tourette

De tempos em tempos, tento me convencer de que uma rotina, um crachá e uma carteira de trabalho assinada resolveriam todos os meus problemas.

Tudo parecia suportável até o momento em que me deparei com um organograma. Percebi que a idéia era que eu apontasse, com o dedo indicador, uma caixinha para chamar de minha. Foi o suficiente. As 77 Sivias que em mim habitam começaram a conversar.

Escolhi uma das caixinhas, sem saber ao certo que tipo de incumbências me traria. A moça, gerente da área, comia pastilhas Valda, do tipo diet, compulsivamente, e batia uma das perninhas debaixo da mesa. Como todos do universo corporativo, ela estava sem tempo, com muita pressa. [Impressionante como o ‘não sei administrar meu tempo’ é sinônimo de sucesso]. Enquanto falava sobre os novos desafios da área, picava post-its com tarefas já executadas e atirava-os num lixinho.

Ela se posicionou na cadeira, olhou para a minha cara e disse:

_ Silvia, preciso de uma pessoa sênior, livre para viajar e disposta a encarar novos desafios. [para mim, por exemplo, trabalhar de meia-calça e salto alto é um tremendo desafio]

Traduzindo: Quero alguém que vai despejar toda a sua energia no trabalho e não sairá durante as tardes para levar bebês ao pediatra. “As mulheres com filhos acabam se ausentado mais. É normal. Reunião na escola, virose, administração de babás”, disse a dona do assustador crachá.

Provavelmente, escolhi alguma caixinha relacionada a novos mercados. Meu forte é tirar leite de pedra e apostar todas as minhas fichas no improvável. Apesar de nem sempre atingir os resultados programados, mergulho com tudo, sem meia-calça e sem salto alto.

Aproveitei o gancho dos bebês que desconcentram suas mamães polivalentes para dizer que descansos de tela com fotos de bebês com laçarotes na cabeça, em geral, me causavam náuseas. Comentário desnecessário? Sim, completamente.

Saiu! Tipo de coisa que acontece comigo. Falo sem pensar.

E, ao invés de calar a boca ou mudar de assunto, segui firme na importância do descanso de tela. De repente, gritei: _ Branding! como se estivesse cantando o Bingo. Não satisfeita, resolvi citar exemplos.

_ Não é legal entrar em uma loja da H.Stern, por exemplo, e se deparar com uma vendedora com 120 quilos. Isso pode confundir a imagem que o consumidor tem da marca, entende?! Pode parecer preconceito. E é. Você já viu alguma vendedora obesa na H.Stern? É identidade de marca. Olhe para os seus funcionários. Uma tem uma foto de um bebê – aliás, um bebê feio – como descanso de tela. O outro tem o brazão do Botafogo. Isso não é legal. O descanso de tela tem que ser a imagem da marca. Uma coisa padronizada, limpa. A vida pessoal de cada um que fique no smartphone, onde eles podem descarregar todo o mau gosto deles!

Com um sorriso corporativo estampado no rosto, ela me cortou – com classe – e disse: _ Espere o pessoal do RH entrar em contato com você, querida!

Esperei sentada. Naquela época, eu não estava medicada.

ps: Isso é apenas um conto.

2 comentários sobre “tourette”

  1. Um conto bem realista. Quanto a moça do post it, conheço algumas, e uma, em especial, continua lá, naquele escritório frio vampirizando os colaboradores. Fico conversando com a minha sombra, acho que só o Deus Odin dos Vikings pode resolver certas questões!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *