estrogonofe

Em qualquer empresa grande – no job description dos diretores – existe o item ‘aproximação dos funcionários que estão abaixo de você’. Isso envolve tentar decorar os nomes das esposas e filhos, fazer de conta que você realmente se importa com a família deles, falar_com naturalidade_ sobre assuntos como terapia, educação dos filhos e viagens pitorescas para Campos do Jordão, Cabo Frio, Disney, Nova Iorque o os cacetes.

Vale almoçar com eles _ uma vez por semana_ no refeitório e, uma vez por mês, escolher alguns funcionários e convida-los para jantar em sua casa. O gerente se sente prestigiado e rende mais no trabalho. Alguns chegam a pensar em chamar o chefe – o diretor – para ser padrinho do filho que está por vir.

“Puta que me pariu, como dizer não?”

A mulher do diretor já tem seu script pronto. Durante o jantar fala das crianças, da escola, dos preços de tudo que vale a pena comprar “lá fora” e diz que o marido não tem tempo para nada e que tudo acaba sobrando para ela. Neste momento, todas se identificam e vibram.

A minha presença é importantíssima para eles. Faz parte do meu trabalho deixa-los felizes. Não posso demonstrar minhas vontades ou falar o que me vem à cabeça, assim, sem medir consequências. Não posso olhar para a mulher que está sentada ao meu lado e dizer: _ Por que carregar tanto no perfume, moça? Isso altera o olfato, interfere no paladar e no gosto da comida.

O cardápio é sempre exótico. Normalmente, alguma receita da Nigella Lawson ou semelhantes. Aqui, nos deparamos com duas possibilidades:

Possibilidade 1 – A empregada, Nilza, que trabalha para o casal há anos ‘dá conta de tudo’. Frase da anfitriã: “Eu não vivo sem a Nilza. Dispenso o Marcos mas não deixo a Nilza sair de casa, de jeito nenhum”. [risos e mais risos ]. O anfitrião ouve e vem com um sorriso no rosto e fala pronta: “Trabalho o dia inteiro e ainda tenho que ouvir isso, amor.”. Todos acham muito graça e se identificam. Como são patéticos e felizes. Eu, como convidado, já estou fumando um cigarro na varanda. Marca nova. Chama-se Foda-se, da Philip Morris.

Possibilidade 2 – A anfitriã, Monica, inspirada em programas de culinária do GNT e nos filmes de Hollywood em que a mulher fica de avental, na cozinha, lindíssima, com uma taça de vinho na mão, fazendo todo o jantar, resolve se incorporar este personagem. Ela adora cozinhar e receber visitas. Brincar de ser Rita Lobo. No entanto, a criadagem continua em cena. Nilza é o antigo Batista do Claude Troisgros. As esposas dos gerentes ficam ao redor, interessadas na receita. Ficam encantadas com a cozinha toda equipada e falam sobre os aparatos. “Olha, esse transformador de tudo em espaguete é sensacional. Vale super mega a pena! Você faz espaguete de cenoura, de abobrinha! E anula o carboidrato”, diz uma das convidadas, estilo magra, anoréxica. Penso: Poor kids!

Enquanto todos degustam vinhos, eu bebo uma Heineken. As músicas variam muito. Normalmente, o som é discreto. O volume depende da disposição dos cômodos. Nenhum convidado deve ouvir o som do quarto da sogra de Marcos, que não dispensa a novela e não se sente à vontade em participar do evento. Na verdade, ela é dispensada do jantar. Os mais velhos, que estão beirando os 80 ou 90, normalmente ficam isolados ou são montados – colar e brinco – e aparecem somente para cumprimentar o pessoal e ouvir os falsos “Nossa, como a senhora está bem”. O casal revela a idade da senhora. Os convidados ficam es-pan-ta-dos. Monica ou Marcos dizem que ela é lúcida, ouve bem e tem até amigos no Facebook. Algum retardado certamente solta um: _ Ela está melhor que a gente!

E então, começa o papo do como envelhecer bem. Momento perfeito para outro cigarro.

Um começa a dizer que parece mais jovem que o outro e essa chatice vai tomar pelo menos uns 15 minutos de conversa. Monica, muita simpática, me chama e diz: “Pode fumar aqui dentro!” Eu digo: “Prefiro fumar aqui fora. Assim não tenho que me preocupar com para que lado o vento está levando a fumaça.”

Bom, quando termino de fumar e volto para mesa o assunto é “Nós estamos tentando melhorar a alimentação lá em casa. Cortamos refrigerantes, substituímos o arroz comum pelo integral, usamos quinoa nas saladas. Foi a Bel, outra convidada, que nos indicou a Marisa, nutricionista. Ela é ótima porque ela faz o cardápio de acordo com aquilo que a gente gosta de comer, sabe?”.

E eu, calado, penso: Olha o que o mundo fez com a cabeça dessa gente. Precisam de uma nutricionista para compor uma dieta balanceada. Aliás, se tem uma coisa que eu não suporto é mulher escrava de balança. Normalmente, são meio retardadas, contam calorias e estão sempre sorrindo.

É chegada a hora.

Monica serve o cordeiro recheado com qualquer coisa que eu ouvi e não entendi, risoto de aspargos e uma salada de rúcula com manga. Acreditem. Existe um site que diz quais os pratos que estão na moda. Achei que fosse bobagem. Não é. Atualmente, servir um estrogonofe, é considerado brega. Pensei: Se Monica tivesse optado por um tradicional estrogonofe de filé mignon com batata palha, ela não imagina o sucesso que faria.

O nome disso é autenticidade, coisa que ninguém ali tinha.

Estrogonofe representa simplicidade, um dos mais importantes e, às vezes, subestimado conceitos da vida. Digamos que o estrogonofe com charme seria um prato acolhedor e uma viagem no tempo. Afinal, ele já esteve em alta!

O cordeiro é considerado sofisticado. A porra do pato também. Eu não como nenhum dos dois e me satisfaço com a rúcula e risoto de aspargos. Para proporcionar um orgasmo coletivo, peço para Nilza, um ovo frito. Pronto! Acabo de me tornar o cara mais bacana da face da terra. E o ovo frito entra pra história.

Eu não sou esposa nem gerente. Sou o vice-presidente.

17 comentários sobre “estrogonofe”

  1. Puta texto legal, Silvia!!! Não sou a vice-presidente, nem fumo… e tô aqui pensando em como fugir do déjà vu…

  2. Cômico se não fosse trágico. Infelizmente vejo a sociedade cada vez mais perdendo a essência e vivendo de aparências. Tenho pena dessa gente.

  3. Devoro seus textos com aquela inveja básica de quem escreve com lucidez, eloquência, e síntese. O de hoje remete quase como uma descrição das cenas de refeição em familia do nazista fodastico da serie o Homem do Castelo Alto. Se por um lado tomamos a Normandia por outro nossos corações foram tomados.

  4. Silvia,
    Uauuuu…que texto ótimo. Lembrei me da parte da obra de Cury (O Vendedor de Sonhos), onde em uma apresentação ao público, o protagonista, e a maioria corporativistas na plateia, ele fala da sociedade que está adoecendo, está doente, e ‘somos traidores de si mesmos…’ Parabéns por seus textos!!!

  5. Sendo repetitivo.. PQP! Massa demais o conto.

    “dos preços de tudo que vale a pena comprar “lá fora”; “Enquanto todos degustam vinhos, eu bebo uma Heineken.; “Algum retardado certamente solta um: _ Ela está melhor que a gente!”; “Acabo de me tornar o cara mais bacana da face da terra. E o ovo frito entra pra história.”
    Foda, foda!

  6. Sim, temos muito disso. Faz parte do script. Ser autêntico muitas vezes quer dizer ser chato. Então…

  7. Hahaha amei! Reconheci muitos conhecidos nesses personagens. Com certeza, sou o VP que queria estar comendo pipoca e vendo Netflix, mas tenho que ouvir assuntos vazios.

  8. Caí na sua pagina por recomendação de um cara, cujo nome não lembro agora (nem vou lembrar depois). Só sei q gostaria de agradece-lo, e agradecer-te, pq textos assim vomitam a realidade q está entalada e tememos revelar. A-do-rei.

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