neo pobre [segunda edição]

Smartphone, TV de 50 polegadas, vinhos diversos Os neo pobres [nova classe média] não se contentam mais com produtos populares. A euforia consumista anda fazendo as pessoas gastarem tudo o que recebem com o que desejam e não com o que precisam.

O comportamento do brasileiro é o do desvairado. A impressão que tenho é de que todos estão levando a sério esse papo de viver o presente e não se apegar ao que passou ou ao que virá. O que importa é o momento presente. As prestações pertencem ao futuro.  São todos budistas.

A indústria tira proveito dessa histeria coletiva e faz com que as pessoas adquiram ou se sintam obrigadas a adquirir o que as tornaria mais felizes e saudáveis. E lá vem o neo pobre, com 16 frascos com cápsulas diversas. Afinal, o medo de envelhecer é uma máquina de fazer dinheiro.

A medicina preventiva [que me dá calafrios] é um excelente exemplo de consumo insano. São vitaminas, probióticos e os cacetes. Tudo para  previnir o câncer e ajudar o cidadão a envelhecer de forma saudável ou a acreditar que ele não vai envelhecer. Bombardeados pelo glamour e pelos equipamentos sofisticados dos hospitais mais decentes e pelas facilidades oferecidas pelos planos de saúde, os neo pobres se tornaram frequentadores assíduos das emergências dos hospitais particulares. Basta uma dor no abdómen. Pronto! É vesícula! Bora bater a ultra e fazer um hemograma completo!

O carro também é sinônimo de status. O neo pobre paga aluguel, tem dívidas, mas não anda em qualquer carro e não dispensa o insulfilme, uma das coisas mais cafonas que 90% da população aderiu sem pestanejar, por motivos de “segurança” e ou privacidade.

Economizam para comprar um tênis de marca para os filhos ou bolsas e óculos que façam a neo pobre acreditar que ela será mais respeitada se estiver “carregada”  de marcas sofisticadas.

Até empréstimo em banco fazem para que a festa de um ano do aniversário do filho seja um sucesso. Tem que ter salgado de camarão, pula-pula, animadores, piscina de bolinha, bebidas de primeira para os adultos e lembrancinha criativa, com foto do bebê.

Frequentam restaurantes da moda, mesmo que a comida seja exótica e não lhes apeteça, e usam novelas e revistas de celebridades como referência de comportamento.  A falta de autenticidade chega a torná-los autênticos.

É a síndrome do Facebook e do Insta, ferramentas gratuitas que acabam custando caro para muita gente, palco de uma competição velada entre seus usuários,  que exalam felicidade e sucesso e acabam confundindo bastante uma porção de valores.

Os filhos dos neo pobres não são incentivados a valorizar o simples. Muito pelo contrário. O neo pobre se sente bem em dar ao filho aquilo que ele não teve. Tem certo fascínio por Nova York e Orlando, e adora programas de milhas. Em viagens, fotos não podem faltar. Viajar só tem sentido se a experiência for compartilhada.

Ouse dizer: Hoje, vamos sair sem smartphones? Você será imediatamente hashtag reprovado, hashtag vaiado.

P.S. Toda vez que eu toco nesse assunto, alguém me pergunta se estou me referindo ao pobre de espírito. Não. A resposta é não. Até porque pobres de espírito todos somos. Egoístas e vaidosos por natureza.

6 comentários sobre “neo pobre [segunda edição]”

  1. Parabéns, Silvia!
    Texto muito bem escrito. Mais direto, impossível.
    E o mais importante: faz-nos perguntar “quem nunca?”.

  2. Gostei muito do seu texto. Vou refletir um pouco sobre, mas, adianto, concordo com tudo! Sou adepta ao menos é mais, é tento passar esses valores ao meu filho. Grata por tudo!

  3. Invariavelmente esse novo pobre, ou novo rico?, é igualzinho a cachorro de rico: cuida da casa do rico, latindo à noite toda, mas dorme do lado de fora. É o pobre de direita, fenômeno brasileiro, como já dizia o Tim Maia ou, pelo menos, lhe atribuem. O ditado é que “o Brasil é o único país do mundo em que puta goza, cafetão é ciumento, traficante se vicia e pobre é de direita”. Para essa gente, a agenda de vida é a Globo que controla, bugiganga eletrônica tem que ser da Apple, cinema é só Hollywood, e o chique é ser sacoleiro internacional via Orlando e Miami. São os patrouxinhas, mistura de pato, trouxa e coxinha. São os paneleiros, os manifestoches, os manipulados. São os cristãos que pregam a pena de morte. São os cristãos que desejam a volta da ditadura militar. São os cristãos da teologia da prosperidade e do provérbio chinês “ensinar a pescar”, esquecendo-se que Jesus sempre repudiou a riqueza e não só multiplicou pão e peixe, mas alimentou a muitos. Enfim, é a classe média ignorante, hipócrita e preconceituosa.

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