolescentes de meia-idade precisava para se divertir. _Viu? Não disse que ele estava de olho em você?’, exclamava Vanessa, animadíssima. _Agora, escolha a roupa, tome o banho, ensaie o comportamento, tome uma cerveja e um ansiolítico e vá, sem pensar!. Como se eu conseguisse, mesmo em estado quase vegetativo, não pensar. E lá fui eu, bonitinha, vestida de mulher segura, que aceita o convite sem hesitar. Quando cheguei no bar, a primeira coisa que ele me disse foi que achou que eu não fosse aceitar o convite.

_ Oh, really? [ esse cara é republicano, pensei ]

Tomamos uma cerveja e eu disse que queria sair dali para fumar um cigarro. Fumar, nos Estados Unidos, é um deal breaker. Para a minha surpresa, ele pegou na minha mão e disse: _Vamos fumar na varando do meu quarto?. Aceitei e lá fumamos um cigarro. Depois de me dizer que era separado, pai de dois filhos e vasectomizado, me deu um beijo e veio com tudo. Parecia meio desesperado. Elogiou meu corpo, meu cheiro e me fez acreditar – por instantes – que eu era a mais gostosa das mulheres. Depois de um sexo de merda e de curta duração, em busca de aprovação do parceiro, com aquela necessidade inútil de me tornar inesquecível, parti para o sexo oral. Sexo afoito pode ser bom, mas sexo com sabor e muita saliva é indispensável. Ele rapidamente entrou no ‘oh-god-oh-god-mode’ e eu engoli porra de Washignton, D.C., onde John nasceu, cresceu, reproduziu-se e, provavelmente, vai morrer.

Vou partir desta para melhor sem entender porque as pessoas evocam o nome de Deus quando sentem prazer. Não sei se é gratidão ou culpa. De qualquer forma, divertido é. Satisfeito, me agradeceu, como se sexo oral fosse um favor e não estivesse no pacote.

Terminado o ato, o John olhou  pra mim e disse que tinha que dormir cedo pois precisava trabalhar no dia seguinte. Se ofereceu para me levar até o meu quarto [cute]. Andamos pelos corredores do hotel, de mãos dadas [mais cute ainda]. Quando chegamos na porta, onde Vanessa me esperava ansiosa por notícias, ele me deu um abraço, com direito a tapinha nas costas, e disse: _ I hope you find a nice dude in Brazil. _ Thank you!

Vanessa ficou arrasada. [ risos ]

Eu desci para boate do hotel, repleta de gente jovem, e decidi entrar na área vip. Paguei, entrei, e, me sentindo quase tão feliz quanto Susana Vieira, chamei o garçom e disse: ‘Champagne for all, please!’. Da varanda do nosso quarto, Vanessa conseguia ver parte da boate. Eu aparecia e acenava, como quem diz: está tudo bem!

Terminei a noite atrás de uma moita, com um francês, rolando na grama, rindo, conversando e bebendo champanhe no gargalo. Jamais vou me lembrar o nome dele. Mas jamais esquecerei o sabor do beijo.

No dia seguinte, conforme previsto, voltamos para Los Angeles, onde nos esperavam os filhos e o marido de Vanessa. Contei o acontecido para o marido dela, porque toda mulher adora ouvir o que um homem tem a dizer sobre o comportamento de um outro. Tudo que eu consegui arrancar dele foi um ‘lucky bastard’ e um ‘você usou camisinha?’.

6 comentários sobre “champagne for all”

  1. “Vestida de mulher segura.” Melhor expressão!
    Ser solteira sempre anima nossas amigas e parentes comprometidas. Elas adoram armar um encontro para nós. Não é mesmo?
    Adoro seus textos, Silvia!

  2. “Vou partir desta para melhor sem entender porque as pessoas evocam o nome de Deus quando sentem prazer. Não sei se é gratidão ou culpa. De qualquer forma, divertido é.” … Épico … Ensaios filosóficos Pilzianos …. #DUK7

  3. “Alguma coisa me impede de nadar no raso, coisa que eles fazem com maestria.” – Ótima observação.

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