#sheton

Quando decidi ou por mim decidiram acender as luzes de emergência, foi um horror. De pijamas, completamente bêbada, comprando pó, numa esquina, com travestis de programa. Dali, direto para o Sheraton. A mocinha chamou mais duas amigas para a festa. Não fez diferença alguma. Nunca estive tão sozinha.
Uma dificuldade entrar no Sheraton com travestis de programa. Eles andam sem documentos e não têm cartão de crédito.

Meu figurino era inesquecível. Um sobretudo clássico, parisiense. Por baixo, um pijama azul que eu amava e perdi, calça e camisa de lã, e… havaianas laranjas. O laranja da havaiana combinava com os detalhes da bolsa de couro. Estava de óculos escuros e com um coque exótico, cabelo preso por uma caneta. Os caras do hotel_ na certa_ acharam que estavam diante de uma celebridade decadente.

Depois de muito, mas muito louca, elas decidiram me convencer a mudar meu visual. Fomos às compras. Tirei meu pijama e saí da loja [não me lembro qual] de vestido. Um tecido leve, marcando meus seios, com um dos ombros aparecendo – ainda de havaianas – desfilando pela orla como se estivesse numa passarela. Perdi o pijama – deixei na loja – mas não abandonei meu sobretudo.

Voltamos para o hotel. O pessoal da segurança sempre por perto. E eu não conseguia entender a razão. Cheguei a chama-los de preconceituosos. Bebi mais cerveja, pedi Moët & Chandon.
Estava só estava brincando de jogador de futebol renomado.
Dali pra frente, amnésia absoluta. Cinderela desmaiou.

Como estavam comigo na hora da compra do vestido, até empréstimo tentaram fazer usando meu cartão. Óbvio. Eu devo ter digitado a senha na cara de uma delas. Se bobear, anotei a senha em um papel, já no patético estágio ‘somos amigas’.
O banco tentando entrar em contato comigo. Meu celular tocava mas ninguém atendia.

Entraram em contato com meu irmão sugerindo a hipótese de eu ter sido sequestrada. Família em pânico. Acordei e uma delas estava ao meu lado, me vigiando. Quando eu me dei conta dos fatos, abri a carteira e vi que faltava um dos meus cartões. Me fiz de idiota, o que não foi difícil.

Se ela sacasse que eu tinha percebido, poderia me agredir ou coisa parecida, até porque elas não têm nomes nem documentos [daí a confusão para entrar no hotel]. Me olhou com uma cara de desprezo e perguntou: “Quer dar mais um teco?”. E eu: “Óbvio”. Pensei: “Se eu tiver um minuto de lucidez, aqui, cometo suicídio”. E dá-lhe cocaína de última categoria.

A bonita entrou na onda de fazer selfies na varanda do hotel, mostrando a praia, fazendo aquele bico ridículo e usando a hashtag #sheton. Ela não conseguia falar ou escrever “Sheraton”. Enquanto ela pirava nas fotos, mandei uma mensagem pro meu irmão e ele veio me resgatar.

A mensagem foi breve: “Estou no Sheraton, na merda. Vem me buscar”. Ele entrou como se fosse mais um convidado da festa e #sheton não perdeu tempo, deixou claro que estava disponível. Cabelo para um lado, cabelo pro outro, chiclete na boca. Provavelmente, sentiu-se insegura com a chegada de um homem. Afinal de contas, ela era cúmplice de um golpe.
Ele – meu irmão – sentiu um super alívio quando me viu num quarto decente, ao lado de um pedreiro fantasiado de mulher.
Afinal, eu estava viva e intacta.

Fechamos a conta. Pagamos #sheton pelo tempo que ela esteve fazendo um programa e fomos pra casa dele. No meu telefone, uma foto minha, apagada, jogada na cama. Sim, #sheton fez questão de deixar registrado o meu estado lastimável pós boa-noite-cinderela.
A foto, eu apaguei. Os flashes, ainda não. Ver #sheton tomando banho foi quase como estar diante de uma obra de arte desproporcional. Escatologia pura.

Fora a despesa financeira, aquela sensação de cansaço, fracasso e derrota demorou um tempo para sair das minhas costas. O banco bloqueou a festa das meninas. A minha já tinha terminado no momento em que vesti aquele sobretudo e resolvi chamar um táxi para sair de casa e virar pó, na praça do Ó.

2 comentários sobre “#sheton”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *